segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O AMOR CHEGA TARDE


O “Amor chega tarde”, atualmente em cartaz, escrito e dirigido pelo alemão Jan Schutte , lançado originalmente em 2007, e tendo no papel principal Otto Tausig como Max Khol, começa num sonho e acaba numa justaposição entre o real e a ficção (o texto). Esses três elementos se articulam para retratar Isaac Bashevis Singer, escritor de origem judaica, nascido na Polônia, e que escolheu mais tarde os EUA como segundo lar.

A passagem que o personagem empreende do real para o sonho e deste para a ficção, pode ser acompanhada pelos sucessivos tratamentos concedidos à morte: no sonho, quando se torna testemunho de um assassinato; no real, quando lhe é comunicada a morte de um hóspede, vizinho ao seu quarto de hotel; e na ficção (seu conto lido para um auditório), quando lhe é comunicado o suicídio da vizinha por quem se apaixonara.

O filme, a ficção de uma ficção, termina justo no momento em que o escritor complementa no trem a ficção lida anteriormente no auditório. Ele acrescenta ao texto o encontro do personagem principal do conto com a filha da suicida, comunicando-lhe a morte da mãe. Seus contos terminam sempre em morte, como já lhe havia observado sua antiga aluna, que lhe sugere deixá-los em aberto.

O filme, então, atendendo a sugestão, faz adentrar ao trem a jovem leitora que lhe havia pedido antes um autógrafo – naquela ocasião, ela lhe informa estar indo em viagem ao mesmo local onde na ficção, escrita depois, a filha da suicida se localiza.

Se a ficção do escritor tem como fonte o real, a cena final do filme inverte esse processo e faz o real repetir a ficção (Jorge Luis Borges?). Repetir o complemento que ele imprime ao texto original, só que, desta vez, ambos estando no trem. E nesse instante, ainda que na ficção ele fale sobre o inelutável da morte, estamos é diante da vida e suas possibilidades em aberto.

domingo, 21 de agosto de 2011

I love you

“Poucos autores de literatura contemporânea me dão mais vontade de ler do que teóricos tão diferentes entre si como Rorty, Davidson, Cavell, Agamben, Renato Barilli, Perniola, Soloterdijk, Jonathan Lear, Blanchot, Magris, Martha Nussbaum, Boris Groys... Há muita gente pensando o contemporâneo e pensando a Literatura. Fico imaginando se essa não será uma forma de literatura disfarçada. Uma nova máscara da literatura... me parecem mais radicais como invenção ficcional do que a narrativa dos tantos escritores mais ou menos conformados no esquema da prosa realista do século XIX”.

sábado, 20 de agosto de 2011

ALEKSANDR RÓDTCHENKO



O que é o banheiro do Instituto Moreira Salles? Fiquei chapado com aquele mármore. Viva os banqueiros do Brasil !!!!!
Mas não é disso que eu quero falar.
Nem mesmo dos filmes do Godard (uma excelente mostra que estava passando lá, incluindo os curtas “Todos os Homens se chamam Patrick” e “Charlotte e seu Jules”; pena que acabou).
Quero falar é de Aleksandr Ródtchenko, construtivista russo, que se embrenhou na fotografia, no designer, na escultura e na pintura. A banda Franz Ferdinand adora ele (ver a capa de “You Could Have It So Much Better” de 2005, baseada no retrato de Lily Brik, de 1924, feito pelo Homem).
As fotomontagens dele são uma das atrações da exposição com curadoria de Olga Sviblova. A exposição vai até janeiro.
Instituto Moreira Salles – Rua Marques de São Vicente, 476, Gávea.
Telefone: 21-3284-7400
OBS: Pra quem mora em Botafogo, os ônibus 158 e 170, que vão pela São Clemente, passam em frente ao IMS.
O modelo fotografado por Ródtchenko é o poeta Vladimir Maiakovski.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CAÇA ÀS BRUXAS

Uma notícia recente sobre a queda de braço entre Estado e traficantes no Rio de Janeiro nos dá conta da prisão de alguns Mcs por apologia ao tráfico.

Vou falar como compositor.

Acho preocupante a prisão por apologia a qualquer coisa.

Isso me faz lembrar a “caça às bruxas”.

Se começa em razão da apologia ao tráfico, pode amanhã se estender para a apologia de outras formas consideradas ilegais. É complicado e perigoso. É transformar a presença do Estado em algumas áreas que se faz necessário, numa arquipresença autoritária e policialesca.

Se estiver comprovada a relação dos Mcs com o tráfico, aí é uma outra história. Ou seja: sustentados pelo tráfico; ganhando salário do tráfico para fazer músicas simpatizantes ao movimento.

Mas se eles vivem dos shows e alguém ligado ao tráfico compra um determinado show deles... isso é crime?

É complicado.

Vou além. Digamos, hipoteticamente, que alguém concorde com o tráfico, ainda que não participe do movimento. E resolva defender seu ponto de vista numa canção. É crime?

Se for crime, está instaurada a censura. E a contrapartida dela, que é ainda pior para o artista: a auto-censura.

O grande equívoco por trás disso, é a falsa idéia de que a arte possa levar uma pessoa a fazer algo sugestionada. É como alguém tentando provar que o suicídio foi provocado por uma canção.

Esse poder mágico da palavra ou da música ou da pintura está assentado sobre o pior dos misticismos.

Eu vou além: não existe ofensa pessoal numa canção porque aqui estamos no campo do simbólico. Ofender diretamente é uma coisa muito diferente. Já no campo do simbólico, existe a metáfora: não se pode interpretar ao pé da letra.

Não quero com isso desconsiderar o belo trabalho da Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do sr. Beltrame. Acho inclusive correta a política de estender a prisão para o entorno do traficante, no caso, os familiares que se locupletam do dinheiro do tráfico através de imóveis e bens.

O complicado é prender por apologia ao movimento numa letra de canção.

Como compositor só queria dizer isso: no campo do imaginário, ou do simbólico, tudo é permitido. Misturar o real com o imaginário é o pior dos misticismos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

UM HOMEM TRANQUILO

UM HOMEM TRANQUILO


Escuta o murmúrio
do homem tranqüilo.
Por um triz não se tornou assassino.
É sóbrio, cordato.
Teria trucidado a mãe.
Mas tem os olhos serenos.
Um homem do bem.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

BORBOLETA NEGRA

BORBOLETA NEGRA


Parecia um corvo, um morcego,
não fosse o vôo delicado.
Era uma borboleta negra
pousando no espelho do quarto.

Suas asas eram negras como as páginas
de um livro esquecido que abri,
em cuja página lesse, ao acaso,
os versos deste poema.

Mas ela voa pela fresta da tarde
e meu rosto ileso, diante do espelho,
permanece o mesmo que sempre foi:
um rosto em branco e sem texto.

domingo, 14 de agosto de 2011

CAÇA ÀS BRUXAS


CAÇA ÀS BRUXAS


Uma notícia recente sobre a queda de braço entre Estado e traficantes no Rio de Janeiro nos dá conta da prisão de alguns Mcs por apologia ao tráfico.

Vou falar como compositor.

Acho preocupante a prisão por apologia a qualquer coisa.

Isso me faz lembrar a “caça às bruxas”.

Se começa em razão da apologia ao tráfico, pode amanhã se estender para a apologia de outras formas consideradas ilegais. É complicado e perigoso. É transformar a presença do Estado em algumas áreas que se faz necessário, numa arquipresença autoritária e policialesca.

Se estiver comprovada a relação dos Mcs com o tráfico, aí é uma outra história. Ou seja: sustentados pelo tráfico; ganhando salário do tráfico para fazer músicas simpatizantes ao movimento.

Mas se eles vivem dos shows e alguém ligado ao tráfico compra um determinado show deles... isso é crime?

É complicado.

Vou além. Digamos, hipoteticamente, que alguém concorde com o tráfico, ainda que não participe do movimento. E resolva defender seu ponto de vista numa canção. É crime?

Se for crime, está instaurada a censura. E a contrapartida dela, que é ainda pior para o artista: a auto-censura.

O grande equívoco por trás disso, é a falsa idéia de que a arte possa levar uma pessoa a fazer algo sugestionada. É como alguém tentando provar que o suicídio foi provocado por uma canção.

Esse poder mágico da palavra ou da música ou da pintura está assentado sobre o pior dos misticismos.

Eu vou além: não existe ofensa pessoal numa canção porque aqui estamos no campo do simbólico. Ofender diretamente é uma coisa muito diferente. Já no campo do simbólico, existe a metáfora: não se pode interpretar ao pé da letra.

Não quero com isso desconsiderar o belo trabalho da Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do sr. Beltrame. Acho inclusive correta a política de estender a prisão para o entorno do traficante, no caso, os familiares que se locupletam do dinheiro do tráfico através de imóveis e bens.

O complicado é prender por apologia ao movimento numa letra de canção.

Como compositor só queria dizer isso: no campo do imaginário, ou do simbólico, tudo é permitido. Misturar o real com o imaginário é o pior dos misticismos.