domingo, 14 de agosto de 2011

CAÇA ÀS BRUXAS


CAÇA ÀS BRUXAS


Uma notícia recente sobre a queda de braço entre Estado e traficantes no Rio de Janeiro nos dá conta da prisão de alguns Mcs por apologia ao tráfico.

Vou falar como compositor.

Acho preocupante a prisão por apologia a qualquer coisa.

Isso me faz lembrar a “caça às bruxas”.

Se começa em razão da apologia ao tráfico, pode amanhã se estender para a apologia de outras formas consideradas ilegais. É complicado e perigoso. É transformar a presença do Estado em algumas áreas que se faz necessário, numa arquipresença autoritária e policialesca.

Se estiver comprovada a relação dos Mcs com o tráfico, aí é uma outra história. Ou seja: sustentados pelo tráfico; ganhando salário do tráfico para fazer músicas simpatizantes ao movimento.

Mas se eles vivem dos shows e alguém ligado ao tráfico compra um determinado show deles... isso é crime?

É complicado.

Vou além. Digamos, hipoteticamente, que alguém concorde com o tráfico, ainda que não participe do movimento. E resolva defender seu ponto de vista numa canção. É crime?

Se for crime, está instaurada a censura. E a contrapartida dela, que é ainda pior para o artista: a auto-censura.

O grande equívoco por trás disso, é a falsa idéia de que a arte possa levar uma pessoa a fazer algo sugestionada. É como alguém tentando provar que o suicídio foi provocado por uma canção.

Esse poder mágico da palavra ou da música ou da pintura está assentado sobre o pior dos misticismos.

Eu vou além: não existe ofensa pessoal numa canção porque aqui estamos no campo do simbólico. Ofender diretamente é uma coisa muito diferente. Já no campo do simbólico, existe a metáfora: não se pode interpretar ao pé da letra.

Não quero com isso desconsiderar o belo trabalho da Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do sr. Beltrame. Acho inclusive correta a política de estender a prisão para o entorno do traficante, no caso, os familiares que se locupletam do dinheiro do tráfico através de imóveis e bens.

O complicado é prender por apologia ao movimento numa letra de canção.

Como compositor só queria dizer isso: no campo do imaginário, ou do simbólico, tudo é permitido. Misturar o real com o imaginário é o pior dos misticismos.

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