terça-feira, 14 de junho de 2011

ABRAÇOS PARTIDOS E MARIO BORTOLOTTO

ABRAÇOS PARTIDOS E MARIO BORTOLOTTO


Abraços Partidos, último filme de Almodóvar, tem algo em comum com o incidente que ocorreu com o meu amigo e escritor Mario Bortolotto. Tem também algo em comum com o que ocorreu no Couto Pereira em Curitiba. Fala de vingança. Mas fala também da vitória sobre a vingança. Fala de amor e arte.

E na próxima quinta feira, no Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro, às 20:00 horas, estaremos fazendo o que nos compete. Estaremos respondendo à nossa maneira, ao ato violento ocorrido, no último sábado em São Paulo, com o escritor e ator Mário Bortolotto.

Não somos a polícia, cuja lógica é enfrentar, apurar e prender os responsáveis. Vamos responder com poesia e música, coisa que o Mario adorava fazer.

O filme de Almodóvar aborda essas duas perspectivas, a vingança e o amor, em três níveis.
O primeiro nível, que diz respeito aos projetos, o filho perturbado do industrial quer fazer um filme sobre vingança (entre filho e pai a relação é de ódio); já o diretor, manifesta o desejo de fazer um filme relacionado à vida de Arthur Miller, que rejeita um filho excepcional, o que não elimina o sentimento de grande amor que esse filho sente pelo pai. A idéia de vingança apresenta a lógica da ação e reação, que o amor desconhece; no que tange ao amor, não está em jogo a relação de oposição ou equilíbrio (a diferença é o seu grande segredo).

O segundo nível, é o filme propriamente dito e o documentário. Em outras palavras, o que o pai conta pro filho (o filme), e o que o filho conta pro pai (documentário). No segundo caso, como existe a ausência da voz dos personagens, vai ocorrer a leitura labial. Uma imagem sem voz: esse é o defeito do documentário. É uma captação incompleta, distante, sem alma. Mas nem por isso será negada: serve ao menos pra captar o beijo final dos amantes e a culpa do documentarista pelo acidente ocorrido. Ao invés de ser descartado como uma espécie de vingança, o documentário, ainda que movido a ódio, vai completar o sentido e vai ser incluído no resultado final do filme.

O terceiro nível, é o filme dentro do filme. O que está sendo produzido com o dinheiro do industrial. Como vingança à fuga da mulher, o industrial realiza o filme com as piores tomadas. E quando o diretor, tenta se vingar por tudo ocorrido, marcando um encontro com o filho do industrial, sua assistente lhe revela que guardara todos os negativos. É a oportunidade para refazer o filme, parte final, quando somos brindados pelo estilo almodóvar de cinema. Essa reconstrução, da qual o seu filho vai tomar parte, reconstituindo as fotos rasgadas pelo filho do industrial, é a vitória final de “Abraços Partidos”. 

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