O INTUITIVO GENIAL
Outro dia, eu conversava com um “moderninho” e me reportava às músicas de um vanguardista reconhecido do underground. Esse compositor era um “intuitivo genial”. Não tinha nenhuma noção de teoria musical e no entanto se metia a construir arranjos arrojados, ligados ao serialismo e à música contemporânea. A questão é que como o nosso “compositor genial” não dominava a técnica, os seus arranjos de um modo geral naufragavam e não conseguiam dar corpo às suas idéias sempre “geniais”.
Diante da minha observação, o moderninho rebateu de pronto: mas não importa que os arranjos não dêem certo; pior seria se não houvesse falha, se não houvesse erro; pior seria se fosse uma composição perfeita e bem sucedida.
Deixei o moderninho e entrei no ônibus preocupado. Se o que vale é a idéia e não sua realização, então bastaríamos viver no reino abstrato, o que por si só eliminaria o sentido da arte.
Por outro lado, se o erro, a falha ou o defeito são mais importantes que a realização da idéia, pra que concebê-la? Bastaria que fôssemos levados ao sabor do acaso, o que significa também tornar-se escravo do acaso. Ser artista seria o mesmo que ser autômato.
Ou seja, segundo nosso moderninho, não há escapatória: ou é o reino absoluto das idéias ou sua ausência; no primeiro caso, eliminariam-se as técnicas e por conseguinte o mundo se tornaria invisível; no segundo caso, não haveria mais nenhuma interferência do Homem na natureza, o que significaria o retorno ao irracional.
São as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda negativa. Que nega o mundo e o destrói sem pôr nada no lugar. Um suicida ortodoxo, um Homem Bomba. Um nazista diante do Museu do Louvre, pronto a pôr tudo para os ares.
Contra essa ortodoxia, eu prefiro escrever minhas canções. E afirmar o mundo. E permanecer bem longe dos gênios. À propósito, me lembro da resposta de Caetano Veloso à Hermeto Pachoal, esse sim um gênio inconteste. A superioridade da música americana, em relação à brasileira, vem justamente do fato de não precisarem de gênios, não precisarem desses “intuitivos geniais”. Toda pujança da música americana é produto de uma educação. Afirmar o “intuitivo genial” é de uma certa forma ser cúmplice dos desmazelos do Estado e do seu descaso com a coisa pública. Nesse sentido, o “intuitivo genial” é tão conservador quanto o moderninho que o defende.
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