sábado, 4 de junho de 2011

NELSON RODRIGUES

NELSON RODRIGUES


Com Nelson Rodrigues, o taradinho nasce.

Mas é um começo insípido, cercado de resistências por todos os lados. Estamos na década de 50, período em que Grande Sertão Veredas veio a lume. Mas essa é uma outra estória. O taradinho pertence à outra casta, seu habitat não é o laboratório. Na verdade, o taradinho pode estar ao seu lado, no ponto de ônibus, no supermercado. Ele é gente como a gente.

E Nelson percebeu isso. E todo mundo leu Nelson na Última Hora – foi lá que “A Vida como ela É” se desenvolveu, paulatinamente, como um folhetim. Só que cada conto tinha começo, meio e fim. E, a cada semana, o interesse do leitor era o mesmo. Não importa que a estrutura dos contos fosse a mesma, as suas dimensões idênticas, os temas iguais. Lia-se porque no final sempre havia uma surpresa. Se uma estória parecia repetir outra, eis que nos deparávamos com alguma variação. “A Vida como ela É” parece mesmo movida a pequenas variações dentro de um eixo invariável. E essa dupla marca, o mesmo e o diferente, o idêntico e o variável, expressa o jogo de opostos em que se assenta esses textos de Nelson. A tragédia em Nelson é sinônimo de um jogo de forças opostas que, não raramente, chega às raias do suicídio. A vingança está sempre presente. Não há solução nem síntese. O que predomina sempre é a reação, o contragolpe, ao final da estória. O escândalo causado por “Vestido de Noiva”, quando encenada pela primeira vez, faz parte dessa lógica. Até chegarmos a Marcelo Mirisola, uma longa história será trilhada. Em Marcelo Mirisola, o taradinho está finalmente consolidado, adquiriu maioridade. Mas em Nelson estão os seus primórdios. A tragédia o anuncia.

Dois textos me lembram sintomas desse novo personagem que vem à tona sob intensa resistência: “Túmulo sem Nome”, e, “O Vadio”. Não será de estranhar que o personagem dos referidos textos sofra intensa artilharia. Porque o que estão em jogo são valores antigos, tais como o casamento e a fidelidade. A questão em Nelson será liquidar o senso comum e a hipocrisia – a falsa aparência, contra a qual, vai usar toda sua verve. Pior que a ausência de valores, cujo maior exemplo é o taradinho, vai ser a falsa aparência. Nada pior do que esta.

Mas a este embate, sucederá um outro mais profundo e de vida ou morte. Será entre o taradinho e o velho mundo. Desse duelo implacável, Nelson nos dá belas marcas de sangue.

Em “Túmulo sem Nome”, Jubileu propõe um plano indecoroso: que sua noiva faça sexo com um amigo rico, antes do casamento; uma aventura que teria preço e lhes renderia bons dividendos – cem mil cruzeiros, o suficiente para tirarem o pé da lama e finalmente se casarem. Mas antes da resposta de Norma, existe um interregno. É o espaço silencioso do confrontamento, inenarrável, condição do universo de Nelson. Após o qual, Jubileu é escorraçado. O suicídio de Norma é decorrente de uma luta sem solução e nada expressa melhor o impasse de um conflito.

Em “O Vadio”, Euzébio Magalhães espera, impávido, a morte da mãe. Enquanto esta inventa a estória da lesão no coração, esperando que com isso o filho tomasse emenda, o efeito é oposto: ele aguarda a morte da mãe para pôr a mão na herança da velha. Quando essa situação é descoberta por Crisálida, sua noiva, diante do médico, que lhe confirma a boa saúde da velha, se sente num beco sem saída e morre atropelada. Mas é bom não esquecermos que, antes da situação esclarecida, Crisálida entra no jogo e aguarda com o noivo a morte de Dona Laura.

Em ambos os casos, um impasse sem solução. O desejo de constituir uma família, ao lado de quem tanto ama, é barrado por esse novo personagem, o taradinho. Em ambos os casos, a morte do velho mundo.

 Mas vem a reação. E ela é sobretudo do velho mundo, quando Nelson Rodrigues é mais Nelson Rodrigues. São os momentos mais imprevisíveis, cheios de curvas, impasses, frutos de um conflito pavoroso, quando somos pegos no contrapé e o mundo dos valores morais são reafirmados. E eles o serão contra a hipocrisia moderna e o niilismo cético do taradinho. Porque nunca podemos perder de vista que aqui o universo é triádico: além dos amantes, tem o amigo que é o demônio, pela boca de quem são feitas confissões reveladoras, quando não, incentivos e sugestões. As partes do texto também são em três: a revelação, a prova e a reação. Nunca o início, meio e fim foram tão importantes. E essa estrutura dá ao narrador a onisciência que lhe permite, com suficiente distância da trama, manipular o sentido geral. Tão diferente de Mirisola, cujo narrador não sabe de nada e se deixa aprisionar na trama. Em Mirisola, existe uma clara opção: se deixar levar pela imagem, o jogo paradoxal delas, e se esquecer de si mesmo, ainda que haja controle, diferentemente de uma escrita automática.

Mas a reação em Nelson sempre vem, seja na forma de castigo, vingança, suicídio, ou qual forma que se revista. A resposta é certa, após a qual, o texto termina e o sentido geral é manifesto. Se em Mirisola não existe fim, em Nelson Rodrigues, muito pelo contrário, ele é fundamental.

 Em “Flor de Laranjeira”, Carmelita, por mais que educada dentro da tradição católica do horror ao homem casado, mostra-se um protótipo do taradinho. Geme alto em seu primeiro beijo e se deixa levar pela paixão. Cabeleira, por sua vez, é um personagem complexo: tem escrúpulos morais, mas é produto do meio hipócrita. Ainda que inicialmente tivesse falado a verdade sobre seu estado civil, suspeitamos que mente. Após o beijo no cinema, algo lhe perturba em Carmelita – os seus gemidos altos, a sua entrega. Enjoa e quer chutá-la. E resolve mentir a Carmelita sobre seu estado civil, dizendo-lhe que é casado. A pronta decepção da menina é todavia relegada a segundo plano: no dia seguinte, vai ao escritório de Cabeleira e lhe diz que o aceita mesmo casado, com filhos ou sem filhos – “contigo, vou ao fim do mundo”. Diante dessa postura surpreendente, que enfia no saco as convenções sociais, o complexo Cabeleira se deixa penetrar mais pelas convenções: encontra o amigo Carvalhinho, que lhe oferece sua garçoniere, hábito entre os homens da época. E mergulhado até o pescoço a esse modus-vivendi, Cabeleira convida Crisálida a passar algumas horas no local. Mas como um ser atormentado, faz a ressalva de que é um “homem casado” (a entrega da pequena, os seus gemidos, o primeiro namoro – tudo isso lhe causava escrúpulos). Mas Carmelita não reproduzia as convenções sociais. Ela ta decidida a ir e se sente feliz.

No final, ele a segura nos braços, sentimental como diabo, informa que é solteiro, e diz as últimas frases do texto:

- Tu vais sair daqui, agorinha mesmo, já. Nem te beijo. Faço questão de me casar contigo, de véu, grinalda e outros bichos.

Essa fala carrega uma carga de duplicidade que, afinal, aponta um lado. Não é a duplicidade de quem oscila eternamente como no caso de Mirisola. É a duplicidade de quem, afinal, escolhe um lado, de quem confere uma resposta, depois da qual nada mais há a dizer.

Se o amigo que lhe empresta a garçoniere faz parte das convenções da época e de sua hipocrisia, nem Cabeleira nem Carmelita aderem a elas. Carmelita vai contra as convenções, aceitando aquele homem, mesmo casado; Cabeleira vai contra, não efetuando o ato. Mas escorraçando a parceira, ele apenas impediria que ela se entregasse (com outras, ele continuaria os encontros fortuitos). Antes que a última frase de sua fala final se constitua, chegamos a pensar em outros contos onde o mesmo fim se repete. Ele escorraça a parceira, defendendo uma convenção e indo contra o desejo taradinho. Mas ao completar sua última frase – “Faço questão de me casar contigo, de véu, grinalda e outros bichos”, ele não só nega o taradinho, quanto a convenção. Como se para chegar a um valor realmente moral, fosse preciso dramatizar todo esse percurso, indicando as mudanças, o embate de forças, não apenas no processo da estória, mas na última fala, quando o texto finalmente se conclui.

 A literatura taradinha e a literatura experimentalista, por mais que se diferenciem e representem ramos diferentes do fazer literário, tem ao menos algo em comum: o repúdio às convenções, expondo á superfície o que a escola do realismo ingênuo tanto se esforçou em esconder. Contra esse naturalismo, o século XX nos terá sido marcante.

Mostrar o que foge do fundo psicológico e o processo do artifício, serão as estratégias postas em prática respectivamente por esses dois ramos da literatura no século passado.

Mas ao propormos uma história da literatura taradinha, estamos também focando um embate de forças em seu interior. E ninguém como Nelson terá dramatizado melhor esse embate.

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