quinta-feira, 11 de agosto de 2011

MARK SMITH


MARK SMITH


The Fall: Mick Middles e Mark E Smith – London Omnibus Press


The Story of Mark E. Smith and The Fall: Simon Ford – London: Quartet Books


Esses dois livros são uma oportuna lembrança de uma banda cuja chocante individualidade tem sido obscurecida por força de sua absoluta longevidade. Uma lembrança dessa banda não é o termo, tão enjoativamente acolhedor, “uma instituição”, mas a força de distensão com a intenção sinistra dos limites que a música pop pode atingir.

The Fall é uma banda que oscila entre o ruído branco e o pop insanamente acolhedor, assentado por desafinações, vocais sedutores, vanguardista ainda para o mundo, e por elementos do realismo ainda atravessado pelo mais incoerente surrealismo, e imagens de ficção científica. Eles cantam sobre o desemprego, remédios, viagem no tempo, cinzas do mal-laços adulterados-ruas, drogas, papas assassinados, apartamentos afastados-úmidos-encardidos, possessão demoníaca, duendes sob o assoalho e futebol. Eles passaram por mais de setenta músicos durante o percurso, ridicularizando e sobrevivendo ao punk, o indie dos anos 80, Madchester e o Britpop. Eles previram o seqüestro de Terry Waite e o atentado do IRA em Manchester no álbum liberado duas semanas antes de cada evento. Mark Eduard Smith é bem original.

O livro de Middles, aparentemente bem reputado, é definitivamente seu livro, escrito com a cooperação de Smith. É digno de nota o fato de que Middles, entre os jornalistas, ser um verdadeiro amigo de Smith, um homem que, em perpétua competição com os entrevistadores, vem tentando colocar frescurisse na cara de homem carregado (compreensível, talvez). Esse é o trabalho mais personalizado e mais subjetivo, carregado de suas memórias evocativas da cena punk de Manchester e observações perspicazes do contraste entre a cidade atual e a passada, em vez de minúcias dos antigos integrantes da banda (embora não seja listado todos os sessenta membros ao final). As próprias contribuições de Smith (assim como as de sua mãe, carinhosamente) significa que inquestionavelmente a voz de Smith está no centro da história.

O livro de Simon Ford é diferente, da mesma forma que um desenho técnico difere de uma pintura impressionista. É uma narrativa muito mais linear, preenchido com muito mais fatos em geral. Sem Smith para entrevistar, é dado voz às velhas avaliações e frequentemente descontentes de antigos integrantes do The Fall. Mark Smith aparece aqui como uma sinistra e enigmática presença de fundo – o autor tem um grande respeito pelo seu talento, mas é claramente desdenhoso de seus excessos.

A mesma história, porém, é contada em ambos. Smith, filho de um torneiro mecânico de Prestwich em Manchester (não de Salford como Smith reivindica para si mesmo), mostrou sinais precoces de características que marcariam sua liderança no The Fall: feroz individualismo, mente cruel e obstinada, briguento, uma poderosa curiosidade intelectual, fascínio por filosofia e literatura, forte interesse no psíquico e no oculto, e observação irônica misturada com orgulho e desprezo pelas pessoas ao redor.

Um aluno brilhante na escola primária (abandonou a faculdade por falta de interesse e grana), a emergência do punk ele viu se articular com desiludidos como ele e inspirou jovens da classe trabalhadora a formar o The Fall. Seu hábito de despedir membros da banda que não se adequassem, começou antes mesmo do seu primeiro disco de 1979, Live At The Witch Trials.

Ganhando uma legião de fãs de moderado tamanho mas fervorosa ao longo dos últimos vinte anos, The Fall transcendeu a fusão Velvets-Can-Rockabilly-Punk do seu início para um som levemente mais comunicativo com a incongruente adição do baixo glamuroso e californiano rickenbacker de sua esposa Brix nos anos 80. Nos anos 90 e além, eles passaram a aceitar os elementos do techno.

Há alguns depoimentos bem humorados em ambos os livros. Eles giram em torno principalmente da personalidade mordaz e pesada de Mark Smith, começando com a merda de gato espalhada por todo o apartamento, que ele achou que fosse razoável para a sua bem nascida esposa, recém-casada, Brix. Ele enfrenta as incontáveis multidões indiferentes e hostis, a má acústica dos teatros e da audiência em sua fase bizarra de músicas como “Hey Luciani” e “I am Kurious Oranj”, briga com Marc Riley num nightclub em New Zeland, intimida Morrisey nos escritórios da Rough Trade. Os seus longos silêncios às perguntas de Michael Bracewell numa entrevista pública, e manda a NME e Jô Wiley se fuderem quando eles lhe dão o prêmio Godlike Genius. O aumento de sua grosserias alcoolizado junto à sua banda que acabou levando-o preso em Nova York por agressão no palco, pode ter-lhe feito a perda da simpatia de muitas pessoas.

Mas apesar do seu comportamento às vezes chocante (mais parecido com o mijo-arte da WMC – Winter Music Conference – do que excesso de estrelismo do rock), até mesmo as avaliações de ex-integrantes da banda são unânimes na admiração pela poesia de Mark, sua habilidade em encher o mundano de macabro. Com Mark, você tem o melhor dos mundos. É divertido ouvir as palhaçadas de um cara urbano – suportando a dor – com trejeitos selvagens e bagunceiros, mas você está também de modo diferente a ouvir a influència de Blake, Dostoievsky, Lovercraft e Camus com Liam Gallagher. Tanto na gravação quanto no palco, mesmo quando ele está mais perverso, há uma estranha sabedoria nas declarações de Mark que te deixa tonto.

Onde ambos os livros, em última análise, falham é em capturar a essência de Mark ou o real encanto do The Fall. As caracterizações de Ford à respeito de Mark em relação a sua desilusão com o socialismo e suas visões anti-liberais sobre as Malvinas, CND, Europa e o terceiro mundo, como sendo de classe trabalhadora Conservadora, é uma grosseira simplificação. Esse tipo de avaliação é de um estranho conservadorismo que detesta tudo da classe média e suporta de todo coração os desordeiros de Moss Side.

Mesmo as freqüentes entrevistas de Middles não dão uma imagem muito clara. E, portanto, ninguém poderia concordar com seu fascínio enigmático. Em seu conjunto de discos, Ford especificamente cita Hex Eduction Hour como superior à Grotesque, Infotainment Scan acima de Middle-Class Revolt, e Unutterable acima de The Marshall Suíte, e eu com raiva respondo que não, não e não.

Lendo ambos os livros, é agradável e acrescenta ao seu conhecimento do grupo, mas apenas dando ouvido a eles proporcionam uma menor compreensão. Conhecimento e compreensão são naturalmente coisas muito diferentes. 

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