domingo, 7 de agosto de 2011

FAKES & ANÔNIMOS


FAKES & ANÔNIMOS


Os fakes rastejavam pela superfície e se confundiam na multidão. Não tinham identidade própria. Imitavam de tal modo seus modelos, que custávamos a distinguir a cópia do original. Alguns chegavam mesmo a sobressair, fosse pela inteligência, fosse pelo dom da beleza. A população de fakes crescia a cada dia, e, no ritmo com que se reproduziam, estimava-se em breve a erradicação de todo original. O fake, entre outras características, trai por natureza própria, é dissimulado, e esconde um profundo complexo de inferioridade.

Havia também os anônimos. Pareciam duendes. Viviam debaixo da terra e pertenciam à mesma família dos vermes. Não tinham rosto e nos chamavam a atenção pelo ruído intermitente que emitiam. Os anônimos andavam em bando e se alimentavam de cadáveres. Eu sentia suas picadas e o trabalho contínuo de suas garras. Meu corpo ia aos poucos desaparecendo. Milhões deles faziam o trabalho invisível da decomposição e tinham contrato de trabalho por tempo indeterminado.

O meu grito ressoou. Olhei pro lado e minha mulher dormia com um olho aberto e outro fechado. Debaixo da cama, ouvia o rumor dos anônimos, que minutos antes me devoravam. Não havia saída. Voltei às camadas profundas do sono e lá me vi novamente molestado por eles: fakes e anônimos. Voltei então à superfície e minha mulher permanecia com um olho aberto e outro fechado. Eu não tinha saída, voltei a mergulhar e novamente subi. Naquele ir e vir, pude perceber então um espaço livre entre o sono e a vigília. Ali ao menos eu era eu. Não estava nem dentro, nem fora. Ainda que fosse uma região instável, ali pude finalmente descansar, tão longe e tão perto, dos fakes e dos anônimos.

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