FAKES & ANÔNIMOS
Havia também os anônimos. Pareciam duendes. Viviam debaixo da terra e pertenciam à mesma família dos vermes. Não tinham rosto e nos chamavam a atenção pelo ruído intermitente que emitiam. Os anônimos andavam em bando e se alimentavam de cadáveres. Eu sentia suas picadas e o trabalho contínuo de suas garras. Meu corpo ia aos poucos desaparecendo. Milhões deles faziam o trabalho invisível da decomposição e tinham contrato de trabalho por tempo indeterminado.
O meu grito ressoou. Olhei pro lado e minha mulher dormia com um olho aberto e outro fechado. Debaixo da cama, ouvia o rumor dos anônimos, que minutos antes me devoravam. Não havia saída. Voltei às camadas profundas do sono e lá me vi novamente molestado por eles: fakes e anônimos. Voltei então à superfície e minha mulher permanecia com um olho aberto e outro fechado. Eu não tinha saída, voltei a mergulhar e novamente subi. Naquele ir e vir, pude perceber então um espaço livre entre o sono e a vigília. Ali ao menos eu era eu. Não estava nem dentro, nem fora. Ainda que fosse uma região instável, ali pude finalmente descansar, tão longe e tão perto, dos fakes e dos anônimos.
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