quinta-feira, 4 de agosto de 2011

JEAN-LUC GODARD



JEAN-LUC GODARD


“Film Socialisme”, integrando a programação do último festival de Cannes, apresenta-nos um Godard dividido aparentemente em três partes. A primeira parte, “Coisas como”, que vem a ser a do navio em alto mar, fazendo o cruzeiro marítimo Egito, Palestina, Odessa, Grécia, Nápoles e Barcelona, é predominada por uma profusão de imagens, vozes e ruídos, muitas vezes o diálogo não correspondendo à imagem. Com Godard aprende-se a técnica da sobreposição: um filme para muitas vozes tem que descobrir primeiro a dissonância numa mesma voz. Cortes abruptos, estética da fragmentação e do não-comentário, o ruído do vento captado pelo microfone, o som e a imagem do celular, a interferência das imagens amadoras. E nunca se foi tão antigo. Todo o lixo digital em proveito do Mesmo. À rigor, estamos falando do mesmo Godard, o de Alphaville e o de “Film Socialisme”. O uso de novas mídias serve apenas de sucata para ratificar o mesmo discurso. Esse antigo experimentalismo, ilustre desconhecido das novas gerações, serve de armadilha para novos diretores nostálgicos. E muitas vezes o resultado é catastrófico para eles. Porque brincar com imagens quando já não se pertence à geração dos anos 60, pode significar apenas exercício estético, masturbação visual, resultando geralmente em artificialismo estéril.

Mas se na primeira parte estamos na dimensão do espaço, com o belo discurso de Badiou sobre a Geometria, a terceira e última parte, “Nossas Humanidades”, fala do tempo enquanto durée. Imagens de arquivo são então aproveitadas, como é o caso de “Encouraçado Potemkin”, dando-nos a idéia de um documentário. Aqui, a “História do Cinema 1988-1998” com seus 240 minutos, parece se condensar muito bem. E se o discurso político está sempre presente, é aqui que ele cresce ainda mais. A pergunta que não quer calar: como um diretor moderno que se formou no mundo da publicidade, poderia entender a referência à ideologia na parte final do filme? A não ser que Godard sobreviva como fetiche, o que explica muitas vezes a falta de vigor dos novos filmes experimentais.

Entre o Godard da primeira e última parte, à rigor o Godard dos anos 60 e o Godard documentarista respectivamente, temos a segunda parte, “Nossa Liberdade”, da emissora de televisão, fazendo menção à esfera do público e do privado, e que remete a seus filmes mais sóbrios e maduros – esses mesmos que sofreram intensa resistência por parte do público e da crítica. Estamos nos remetendo a “Je vous salue Marie” sobretudo.

Essas três partes (ou seriam quatro?) fazem parte de sua dialética. Em cada parte, o todo já está presente. O que novamente traz à tona a idéia do Mesmo, presente tanto na primeira, quanto na segunda, quanto na terceira parte. Nada terá sido tão semelhante à Finnegans Wake do que a técnica em Godard, o mais barroco de todos os franceses.

“Film Socialisme” tem, portanto, a pretensão de fazer um grande recenseamento de sua própria filmografia – é sua metalinguagem. As novas tecnologias entram apenas como sucata e sempre a serviço de sua mesma técnica. A questão não está em negá-las, mas usá-las em proveito próprio. Vale então uma comparação entre Wim Wenders e Godard. A força desse último não reside numa capacidade camaleônica, que o fizesse se metamorfosear em diferentes formas pelo decurso dos anos. Sua importância é a mesma de João Gilberto: permenecer o mesmo. Toda sua potência advém do estranho fato de não se contaminar. E por não se contaminar, não contamina ninguém, ainda que muitos sonhassem seguir seu legado. A cada filme seu a mesma sensação que tive diante de um pedaço da lua exposto no Museu da Quinta da Boa Vista há muitos anos atrás.


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