BIENAL DE SÃO PAULO
Nesse último domingo fui a 29. bienal de artes de São Paulo. Fui temeroso porque a anterior havia sido um fiasco. E não me arrependi.
Os urubus do Nuno Ramos já não estavam mais lá. Ao menos podíamos vislumbrar o coco deles, uma prova inequívoca das aves. O cenário é grandioso e a música que vinha da instalação se imiscuía pelas demais obras. Tínhamos que aturar Arnaldo Antunes cantando Bandeira Branca, o que depois de um certo tempo é uma tortura. Mas ainda assim, tem seu saldo positivo: uma obra se interage com a outra.
Essa estória de percorrer bienal com mapa na mão, não é a minha. Fica parecendo que você está no meio de uma aula. É o mesmo que percorrer Roma com mapa na mão. Quero poder me distrair, errar pelo caminho, ir meio que ao acaso. Não quero ser mais um neurótico que perde o prazer de ver, como esses japoneses com máquina fotográfica. E como tiram fotos na bienal! Os festivais de cinema são outra ocasião pra reunir neuróticos. Daí porque também raramente frequento festivais de cinema. O problema é que você acaba não vendo tudo. Mas tem que ver tudo? Nessa bienal, perdi Godard e Beckett, confesso.
Mas vi os slides de Nan Goldin. A “Balada da Dependência Sexual” já me teria bastado. É impactante, humano sem ser humanista, e americano até debaixo dágua.
Fujo de documentários políticos. Fujo de antropologia como o diabo da cruz. O que me importa saber do “Cacique de Ramos” via Carlos Vergara? Por outro lado, a experiência de Daniel Senise em “O Sol me Ensinou que a História não é tudo” me dá sempre a sensação de que é muito conceito e pouco resultado. Comparado a esses, Nelson Leirner salta aos olhos não só pelo que fez como pelo que continua a fazer: O Grupo Rex de “Adoração – altar a Roberto Carlos”, e, “Pacavoa” são exemplos de uma trajetória cuja inquietação é constante, independente do tempo.
Ainda que o tema da política estivesse arquipresente nessa bienal, diversos foram os tratamentos dados a ela. Em Alfredo Jaar, o massacre de Ruanda é visto através dos olhos de uma sobrevivente (uma montanha de filmes de slides com os olhos da sobrevivente). A esse tratamento direto, quase jornalístico, pouco complexo e com teor de denúncia, se contrapõe “A Origem do Terceiro Mundo” de Henrique Oliveira, que faz referência a “Origem do Mundo” de Gustav Coubert – portanto, político e, ao mesmo tempo, remetendo-se à História da Arte com uma espécie de perversão, que faz dele um dos trabalhos mais interessantes da Bienal - penetrar em seu interior esculpido com material de tapume de obra é uma experiência sensorial que nos faz lembrar as favelas e a periferia.
Gil Vicente na série “Inimigos” não faz denúncia: é performático, sintético e ao mesmo tempo imaginativo. Não existe discurso, apenas assassinato - uma outra forma de abordar o político. Sua outra série, “Suíte Safada”, é pornográfica e mostra desenhos que serviram de ilustração para alguns livros.
As trouxas ensangüentadas de Artur Barrio e suas performances mostram o político como vivencial, afetando seu próprio corpo. Suas "situações" são marcas de um trabalho pujante, tanto quanto o foi Helio Oiticica.
Em “O q rola VCV” de Ronald Duarte, a problemática é social mas a performance com o caminhão pipa jorrando água vermelha pelas ruas de Santa Teresa, é originalíssima, mais uma vez atestando o fato de que a fonte do problema é apenas o ponto de partida.
“Divisor” de Lygia Pape, de 1968, mostra a idéia de coletivo: as cabeças visíveis mas o restante do corpo como se fossem vários e um só. Essa forma de política, coletiva, sensorial, e que passa por uma decisão negociada do conjunto dos corpos, mostra o quanto estamos longe do jornalístico e do documentário.
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