quinta-feira, 28 de julho de 2011

POR UMA LITERATURA

POR UMA LITERATURA


No conto “Taradinho Parte Dois” de Marcelo Mirisola, em seu livro “Fátima fez os pés para mostrar na choperia”, primeiro livro de sua ficção decadentista,do ano de 1998, existe uma tentativa de definição da prática tarada. Definição indefinida. Monólogo longe do fluxo de consciência porque aqui o que se pratica é, sobretudo, o controle, a usurpação das imagens. Mas um controle que pretende proceder à dispensa da unidade: controlar para não permitir que se caia nas malhas da identidade.

Ainda que algumas fontes de referência sejam citadas, como é o caso de Henry Miller e Walt Whitman, nem com esses a prosa de Mirisola se identifica, porque lhes faltariam o estilo forjado que sobra nele. É como se caíssemos num jogo de ilusão a que o autor nos leva. Porra louquice extremamente racional, ainda assim poderíamos cair na tentação de aproximá-lo à literatura beat. E nada mais distante.

2- Daí porque nem ideologia, nem o si-mesmo, os textos constróem um espaço próprio à experiência tarada: tirando proveito de si-mesmo, das experiências sacanas e egoístas, mas também tirando proveito dos esquemas significativos e ideológicos. Tirar proveito não significa ser. É uma experiência pragmática que o leva, não a entrar em choque e nem a se identificar, mas a um termo continuamente renovado para futuros golpes. Rivalizando em importância com “Taradinho Parte Dois”, “Quem é Wadih Jorge Wadih?” vai nos dar uma cartografia desse estranho eu, enquanto o primeiro tenta alinhavar a experiência tarada.

3- Nem tesão, nem gozo. Se nos esquemas ideológicos, onde se situam o marketing e os profissionais de toda ordem, existe gozo sem tesão, no si-mesmo prepondera a tesão sem gozo, o trepar e o bulinar em pensamento. A experiência do taradinho no espaço intermediário do supermercado, não é tesão nem gozo, e isso terá conseqüências na linguagem, agora não mais linear, como o era em Nelson e Dalton Trevisan, mas amarrada, gaga. A linguagem de um taradinho no supermercado é banal, mas carregada de intensidade. Se compararmos o texto de Mirisola com o “Catatau” de Paulo Leminski, ambos radicais, vamos vislumbrar tamanhas diferenças, como se pisássemos diferentes continentes. No “Catatau”, a experiência da linguagem chega ao ponto do neologismo; estamos no plano do significante, tontos diante da diabrura da linguagem, quase sem alma, na superfície. Em Mirisola, ao contrário, afirma-se a banalidade, a linguagem comum. Estamos diante de um texto que flui como na linguagem comum. A questão é a intensidade que pulsa nas frases: é o taradinho pedindo coca-cola, ou perguntando as horas, ou tomando no gargalo. Esse deslocamento, esse novo espaço do supermercado, funciona como uma substituição: são os sintomas que são importantes. Daí porque nem mais tesão, nem mais gozo. A diferença entre a linguagem comum, repleta de intensidade na sua prática cotidiana, e o texto de Mirisola, é que neste último não há nada inconsciente. Ele encena, através do excesso, o sintoma. Busca o paradoxo e o expõe à superfície do texto, quando só a custa de muita teoria poderíamos atingi-lo ou explicá-lo. Em “Parque Sideral”, ele afirma: “antes da praia é bom saber que um bocado de coisas estão acontecendo por lá... Chamam de inconsciente”.

4- O plano de fuga, que tem a ver com travessia, deslocamento, à contragosto, e fluidez, significa fuga de si e dos outros. É o contrário de não saber, é antes de tudo não pertencer. É quando, na travessia do ônibus, entre o supermercado e a praia, o taradinho não pode mais contar consigo mesmo.
Daí a idéia de movimento que a ficção de Mirisola nos remete, sem chegar a lugar algum. A eloqüência e a retórica do seu texto são o que melhor expressam esse processo contínuo de deslocamento, nomadismo, de idas e vindas sem fim. Às vezes, períodos longos, outras vezes, curtos como unha necrosada. Mas antes de tudo, retórica. Daí porque, resguardadas as devidas diferenças, poderíamos filiá-lo à tradição da literatura taradinha a que faz parte Nelson Rodrigues e que nos remete a Dalton Trevisan – Mirisola é o ápice dessa tradição, seu ponto limite, quando a linguagem se descola e se basta. Em “Mas um cara doce como eu?”, ele diz: “ é por causa da minha eloqüência. De vez em quando até eu me acho eloqüente e tarado. Um pouco mais eloqüente do que tarado”. A condição, pois, do taradinho é a eloquência, ou, em outras palavras, ser taradinho é uma questão de linguagem.

5- Mas quem é esse estranho “eu” que habita sua ficção? Desde o primeiro texto “Quem disse que resisti trinta anos?”, passando por “Carta de Amor” – “quem disse que não? Quem disse que não nos amamos?” – o “quem disse” é recorrente. Porque através dele coloca-se em questão não somente o dito, mas, principalmente, quem o disse. Esse estranho eu é duplo, daí a auto-sacanagem. Diante desse fundo duplo, ou fundo falso, quais não serão as vicissitudes da aparência? Esse é o estranhamento do texto: dizer e desdizer. Diante do qual, o leitor comum interromperia a leitura, não houvesse um humor que nos convidasse a navegar mesmo sem direção. E esse dilema, encenado por Mirisola “no espelho” em “ Quem é Wadih Jorge Wadih?”, informa por fim a desnecessidade de dar amparo a aparência e do quanto desastrado seria aquele que viesse a abandonar o espelho e destruir a imagem. A opção é clara, malgrado todas as tentativas de se desdizer. A opção é ignorar a si-mesmo, daí o “quem disse”. A experiência do enlouquecimento é a aventura de uma ausência, é a travessia do taradinho, pra quem a broxada chega a ter status maior que a tesão. Decadentismo porque o parque de diversões é decadente, é ruína, em “Parque Sideral”, além de moralmente corrupto. Na história da literatura brasileira, Mirisola ocupa posição privilegiada porque depois dele um novo ciclo se inicia, ainda que, em seus primeiros passos, restaurando o realismo ingênuo do século XIX. Mas de nada valerá o recalcamento. Para o desenvolvimento do novo, cumpre olhar não só a história do experimentalismo brasileiro no século XX, como também a história da literatura taradinha, não para inserirmo-nos dentro do que seria já impossível, mas para nos ajudar a vislumbrar com mais clareza outras alternativas.

6- E toda essa história me faz lembrar novamente Júpiter Maçã: “me sinto um pouco decadente, mas com estilo”. Tanto Júpiter quanto Mirisola são os últimos representantes de um ciclo que já não existe mais. E isso também é a experiência do taradinho: o que trapaceia e o que se deixa trapacear; o que atira flexas e ao mesmo tempo dá seu corpo à elas; o que tripudia e se deixa tripudiar. Aos ecos de Shopenhauer, termino com uma última ironia que consta de “Parque Sideral”: “ minha pessoa sou eu – o que é muito divertido, aliás. Minha pessoa? Ah sim, um minuto, vou chamá-la”.

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