HOMEM-URUBU
Gosto de ficar aqui porque tenho, como campo de visão, o lixão lá embaixo. Eu não seria o que sou hoje se não fossem as longas horas ali passadas. Uma antena de televisão me é suficiente para ficar aqui, parado. Por detrás, estende-se a cidade grande. Pouco interesse me suscitaria a cidade grande, não fosse ela o manancial, a origem de tudo isso que vejo agora. Uma réstia de sol ilumina o lixão lá embaixo. Uma cor plúmbea dele se desprende, e posso imaginar quantas cores não foram necessárias para produzir aquela tonalidade.
Desde que me sei como sou, é pra lá que volto meus pensamentos. Só o lixão me interessa. Nada me é mais compatível aos interesses. Percebo também um certo desprezo que meus companheiros me devotam, como se eu não pertencesse a mesma espécie. Esse desprezo é recíproco, ainda que em alguns momentos eu sinta o peso da solidão. Por enquanto, eu vou ficando por aqui, sem outra perspectiva. É possível que para muitos, isso seja bem pouco. Mas nada me é mais prazeroso do que ficar aqui, parado.
Parece que o tempo vai mudar. Está soprando um vento que vem das cordilheiras. Me é forçoso constatar que quando isso acontece, o tempo fica instável e sujeito a chuvas e trovoadas. Daqui, posso perceber também um cheiro que começa a se propagar em ondas contínuas. Diviso um pedaço de carne em poucos segundos. Me foi dado o poder de enxergar a longas distâncias e confesso que estou bem tentado a ir até lá.
Vários começam a dar o sinal. Estão a voar em círculo, cujo diâmetro diminui à medida que se aproximam. Nenhum urubu morre de fome. Em todas as direções, os cheiros denunciam um mundo farto e abundante. Posso vê-los cada vez mais perto do alvo. Entre eles, um permanece o guia. Cabe a este iniciar o processo da carnificina. Mas enquanto não fizer o pouso, nenhum dos demais o farão. Eis que, finalmente, pousa. Imediatamente, os demais o fazem, ainda que permaneçam a certa distância. O urubu é como todas as aves, arisco e desconfiado. Primeiro, ele sonda o terreno, o ambiente em torno, e só quando se certifica de que não há nenhum risco é que inicia o processo. Então, os demais se aproximam e, com as garras fincadas no alvo, dão início à devastação através de vigorosas bicadas. Daqui me é impossível vislumbrar a vítima, uma vez que meu campo de visão permanece tolhido por uma mancha negra que o recobre. Normalmente, seriam necessários poucos minutos a fim de que se dispersassem, devidamente alimentados. Os urubus são indispensáveis ao eco-sistema: sem sua atividade, a natureza estaria entregue a deterioração por parte de bactérias resistentes.
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