O corpo em Pierre Bourdieu vai assumir a importância que, a partir do século XX, lhe foi concedida pela Filosofia. Nas artes, nunca esteve tão em evidência, chegando inclusive à gêneros como a body-art. Mas diferentemente da licenciosidade da contra-cultura, o corpo em Bourdieu não é subversão. É antes expressão das relações sociais, índice simbólico do Poder. O seu conceito de “habitus” e “disposição” vem dar conta de um espaço da ação que não se confunde nem com a intenção husserliana, nem com o fisicalismo mecânico. E nesse meio caminho, fora da lógica das oposições, da qual o maior exemplo é o cartesianismo, Bourdieu vai indicar algo diferente do dualismo.
Contra a “Teoria da Ação Racional”, que via a ação ou como efeito de coações externas, ou como produto da escolha livre baseada em cálculo, Bourdieu vai fundamentar a ação no habitus, inscrito nos corpos pelas experiências passadas. O hábitus seria um esquema de percepção, apreciação e ação. O corpo passa então a ser um instrumento de conhecimento, ao invés de empecilho como era para o cristianismo e Platão.
Mas sempre em Bourdieu predomina o duplo: disposições e habitus (as disposições são maneiras de ser, resultantes da modificação do corpo pela educação; habitus é a incorporação dos princípios de visão e de divisão do campo, engendrando práticas ajustadas à ordem desse campo); corpo e princípio; posição e disposição; posição e tomada de posição; mundo e agente; história objetivada e história atuante; corpo e agente; estruturas objetivas e estruturas cognitivas; coisa e corpo. Esses pares de duplos não são regidos pela oposição. E até mesmo a idéia de concorrência, predominante nos jogos sociais, o que dá uma aparência de oposição e disputa, tem o fundo do consenso em razão das regras aceitas de comum acordo pelos competidores.
O que provoca a diferença de posições e, consequentemente, das disposições é a distribuição desigual do capital e o ato de violência original à essa implantação. A diferença pois de Bourdieu em relação aos irracionalistas, está no fato de que sua crítica à razão estar centrada na forma desigual de sua distribuição. O seu conceito de REALPOLITIK seria de uma auto-regulação que se daria no transcorrer do jogo, visando a universalização da razão, ao invés da uma defesa formal feita pelo humanismo.
Ao chamarmos a atenção para o par de duplos, estamos pondo em foco a estratégia de Bourdieu para fugir ao perigoso jogo dos contrários.É como se a sua negação aos possíveis de seu campo investigativo, não o levassem ao impossível, isto é, para fora do campo. São os limites da invenção, da qual, o indivíduo não seria o único responsável, o que acarreta todo um questionamento ao conceito de gênio ou ao conceito de dom: ambos naturalizando o que foi construído ou conseguido por arbítrio – naturalizar e recalcar são aqui sinônimos.
Mas no par de duplos, em Bourdieu, um elemento tem primazia. Sua perspectiva crítica em relação a Foucault e Nietzsche é em função da especificidade dos campos, impedindo que o jogo transcorrido no interior de cada um deles esteja reduzido sempre ao jogo de domínio e ao contingente. Fugindo a esse relativismo do aleatório, Bourdieu sublinha a regra como pano de fundo dos campos científicos: a concorrência regrada, conferindo plena eficácia aos mecanismos de universalização.
Por outro lado, existe uma margem de liberdade em seu pensamento que o faz distante do pessimismo. Bourdieu não acredita tanto na eficácia dos aparelhos ideológicos de Estado: o que fundamenta uma relação de domínio é principalmente o investimento do dominado. De pouco adiantará a mudança de Poder, se os habitus dos indivíduos estiverem ligados ao outro esquema distributivo. O tempo se torna fundamental nesse caso para que aos poucos (nunca é instantâneo) o Poder possa produzir mudanças no sistema de disposições. Em todo caso, o fundamento da ação ou da relação de domínio não está na coerção externa, e sim no interior de cada corpo, enquanto habitus.
De qualquer maneira, me parece que existe uma primazia. As regras no interior de um campo ou o habitus no interior de cada corpo?
No texto “Como ler um Autor?”, é ensaiada uma resposta em sua crítica à posição de “lector”, o qual estuda o seu objeto de interesse, desistorizando-o e permanecendo-lhe exterior. Bourdieu retira em Baudelaire a linha mestra de seu pensamento. Em seu primeiro artigo sobre a Exposição Universal de 1855, Baudelaire diz:
“ Eles (os viajantes solitários, diante de um produto chinês estranho, bizarro, cheio de arabescos, de colorido intenso e por vezes tão delicado a ponto de sumir) não permitem que nenhuma utopia pedagógica se interponha. Eles conhecem o inevitável nexo entre a forma e a função. Eles não criticam: contemplam, estudam. Se, em vez de um pedagogo, eu escolho um homem mundano, um inteligente, e o transporto para um lugar longínquo, estou certo de que, uma vez superados os espantos no desembarque, e tão logo estivesse estabilizado o hábito, com maior ou menos afinco, não tardaria uma simpatia tão intensa, tão penetrante, capaz de criar nele um mundo novo de idéias, que fará parte integrante de si, e que o acompanhará, sob a forma de lembranças, até a morte. Essas formas de construção, que de início contrariavam seu olho acadêmico, todo esse mundo de harmonias novas penetrará vagarosamente nele, penetrará com paciência...”
Esse processo é o mesmo que se dá diante da reativação de um objeto histórico, em razão da historicidade do Ser. O interesse que o historiador tem, será sempre em função do presente, em função do jogo e dos móveis constitutivos de um campo. Mas essa reativação, que tem, portanto, relação com o presente, quem operaliza é o agente. O par de duplos, coisa e corpo, estrutura e habitus, evidentemente apresentam uma cumplicidade, ao invés da relação de oposição. Ainda assim, a cumplicidade não apaga as diferenças dos agentes, dotados de um domínio desigual das forças de produção legadas pelas gerações anteriores.
Mas o estudo sobre Baudelaire indica algo mais. Pode haver diferença entre os agentes em relação a uma desigualdade de distribuição, mas pode haver diferença também pela ação original e imprevista do agente: um rearranjo das possibilidades do campo, provocando-se rupturas heróicas, de vida ou morte. Foi o caso de Baudelaire. O “impossível possível” é estruturalmente excluído do campo de possibilidades. Mas ao mesmo tempo, ele é acalentado por esse espaço, como vazio, falta. O trabalho de Baudelaire será justamente fazê-lo existir.
Portanto, o habitus não é algo fechado, ainda que suas mudanças não sejam instantâneas. A importância do corpo em Baudelaire, vem justamente daí: ao contrário da erudição, em que o objeto de conhecimento permanece exterior ao sujeito, busca-se fazê-lo afetar o sujeito, penetrar-lhe as entranhas, modificar sua vida.
Essa junção entre sujeito e objeto, não se dará, no caso dos estudos literários, fazendo do clássico, sobre o qual debruçamos, um nosso contemporâneo. Ainda que seja o presente e suas lutas a motivação que nos leva até ele, e sempre será assim, há que se evitar essa espécie de assassinato. Ao invés da banalização, via comentário, que necessariamente neutraliza toda a singularidade do objeto, cumpriria, segundo Bourdieu, ressucitar seu modus-operanti. E para tanto, haveria que se chegar ao momento inaugural, aquele em que o referido objeto de estudo nasce, dentro de seu campo de possibilidades reconstruído por nós. A leitura criativa, a de autor, se daria de forma que se pudesse dispor dos meios de participar do espaço de possibilidades artísticas propostas pelo campo no momento em que o nosso objeto de estudo, no caso, Baudelaire, estivesse a trabalhar.
Essa é a idéia de reativar a história: trazê-la para os dias de hoje, não como múmia paralítica, mas em sua singularidade prática, penetrando-se assim na intenção profunda do autor estudado. Somente assim, o sujeito do conhecimento seria afetado, criando um novo espaço correspondente dentro de seu campo de possibilidades.
II
Essa primazia do habitus em relação à posição no espaço, é na verdade a primazia das reações práticas a esse espaço, duplamente informadas pela estrutura do espaço e pela estrutura dos esquemas de percepção.
O habitus, portanto, tem esse duplo aspecto: o espaço e a percepção. Ou seja, é duplamente informado por eles. Mas é no aspecto da percepção que vão ocorrer as lutas entre pontos de vistas diferentes, visando impor uma representação do espaço, um princípio de visão e divisão diferente. Daí porque o habitus tem a ver com princípios de divisão, e as disposições com as maneiras de Ser resultantes da modificação dos corpos. Os esquemas de percepção têm portanto a primazia em relação ao espaço, ainda que a princípio seja um produto deste, assim como não se confundirão com a explicitação (estado de opinião constituída): “tais pontos de vistas não são necessariamente representações, tomadas de posição explícitas, verbais” (pág. 224). Essas lutas de pontos de vistas diferentes são primeiramente lutas simbólicas, práticas, E enquanto pontos de vistas, poderão estar sujeitos a desvios em mãos de porta-vozes.
O mérito de Baudelaire ao inventar uma “posição impossível” foi justamente seu modus-operanti e o esquema perceptivo que, com o tempo, se impôs aos demais. Através de uma combinação inédita entre poesia pura, via Gautier, e aberta ao mundo, como em Máxime du Camp, ele juntava coisas inadmissíveis para a época. Ao mesmo tempo, em ressonância aos campos específicos da modernidade, era contra restituir a linguagem específica da pintura por meios alheios à ela – com isso, também implementando a idéia da poesia autônoma aos outros campos. À essa ruptura teórica, se sucedia uma outra prática: “Baudelaire não só fala de arte, ele vive o personagem” (tão diferente da leitura desinteressada de lector).
III
Bourdieu incorporou, num uso prático, Baudelaire, para inventar um novo espaço nas ciências sociais: entre o mecanicismo com suas coerções, e o idealismo construtivista (a epistemologia), criou o conceito de habitus, que não é nem condições econômicas, nem a consciência ou razão raciocinante. É antes o princípio de divisão incorporado através da illusio (crença). Ainda assim, por mais que no corpo esteja incorporado as relações de Poder, tornando-se portanto uma dimensão coletiva, o esquema perceptivo que alimenta o habitus, assim como a distribuição desigual no espaço, favorecem o jogo ou a História como transcendência de um mundo em aberto, aniquilando qualquer fundamento.
Entre a reflexividade e a estratégia, a primeira ligada ao uso da razão voltada contra o próprio sujeito do conhecimento, e a segunda, à ação prática do sujeito visando sua satisfação numa determinada configuração de Poder, acredito que, apesar de serem ambas formas válidas de conhecimento, acarretando o caráter duplo da verdade, Bourdieu privilegie a segunda. Ainda assim, o seu realismo o situa numa posição eqüidistante entre Pascal e os escolásticos, extraindo de ambos as contribuições necessárias para um pensamento original.
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