COMO COMPRAR?
É com tiragem limitada que começou a ser vendido o álbum duplo SKYGIRLS. E a originalidade, além das músicas, foi a forma como foi confeccionada a capa (material reciclado e nas mesmas dimensões de um vinil). O responsável por esse empreendimento é o Flavio Lazarino do selo "Psicotropicodelia", pelo qual saiu o álbum. E a forma de comprar é idêntica a forma de compra dos cds pelo site.
terça-feira, 28 de junho de 2011
quinta-feira, 23 de junho de 2011
SOBRAS DE GRAVAÇÃO
SOBRAS DE GRAVAÇÃO
Atendendo a pedidos, vou esclarecer a origem de uma determinada música: Como é que eu posso fazer pra construir um muro .
Ela de fato está numa coletânea que eu próprio liberei para o iMusica - distribuidora de música via internet - a pedido do Felipe Llerena. Selecionei um determinado número de músicas e liberei pra eles. Claro que até agora não vi um tostão dessas vendas. Mas essa música está presente nessa coletânea, ainda que não esteja gravada em nenhum de meus discos, daí a estranheza de alguns.
A origem dela é de um show que gravei no antigo Balroom. O show foi bem bacana mas o resultado da gravação não foi lá essas coisas. A minha idéia era transformar esse show num disco. Acabei desistindo. Ele não atendia as minhas exigências e foi pra gaveta. O curioso é que o Benvenido, o mesmo que havia gravado o show referente ao SKYLAB II no Hipódromo Up, não foi capaz de obter o mesmo resultado no show do Balroom. Esse show tem algumas músicas interessantes e a minha idéia é vir um dia a regravá-las. Mas por enquanto, permanecem como sobras de gravação.
A idéia que me levou a contruir essa canção foi a obra de Bispo do Rosário - "Como é que eu devo fazer um muro no fundo da minha casa?".
Atendendo a pedidos, vou esclarecer a origem de uma determinada música: Como é que eu posso fazer pra construir um muro .
Ela de fato está numa coletânea que eu próprio liberei para o iMusica - distribuidora de música via internet - a pedido do Felipe Llerena. Selecionei um determinado número de músicas e liberei pra eles. Claro que até agora não vi um tostão dessas vendas. Mas essa música está presente nessa coletânea, ainda que não esteja gravada em nenhum de meus discos, daí a estranheza de alguns.
A origem dela é de um show que gravei no antigo Balroom. O show foi bem bacana mas o resultado da gravação não foi lá essas coisas. A minha idéia era transformar esse show num disco. Acabei desistindo. Ele não atendia as minhas exigências e foi pra gaveta. O curioso é que o Benvenido, o mesmo que havia gravado o show referente ao SKYLAB II no Hipódromo Up, não foi capaz de obter o mesmo resultado no show do Balroom. Esse show tem algumas músicas interessantes e a minha idéia é vir um dia a regravá-las. Mas por enquanto, permanecem como sobras de gravação.
A idéia que me levou a contruir essa canção foi a obra de Bispo do Rosário - "Como é que eu devo fazer um muro no fundo da minha casa?".
A ESSÊNCIA TRICOLOR
A ESSÊNCIA TRICOLOR

Para um tricolor histórico como eu, e posso lembrar aqui Nelson Rodrigues quando dizia que tricolor mesmo é o Fluminense, os outros tricolores somente o são por uma concessão, poderia citar vários nomes que pertencem a essência tricolor. De tempos distintos. Mas que por terem permanecido e brilhado no FLU, chegam a fazer parte da alma tricolor. Castilho é o primeiro de todos. Depois, Telê, Felix, Jair Marinho, Altair, Escurinho, Lula, Samarone, Romerito, Washington, Assis, Carlos Alberto Pintinho e Thiago Silva. Outros nomes que pertenceram ao FLU, tais como Rivelino, Gerson, Paulo César Caju e Fred, a meu ver, não fazem parte da essência tricolor por terem tido uma passagem rápida ou por terem brilhado mais em outras equipes. Mas é preciso incluir com urgência um outro nome, esse sim fazendo parte da essência tricolor. O que ele já fez pelo FLU é suficiente, ainda que não tenha dado a equipe nenhum título. Estou me referindo ao argentino Dario Conca, que raramente se machuca e expressa bem o time de guerreiros.

Para um tricolor histórico como eu, e posso lembrar aqui Nelson Rodrigues quando dizia que tricolor mesmo é o Fluminense, os outros tricolores somente o são por uma concessão, poderia citar vários nomes que pertencem a essência tricolor. De tempos distintos. Mas que por terem permanecido e brilhado no FLU, chegam a fazer parte da alma tricolor. Castilho é o primeiro de todos. Depois, Telê, Felix, Jair Marinho, Altair, Escurinho, Lula, Samarone, Romerito, Washington, Assis, Carlos Alberto Pintinho e Thiago Silva. Outros nomes que pertenceram ao FLU, tais como Rivelino, Gerson, Paulo César Caju e Fred, a meu ver, não fazem parte da essência tricolor por terem tido uma passagem rápida ou por terem brilhado mais em outras equipes. Mas é preciso incluir com urgência um outro nome, esse sim fazendo parte da essência tricolor. O que ele já fez pelo FLU é suficiente, ainda que não tenha dado a equipe nenhum título. Estou me referindo ao argentino Dario Conca, que raramente se machuca e expressa bem o time de guerreiros.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
A ESSÊNCIA DO FLU
A ESSÊNCIA DO FLU
Hoje termina o brasileirão.
O campeonato tornou-se inusitado porque pela primeira vez na história as atenções estão voltadas para a parte debaixo da tabela. A grande incognita é: quem vai cair?
A decisão do campeonato perdeu a graça. Só um milagre tira do Flamengo a taça.
A decisão hoje no Maracanã tem cheiro de comemoração e não de disputa.
Já Botafogo, Fluminense e Curitiba tornaram-se o epílogo do campeonato.
Cabem a eles o lance final, a última disputa, o veredito.
E se vocês pensarem bem, o brasileirão só adquiriu esse brilho final graças ao Fluminense. Coube a ele a grande surpresa: o milagre da ressucitação.
Nem mesmo o Fla que acabou atropelando no final, pode ser visto como uma zebra. O seu crescimento foi gradativo. Nem mesmo quando o Palmeiras e o São Paulo estavam na frente, podia-se descartar o rubro negro. Ele sempre teve chances matemáticas para chegar aonde está hoje.
Já o Flu... É o imponderável. Todos já o consideravam morto.
A sua reação foi desesperadora.
O último jogo no Maracanã pela Sul-americana foi a mais pura expressão do FLU no brasileirão: a luta contra o tempo.
Era preciso fazer 4 gols e o tempo passava.
Essa sensação, todo torcedor do FLU conhece bem.
O goleiro fazendo cera, o juiz fazendo cera e o tempo passando.
É desesperador.
E vem a pergunta:
vamos morrer na praia de novo?
Essa pergunta só vamos poder responder daqui algumas horas.
Mas pra mim já valeu e termino aqui a saga tricolor.
Ao final da partida com o LDU, o time foi apaudido.
A gente sabe que essa é a essência do FLU.
Na nossa história nunca tivemos um time de craques absolutos. Essa história é de Flamengo, Santos e Botafogo.
A nossa história é de guerreiros, não de craques (eu já falei no tópico anterior que não curto gênios).
Por isso que sempre cito os nomes de Samarone, Castilho e Pinheiro.
Estava no Maracanã, naquele fatídico jogo com o Botafogo em 1971. Botafogo de Jairzinho e Paulo Cesar Caju (craques absolutos). Bastava o empate para que o alvi-negro fosse campeão estadual e aos 43 minutos Lula fez o gol do título tricolor.
Essa é a nossa essência.
O jogo de logo mais no Couto Pereira vai ser duríssimo.
Seja qual for o resultado, vamos pro campo de batalha como gerreiros.
É a nossa essência.
Hoje termina o brasileirão.
O campeonato tornou-se inusitado porque pela primeira vez na história as atenções estão voltadas para a parte debaixo da tabela. A grande incognita é: quem vai cair?
A decisão do campeonato perdeu a graça. Só um milagre tira do Flamengo a taça.
A decisão hoje no Maracanã tem cheiro de comemoração e não de disputa.
Já Botafogo, Fluminense e Curitiba tornaram-se o epílogo do campeonato.
Cabem a eles o lance final, a última disputa, o veredito.
E se vocês pensarem bem, o brasileirão só adquiriu esse brilho final graças ao Fluminense. Coube a ele a grande surpresa: o milagre da ressucitação.
Nem mesmo o Fla que acabou atropelando no final, pode ser visto como uma zebra. O seu crescimento foi gradativo. Nem mesmo quando o Palmeiras e o São Paulo estavam na frente, podia-se descartar o rubro negro. Ele sempre teve chances matemáticas para chegar aonde está hoje.
Já o Flu... É o imponderável. Todos já o consideravam morto.
A sua reação foi desesperadora.
O último jogo no Maracanã pela Sul-americana foi a mais pura expressão do FLU no brasileirão: a luta contra o tempo.
Era preciso fazer 4 gols e o tempo passava.
Essa sensação, todo torcedor do FLU conhece bem.
O goleiro fazendo cera, o juiz fazendo cera e o tempo passando.
É desesperador.
E vem a pergunta:
vamos morrer na praia de novo?
Essa pergunta só vamos poder responder daqui algumas horas.
Mas pra mim já valeu e termino aqui a saga tricolor.
Ao final da partida com o LDU, o time foi apaudido.
A gente sabe que essa é a essência do FLU.
Na nossa história nunca tivemos um time de craques absolutos. Essa história é de Flamengo, Santos e Botafogo.
A nossa história é de guerreiros, não de craques (eu já falei no tópico anterior que não curto gênios).
Por isso que sempre cito os nomes de Samarone, Castilho e Pinheiro.
Estava no Maracanã, naquele fatídico jogo com o Botafogo em 1971. Botafogo de Jairzinho e Paulo Cesar Caju (craques absolutos). Bastava o empate para que o alvi-negro fosse campeão estadual e aos 43 minutos Lula fez o gol do título tricolor.
Essa é a nossa essência.
O jogo de logo mais no Couto Pereira vai ser duríssimo.
Seja qual for o resultado, vamos pro campo de batalha como gerreiros.
É a nossa essência.
domingo, 19 de junho de 2011
FLU NA CABEÇA
FLU NA CABEÇA
Bem, quero informar aos apressadinhos de plantão que existe mais um jogo, a Sul Americana ainda não terminou. Alguns tricolores estão céticos. Eu cantei o jogo antes aqui mesmo. Falei que o FLU estava a beira de um infarte. A ausencia do Digão foi sentida. A do Maicon também. Falei que as contusões começariam a aparecer e que o FLU corria contra o tempo em função de uma série de erros da administração do clube.
Mas a Sul Americana ainda não terminou.
Eu acredito, vou ao Maraca na quarta feira e quem viu o FLU na situação que estava há um mes antes, sabe do que eu estou falando.
Não riam.
O Fluminense é uma entidade dourada.
Aquelas três cores que traduzem tradição.
OBS: Curitiba voltou a ser o que sempre foi: chuva, muita chuva. Meu show por aqui acontece hoje no Ópera 1. E minha participação ontem na rádio Kaos foi supimpa.
Bem, quero informar aos apressadinhos de plantão que existe mais um jogo, a Sul Americana ainda não terminou. Alguns tricolores estão céticos. Eu cantei o jogo antes aqui mesmo. Falei que o FLU estava a beira de um infarte. A ausencia do Digão foi sentida. A do Maicon também. Falei que as contusões começariam a aparecer e que o FLU corria contra o tempo em função de uma série de erros da administração do clube.
Mas a Sul Americana ainda não terminou.
Eu acredito, vou ao Maraca na quarta feira e quem viu o FLU na situação que estava há um mes antes, sabe do que eu estou falando.
Não riam.
O Fluminense é uma entidade dourada.
Aquelas três cores que traduzem tradição.
OBS: Curitiba voltou a ser o que sempre foi: chuva, muita chuva. Meu show por aqui acontece hoje no Ópera 1. E minha participação ontem na rádio Kaos foi supimpa.
sábado, 18 de junho de 2011
ARENA DA BAIXADA
ARENA DA BAIXADA
Meu último dia em Curitiba foi "sui generis".
Conheci a Arena da Baixada e assisti ao jogo Botafogo X Atletico Paranense na cabine da radio 91 FM.
Ao meu lado dois paranaenses roxos: o que radiava a partida e o que comentava.
Compreendo o bairrismo, mas que ele possa ser usado com mais elegância e parcimônia.
Não era o caso dos dois que estavam ao meu lado.
O comentarista, antes da partida, me lembro bem... falava assim: em campeonato por pontos corridos, sempre quem leva a melhor é o clube mais rico e mais bem administrado. Por isso o São Paulo vai ser campeão.
E o sujeito falava todo seguro de si.
Aliás, abrindo um parênteses, deveria-se estudar à sério essa classe tão bizarra que é a do "comentarista de futebol".
Moral da estória: o São Paulo levou um sabão e tudo indica que o FLA, que sempre teve uma administração louca, vai levar o título.
Quanto a partida, o Botafogo, principalmente no segundo tempo, parecia satisfeito com o placar. Parece ser um candidato seríssimo a segunda divisão.
Já o FLU... não digo nada, vamos esperar quarta e domingo. Tudo indica que teremos belas surpresas.
Vou trazer boas recordações de Curitiba.
O show foi duca!!!!!!
E o Carlos, meu produtor em Curitiba, é o cara !!!!
Meu último dia em Curitiba foi "sui generis".
Conheci a Arena da Baixada e assisti ao jogo Botafogo X Atletico Paranense na cabine da radio 91 FM.
Ao meu lado dois paranaenses roxos: o que radiava a partida e o que comentava.
Compreendo o bairrismo, mas que ele possa ser usado com mais elegância e parcimônia.
Não era o caso dos dois que estavam ao meu lado.
O comentarista, antes da partida, me lembro bem... falava assim: em campeonato por pontos corridos, sempre quem leva a melhor é o clube mais rico e mais bem administrado. Por isso o São Paulo vai ser campeão.
E o sujeito falava todo seguro de si.
Aliás, abrindo um parênteses, deveria-se estudar à sério essa classe tão bizarra que é a do "comentarista de futebol".
Moral da estória: o São Paulo levou um sabão e tudo indica que o FLA, que sempre teve uma administração louca, vai levar o título.
Quanto a partida, o Botafogo, principalmente no segundo tempo, parecia satisfeito com o placar. Parece ser um candidato seríssimo a segunda divisão.
Já o FLU... não digo nada, vamos esperar quarta e domingo. Tudo indica que teremos belas surpresas.
Vou trazer boas recordações de Curitiba.
O show foi duca!!!!!!
E o Carlos, meu produtor em Curitiba, é o cara !!!!
sexta-feira, 17 de junho de 2011
MISÉRIA DOURADA
MISÉRIA DOURADA
Gastamos nossa vida,
pedra engastada.
O futuro se tornou fumo.
Não investimos,
não construímos
e tudo passou.
Ficou apenas um reflexo dourado,
consequência da vista cansada.
Beleza estéril.
Miséria dourada.
Gastamos nossa vida,
pedra engastada.
O futuro se tornou fumo.
Não investimos,
não construímos
e tudo passou.
Ficou apenas um reflexo dourado,
consequência da vista cansada.
Beleza estéril.
Miséria dourada.
terça-feira, 14 de junho de 2011
ABRAÇOS PARTIDOS E MARIO BORTOLOTTO
ABRAÇOS PARTIDOS E MARIO BORTOLOTTO
Abraços Partidos, último filme de Almodóvar, tem algo em comum com o incidente que ocorreu com o meu amigo e escritor Mario Bortolotto. Tem também algo em comum com o que ocorreu no Couto Pereira em Curitiba. Fala de vingança. Mas fala também da vitória sobre a vingança. Fala de amor e arte.
E na próxima quinta feira, no Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro, às 20:00 horas, estaremos fazendo o que nos compete. Estaremos respondendo à nossa maneira, ao ato violento ocorrido, no último sábado em São Paulo, com o escritor e ator Mário Bortolotto.
Não somos a polícia, cuja lógica é enfrentar, apurar e prender os responsáveis. Vamos responder com poesia e música, coisa que o Mario adorava fazer.
O filme de Almodóvar aborda essas duas perspectivas, a vingança e o amor, em três níveis.
O primeiro nível, que diz respeito aos projetos, o filho perturbado do industrial quer fazer um filme sobre vingança (entre filho e pai a relação é de ódio); já o diretor, manifesta o desejo de fazer um filme relacionado à vida de Arthur Miller, que rejeita um filho excepcional, o que não elimina o sentimento de grande amor que esse filho sente pelo pai. A idéia de vingança apresenta a lógica da ação e reação, que o amor desconhece; no que tange ao amor, não está em jogo a relação de oposição ou equilíbrio (a diferença é o seu grande segredo).
O segundo nível, é o filme propriamente dito e o documentário. Em outras palavras, o que o pai conta pro filho (o filme), e o que o filho conta pro pai (documentário). No segundo caso, como existe a ausência da voz dos personagens, vai ocorrer a leitura labial. Uma imagem sem voz: esse é o defeito do documentário. É uma captação incompleta, distante, sem alma. Mas nem por isso será negada: serve ao menos pra captar o beijo final dos amantes e a culpa do documentarista pelo acidente ocorrido. Ao invés de ser descartado como uma espécie de vingança, o documentário, ainda que movido a ódio, vai completar o sentido e vai ser incluído no resultado final do filme.
O terceiro nível, é o filme dentro do filme. O que está sendo produzido com o dinheiro do industrial. Como vingança à fuga da mulher, o industrial realiza o filme com as piores tomadas. E quando o diretor, tenta se vingar por tudo ocorrido, marcando um encontro com o filho do industrial, sua assistente lhe revela que guardara todos os negativos. É a oportunidade para refazer o filme, parte final, quando somos brindados pelo estilo almodóvar de cinema. Essa reconstrução, da qual o seu filho vai tomar parte, reconstituindo as fotos rasgadas pelo filho do industrial, é a vitória final de “Abraços Partidos”.
Abraços Partidos, último filme de Almodóvar, tem algo em comum com o incidente que ocorreu com o meu amigo e escritor Mario Bortolotto. Tem também algo em comum com o que ocorreu no Couto Pereira em Curitiba. Fala de vingança. Mas fala também da vitória sobre a vingança. Fala de amor e arte.
E na próxima quinta feira, no Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro, às 20:00 horas, estaremos fazendo o que nos compete. Estaremos respondendo à nossa maneira, ao ato violento ocorrido, no último sábado em São Paulo, com o escritor e ator Mário Bortolotto.
Não somos a polícia, cuja lógica é enfrentar, apurar e prender os responsáveis. Vamos responder com poesia e música, coisa que o Mario adorava fazer.
O filme de Almodóvar aborda essas duas perspectivas, a vingança e o amor, em três níveis.
O primeiro nível, que diz respeito aos projetos, o filho perturbado do industrial quer fazer um filme sobre vingança (entre filho e pai a relação é de ódio); já o diretor, manifesta o desejo de fazer um filme relacionado à vida de Arthur Miller, que rejeita um filho excepcional, o que não elimina o sentimento de grande amor que esse filho sente pelo pai. A idéia de vingança apresenta a lógica da ação e reação, que o amor desconhece; no que tange ao amor, não está em jogo a relação de oposição ou equilíbrio (a diferença é o seu grande segredo).
O segundo nível, é o filme propriamente dito e o documentário. Em outras palavras, o que o pai conta pro filho (o filme), e o que o filho conta pro pai (documentário). No segundo caso, como existe a ausência da voz dos personagens, vai ocorrer a leitura labial. Uma imagem sem voz: esse é o defeito do documentário. É uma captação incompleta, distante, sem alma. Mas nem por isso será negada: serve ao menos pra captar o beijo final dos amantes e a culpa do documentarista pelo acidente ocorrido. Ao invés de ser descartado como uma espécie de vingança, o documentário, ainda que movido a ódio, vai completar o sentido e vai ser incluído no resultado final do filme.
O terceiro nível, é o filme dentro do filme. O que está sendo produzido com o dinheiro do industrial. Como vingança à fuga da mulher, o industrial realiza o filme com as piores tomadas. E quando o diretor, tenta se vingar por tudo ocorrido, marcando um encontro com o filho do industrial, sua assistente lhe revela que guardara todos os negativos. É a oportunidade para refazer o filme, parte final, quando somos brindados pelo estilo almodóvar de cinema. Essa reconstrução, da qual o seu filho vai tomar parte, reconstituindo as fotos rasgadas pelo filho do industrial, é a vitória final de “Abraços Partidos”.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
DEPOIMENTO PARA A NOVELA DAS 8
DEPOIMENTO PARA A NOVELA DAS 8
Há 40 anos atrás
eu pagava um boquete
e um fiapo de pentelho ficou preso na minha garganta.
Não subia nem descia.
Eu tossia, ele não saía.
Eu bebia, ele não descia.
Os anos foram passando
e eu fui me acostumando.
E por mais que cantasse
o fiapo de pentelho continuava preso na minha garganta.
Me casei, tive 3 filhos
e hoje me considero um homem feliz e realizado.
Mas o fiapo de pentelho continua preso na minha garganta.
Não sobe, nem desce.
Eu tusso, ele não sai.
Eu bebo, ele não desce.
Há 40 anos atrás
eu pagava um boquete
e um fiapo de pentelho ficou preso na minha garganta.
Não subia nem descia.
Eu tossia, ele não saía.
Eu bebia, ele não descia.
Os anos foram passando
e eu fui me acostumando.
E por mais que cantasse
o fiapo de pentelho continuava preso na minha garganta.
Me casei, tive 3 filhos
e hoje me considero um homem feliz e realizado.
Mas o fiapo de pentelho continua preso na minha garganta.
Não sobe, nem desce.
Eu tusso, ele não sai.
Eu bebo, ele não desce.
terça-feira, 7 de junho de 2011
O INTUITIVO GENIAL
O INTUITIVO GENIAL
Outro dia, eu conversava com um “moderninho” e me reportava às músicas de um vanguardista reconhecido do underground. Esse compositor era um “intuitivo genial”. Não tinha nenhuma noção de teoria musical e no entanto se metia a construir arranjos arrojados, ligados ao serialismo e à música contemporânea. A questão é que como o nosso “compositor genial” não dominava a técnica, os seus arranjos de um modo geral naufragavam e não conseguiam dar corpo às suas idéias sempre “geniais”.
Diante da minha observação, o moderninho rebateu de pronto: mas não importa que os arranjos não dêem certo; pior seria se não houvesse falha, se não houvesse erro; pior seria se fosse uma composição perfeita e bem sucedida.
Deixei o moderninho e entrei no ônibus preocupado. Se o que vale é a idéia e não sua realização, então bastaríamos viver no reino abstrato, o que por si só eliminaria o sentido da arte.
Por outro lado, se o erro, a falha ou o defeito são mais importantes que a realização da idéia, pra que concebê-la? Bastaria que fôssemos levados ao sabor do acaso, o que significa também tornar-se escravo do acaso. Ser artista seria o mesmo que ser autômato.
Ou seja, segundo nosso moderninho, não há escapatória: ou é o reino absoluto das idéias ou sua ausência; no primeiro caso, eliminariam-se as técnicas e por conseguinte o mundo se tornaria invisível; no segundo caso, não haveria mais nenhuma interferência do Homem na natureza, o que significaria o retorno ao irracional.
São as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda negativa. Que nega o mundo e o destrói sem pôr nada no lugar. Um suicida ortodoxo, um Homem Bomba. Um nazista diante do Museu do Louvre, pronto a pôr tudo para os ares.
Contra essa ortodoxia, eu prefiro escrever minhas canções. E afirmar o mundo. E permanecer bem longe dos gênios. À propósito, me lembro da resposta de Caetano Veloso à Hermeto Pachoal, esse sim um gênio inconteste. A superioridade da música americana, em relação à brasileira, vem justamente do fato de não precisarem de gênios, não precisarem desses “intuitivos geniais”. Toda pujança da música americana é produto de uma educação. Afirmar o “intuitivo genial” é de uma certa forma ser cúmplice dos desmazelos do Estado e do seu descaso com a coisa pública. Nesse sentido, o “intuitivo genial” é tão conservador quanto o moderninho que o defende.
Outro dia, eu conversava com um “moderninho” e me reportava às músicas de um vanguardista reconhecido do underground. Esse compositor era um “intuitivo genial”. Não tinha nenhuma noção de teoria musical e no entanto se metia a construir arranjos arrojados, ligados ao serialismo e à música contemporânea. A questão é que como o nosso “compositor genial” não dominava a técnica, os seus arranjos de um modo geral naufragavam e não conseguiam dar corpo às suas idéias sempre “geniais”.
Diante da minha observação, o moderninho rebateu de pronto: mas não importa que os arranjos não dêem certo; pior seria se não houvesse falha, se não houvesse erro; pior seria se fosse uma composição perfeita e bem sucedida.
Deixei o moderninho e entrei no ônibus preocupado. Se o que vale é a idéia e não sua realização, então bastaríamos viver no reino abstrato, o que por si só eliminaria o sentido da arte.
Por outro lado, se o erro, a falha ou o defeito são mais importantes que a realização da idéia, pra que concebê-la? Bastaria que fôssemos levados ao sabor do acaso, o que significa também tornar-se escravo do acaso. Ser artista seria o mesmo que ser autômato.
Ou seja, segundo nosso moderninho, não há escapatória: ou é o reino absoluto das idéias ou sua ausência; no primeiro caso, eliminariam-se as técnicas e por conseguinte o mundo se tornaria invisível; no segundo caso, não haveria mais nenhuma interferência do Homem na natureza, o que significaria o retorno ao irracional.
São as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda negativa. Que nega o mundo e o destrói sem pôr nada no lugar. Um suicida ortodoxo, um Homem Bomba. Um nazista diante do Museu do Louvre, pronto a pôr tudo para os ares.
Contra essa ortodoxia, eu prefiro escrever minhas canções. E afirmar o mundo. E permanecer bem longe dos gênios. À propósito, me lembro da resposta de Caetano Veloso à Hermeto Pachoal, esse sim um gênio inconteste. A superioridade da música americana, em relação à brasileira, vem justamente do fato de não precisarem de gênios, não precisarem desses “intuitivos geniais”. Toda pujança da música americana é produto de uma educação. Afirmar o “intuitivo genial” é de uma certa forma ser cúmplice dos desmazelos do Estado e do seu descaso com a coisa pública. Nesse sentido, o “intuitivo genial” é tão conservador quanto o moderninho que o defende.
domingo, 5 de junho de 2011
JÚPITER MAÇÃ
JÚPITER MAÇÃ
Jazz fusion, samba-jazz, música celta, medieval, judaica, psicodelia, rock de Manchester, rock de Detroit, Nuggets, canções jazzy de cabarés franceses e alemães, minimalismo, folk, música concreta, slogan-art, Beatles, Stones, Birds, Stereolab, Syd Barret, Bob Dylan, David Bowie, Lou Reed, Mutantes, Tropicalismo, Jovem Guarda. Bossa Nova, Ficção Científica, Cinema, Artes Pláticas, Semana de 22, psicotrópicos, beatniks, sexo, mentiras e vídeo-tape.
Querer abarcar essa gama de variações, é bem próprio de um espírito camaleônico. Para tanto, um ônus: a angústia da síntese. Como recensear tudo isso?
Júpiter Maçã é um espírito raro. Basta que passemos em revista artistas e bandas de rock. Cada um buscou a identidade, valor máximo que um artista pode pleitear. E de nada terá valido tantos anos de estrada se não for alcançada essa voz própria, pela qual se possa ser reconhecido.
E quando a identidade deixa de ser o paradigma? Quando, ao contrário, a quebra de expectativa passa a vigorar numa carreira, gerando inclusive muitos mal-entendidos. Como é que fica? Uma identidade que se construiria a partir de múltiplas máscaras. Esse é o caso de Flavio Basso, vulgo Woody Apple, vulgo Júpiter Maçã, vulgo Júpiter Apple, vulgo... Apple Sound?
Começou no TNT. Banda gaúcha, ainda da década de 80. Júpiter chegou a gravar com ela apenas na Coletânea Rock Grande do Sul, mas antes do primeiro disco da banda, veio a sair, nem chegando a gravar, ainda que tivesse composto todas as músicas desse disco. O motivo alegado da saída: a banda não comprou a idéia das músicas de sacanagem. E de fato, no segundo disco da banda, já sem a participação de Júpiter, não vamos encontrar esse universo. É o caso de “A Irmã do Doctor Robert”; “Charles Máster”; “Baby, eu vou Morrer n’outro Planeta”; “Dentro do meu Carro”.
Um ano após o lançamento do TNT, os Cascavelletes, sua segunda banda, lança seu primeiro disco e pela BMG. Estamos em 1988, e entre músicas como “Menstruada”, “Carro Roubado” e “Morte por Tesão”, todas diretas e sem subterfúgios, um caso raro na música brasileira onde a censura das majors vinha substituir a dos militares, a música que acabaria se destacando seria “Jéssica Rose”. E o curioso é que se destaca não pela linguagem picante que predomina no disco, mas porque abre um espaço de diferença no meio de um rock primário – um folk da pesada, estilo que estará, a partir daí, arqui-presente.
A primeira demo da banda data de antes. VORTEX é de 1987. Aqui predomina a sacanagem. “A Última Virgem”, “Estupro com Carinho”, Minissaia sem Calcinha” são símbolos de uma geração que não era representada pela mídia. E Júpiter foi seu porta-voz, ainda que corresse o risco do precário. Nem Mamonas, nem Raimundos foram tão diretos. A sua co-irmã Graforréia, não fosse a guitarra de Birck, soaria politicamente correta e sem alma.
Mas em 1989, meses depois de uma demo gravada no Rio de Janeiro, surge o disco mais importante dos Cascavelletes e foi pela EMI-ODEON : Rock’A’Ula. Na sua maior parte, predomina o estilo sacanagem que acabou dando à banda sua principal marca. Mas apesar da punhetinha de verão da “Nega Bom Bom”, ou da sente no meu colo, pise no acelerador da “Cão e Cadela”, tem também: “Gato Preto” – original até debaixo d’água –; “Sorte no Jogo, Azar no Amor”, que se Bruno e Marrone escutassem, iriam querer gravar; “DISCO” que também é um estilo, ao qual, Júpiter, pensando na pista, sempre irá recorrer; sem contar com as belas “Jéssica Rose”, já conhecida, e “Lobo da Estepe”.
Depois, surge a demo dos Cascavelletes, datada de 1990. Das sete músicas apresentadas, “Rosas de Amor” é de longe a mais interessante, num entrecruzamento bizarro de Ian Curtis e Johnny Cash. O restante é irregular. Mas ainda assim, dentro do seu primitivismo, podemos já realçar uma marca que o diferenciava, por exemplo, da Graforréia Xilarmônica, banda gaúcha que participava da mesma cena: a sinceridade rasgada. Nada mais beat. Era uma ingenuidade valiosa, que refletia inclusive no timbre da voz – já tive a oportunidade de comentar, aqui neste mesmo blog, sobre a questão da entonação. Nesse sentido, o compositor é sempre o melhor cantor.
Na segunda demo, um ano após o lançamento da primeira, se destaca “Lobo da Estepe”. A versão de “I feel Good” é também genial, e “Se eu fosse Mulher” tem um verso símbolo que, não só prepara para o que virá no futuro, como também expressa essa valiosa ingenuidade da qual nenhum grande artista poderá se apartar: “Se eu fosse mulher/seria infiel,/teria mil amantes na torre de babel”.
Depois, em 1992, surge um compacto com as músicas “Sob um Céu de Blues” e “Homossexual”.
Entre 1994 e 1995, com uma banda do Mato Grosso, Os Pereiras Azuis, Júpiter começa a preparar o repertório de um futuro disco solo (essa experiência foi inclusive registrada).
Até que em 1996, pelo selo Antídoto/Acit, com produção de Egisto Del Santo, e Glauco Caruso na bateria e percussão, Emerson Caruso baixo, e Júpiter no resto (guitarra, violão, craviola de 12, teclados, harmônicas e vocais), sai o seu primeiro disco solo: Sétima Efervescência. E é um corte. Foi eleito, pela Revista Rolling Stones, um dos 100 discos brasileiros mais importantes de todos os tempos.
A primeira coisa a se ressaltar: a coragem da ruptura. O que poderíamos entender até como traição. Se na fase anterior predominava o puro sexo, a imagem direta, aqui é outro o paradigma: o psicotrópico, a ambigüidade e o espaço mental.
Em comparação à fase anterior, ocorre uma sublimação. Conversar talvez seja mais importante que trepar. A amizade e o amor expressam um espaço abstrato que se abre agora, sem que para isso seja necessário eliminar a intensidade vivida.
A música símbolo é “Eu e minha Ex”. E tal como o título indica, não é mais uma relação unívoca: talvez sejam um só de novo em outro planeta, dimensão, circunstância e situação. É a ingenuidade valiosa capaz de dizer na cara o que por si só é tão complexo. E os dois estão falando sobre suas vidas. E o que eles querem mesmo é amizade. Essa superação que é tão difícil e da qual ele desconfia não ter conseguido ainda efetuar. É uma relação ambígua, complexa, entre ele e sua ex. E no entanto, é sua ex: ela tem novas idéias, discos, filmes, diferentes de quando ele opinava.
A estrutura da música é bipolar ( a primeira parte é bem diferente da segunda). O arranjo sinfônico de Birck convive lado a lado com o rock dos Beatles (Birck, aqui, é o George Martin de Júpiter). E a música, tal e qual o texto, tal e qual seu arranjo, tal e qual a carreira de Júpiter, não é mais unívoca. Essa complexidade, à que se agrega a psicodelia, mais um elemento novo do qual Júpiter não vai mais se afastar, corrobora no sentido do distanciamento do real. O outro é o próprio eu, com o qual ele conversa em “As Tortas e as Cucas” – “falei com a minha sombra”. As mulheres são os psicotrópicos (Querida Superhist e Miss Lexotan). Ao invés do cadilac e da moto, novos espaços planetários (Sociedades Humanóides Fantásticas) e um lugar do caralho.
Ainda que “O Novo Namorado” resista monocórdio, o novo paradigma é a “Essência Interior” – aqui, no espaço sincrônico da canção, ele se masturba mas está ligado na essência interior dela. Essa duas imagens contrárias, lado a lado, dão o tom à Sétima Efervescência e a fazem bem distante dos Cascavelletes.
Qual outro artista brasileiro terá empreendido tamanha mudança? Vale acrescentar aqui a música medieval de “Canção para Dormir”, a bossa nova que se introduz em “Sociedades Humanóides Fantásticas” (it’s a skylab) e a colagem em “Sétima Efervescência Intergaláctica”. Finalizar o disco com a colagem é de uma certa forma afirmar a referida técnica. As partes diferentes de qualquer música sua, a partir daqui, sugerem mais um processo de colagem, tamanha a diferença entre elas, do que um desenvolvimento orgânico.
Plastic Soda, de 1999, fim de século, é uma nova virada. Ele já anunciava em “The Freaking Alice”, que por sinal tem o verso mais poético de sua obra – seus pezinhos embarrados por pintora. Mas nessa música, ele afirma: “toda mutação acaba sendo evolução”. E ele agrega agora a bossa-nova.
O disco, elogiado por Caetano e Tom Zé, receberia alguns prêmios: troféu Açoriano do RS e APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). A essa altura, Júpiter se afirmaria como um dos nomes mais importantes do sul. A maturidade é expressa em versos como: “ Talvez não vá demorar muito tempo,/ a sombra de um homem crescido surgir”, em “Welcome to the Shade”. O disco, todo composto em inglês, confirma a trajetória de sublimação, iniciada em Sétima Efervescência. Em “Over the Universe”, ele diz: “Fonte do amor astronômico metafísico,/ o foguete toca o céu/ e vai diretamente do meu coração para o seu”. Uma outra face dessa sublimação, o real passa a ser reflexo do eu: “ Você vê o rapaz e a empregada em flor,/ talvez sejam apenas seu reflexo o tempo todo”, em “ A Lad & a Maid in the Bloom”.
Se algumas canções continuam a experiência da psicodelia do disco anterior (“Sambe Groove Theme”, “24 Hours Nude”, “Head Head”, “The True Love of the Spider”), a novidade serão aquelas limpas de distorção e que acentuam a beleza das canções. É o caso de “Morning Intuition Man”, ainda que nesta, além das cordas e da voz a nos dar a sensação de distorção e desafinação, tem também em seu final uma colagem de sons, artificialmente introduzidos, que sublinham o caráter complexo e experimental de sua obra. Mas, “Bridges of Redemption Park”, “Over the Universe”, “Plastic Soda” e “Welcome to the Shade”, mostram um outro lado do compositor: são canções limpas, belas e tranqüilas. O que não diria dessas canções o libidinoso adolescente que se criou ouvindo Os Cascavelletes?
Quando aparece Hisscivilization, o susto não foi menor. Também pudera. Se quase foi abolido aqui a psicodelia, por outro lado são agregados o minimalismo e a música concreta. O texto perdeu sua importância. Se no disco anterior, composto em inglês, o texto já perdia força, podíamos apenas flagrar aqui e ali bons achados poéticos, já em Hisscivilization, Júpiter se debruça no som e produz um disco digno de um Egberto Gismonti ou Edu Lobo. Disco de texturas e muitas camadas, onde o teclado (sintetizador, órgão e moog) é arqui-presente. Não podemos esquecer aqui Cuca Medina no primeiro e Astronauta Pingüim nos outros dois.
A voz feminina (Thalita F Jones) torna-se importante nesse disco e deixa de ser presença secundária. Além disso, valoriza-se a linguagem oral, é o caso de “Overture and the Something Else” e “In the Presence of Zogh Zucchini”. Em “Metrópole”, o riso feminino e espontâneo ao final da faixa, procedimento ao qual Júpiter vez por outra se utiliza, mostra o quanto seu trabalho assimila o acidental.
Se a música concreta e industrial estão presentes, principalmente ao final das faixas, como é o caso de “Homeless and the Jet Boots Boy”, “Overture and the Something Else”, “In the Presence of Zugh Zucchini”, também nessas o minimalismo, que nos remete a Philip Glass, marca presença.
Foi mais uma virada porque, se no disco anterior a novidade eram as belas e simples canções bossanovistas, em Hisscivilization Júpiter retoma o que talvez seja sua maior característica: a complexidade, seja da própria composição, constituída de partes bem diferentes entre si, seja do arranjo, integrando diversas técnicas numa mesma faixa.Essa saturação de elementos me faz lembrar a banda de interior que é inserida ao final de “Pyrus Malus et Fragaria Vesca”.
Bitter aparece em 2007, na verdade sua gravação é posterior ao disco que viria em seguida. Mas serve como mais um contraste. Desta vez não é Thalita, é Bibmo. A gravação é feita numa tomada só, os arranjos são simples, e o camaleão nos oferece um desfile de máscaras. Um retorno ao velho rock and roll, do qual seus fãs se sentiam ausentes. Simples e coeso. Bob Dylan reaparece em diversas faixas: imitá-lo, como Júpiter o faz, pode dar a dica do seu método de trabalho. Mas não é só Dylan. Em “Clowns”, Johnny Rotten; em “Exactly”, que já constava do disco anterior, os irmãos Gallagher; em “Down Mith Girl”, Lou Reed. Descubra você onde está Iggy Pop, ou David Bowie, ou Jefferson Airplane.
Me diziam, algum tempo atrás, que Júpiter só olha o umbigo. E foi mesmo essa impressão que tive ao ser entrevistado por ele na MTV. Ao menos o Jô estuda antes a pauta, há uma pré-entrevista, ele não entra vendido no lance. E naquela entrevista da MTV, ou a produção não deu a Júpiter as informações, ou se deu, ele desconheceu. E entrou vendido no lance. Ali, tive a certeza de que o umbigo é o seu livro. Mas ao me debruçar em sua obra, mais uma rasteira. Porque seu trabalho é justo o contrário: não é seu umbigo, é o mundo; seu método de trabalho é quase uma mímesis e Bitter nos mostra isso com clareza.
“Uma Tarde na Fruteira” é sua obra prima. Súmula das súmulas, o camaleão finalmente consegue dar a síntese dos caminhos já trilhados. Era a angústia do camaleão: fazer o recenseamento; colar o espelho partido. Porque se sua essência é a fragmentação, sua angústia também o é. Daí seu desejo de juntar pedaços.
Se nos discos anteriores, esse desejo se manifestava, ainda assim estava longe do equilíbrio alcançado agora.
Mas a sensação de rasteira que sempre sentimos ao nos debruçarmos sobre ele, estranhamente, aqui desaparece. Justo na sua obra prima, na súmula das súmulas. Até em suas apresentações ao vivo, que faziam muitos dos seus fãs se descabelarem revoltados, a rasteira era aplicada. Nunca a apresentação era a reprodução do disco. E nem havia como ser. Não só pelas dificuldades técnicas, mas principalmente pelo seu modus operandi: sempre ser outro. A justificativa das drogas e do álcool é secundária. Se não fossem eles, seria outro o motivo. Mas o Júpiter do disco não é mesmo o Júpiter ao vivo. E isso se integra ao sentido geral do seu trabalho.
“A Marchinha Psicótica do Dr. Soup” serve como uma bela alegoria do espelho partido: é o mosaico de imagens mil. No disco, a língua portuguesa é retomada. A palavra é sempre mais conservadora que a música. O que não dizer então da imagem, mais conservadora ainda porque congela à superfície o movimento profundo dos sons. E esse é o disco mais plástico de Júpiter.
Mas a imagem, ainda assim, é complexa: Woody Allen, Allen Ginsberg e Bob Dylan num mesmo ser.
Em seguida, o “Tema de Júpiter Maçã” retoma o recenseamento. Não é à toa que, mais adiante, em “Mademoiselle Marchant”, música de estrutura complexa onde a primeira parte, constituída por acordeon e judaísmo, dá lugar a um rock sessentista, ocorre esse verso: “existe antiquários hoje em mim”.
E cada faixa traz à tona uma faceta já explorada: a música celta (“As Mesmas Coisas”, “Plataforma 6”), a MPB tropicalista (“Uma Sorvete com Você”), o orientalismo (“Beatle George”), a bossa-nova de Sérgio Mendes (“Carvão sobre Tela”), o samba-jazz (“Plataforma 6”), a música judaica (“Mademoiselle Marchant”), a música eletrônica (“Base Primitiva”), a música de pista (“A Menina Super Brasil”), a música concreta (“Viola de Aço”), o folk (“Little Raver”), o jazz-fusion (“Plataforma 6”), a psicodelia (“As Mesmas Coisas”), o minimalismo (“Viola de Aço”). Neste último exemplo, incide uma outra faceta já comentada: a incorporação de acidentes, erros e acaso (uma falha no equipamento leva Júpiter a improvisar um folk, no qual, fala do defeito e o insere na música).
Mas nada se compara à “Casa de Mamãe”. Se em Sétima Efervescência, “Eu e minha Ex” é a música-síntese , exprimindo uma nova relação – eu e minha ex – mais complexa e menos direta, “Na Casa de Mamãe” é a consolidação de um estilo. É o que há de mais bipolar na MPB, seja na estrutura melódica, seja na estrutura poética. “Me sinto um pouco decadente, mas com estilo”. As frases de Júpiter são sintéticas, no melhor estilo inglês, e isso vem desde sua aprendizagem no TNT e nos Cascavelletes. Mas aqui ele se supera. Como se a decadência estivesse ligada a esse esforço de fixação de um estilo, um esforço de identidade. Ainda que permaneça cult underground, como na marchinha, ele já visualiza em 2020 a sua transformação para hit nacional. Na Fruteira, sua ansiedade é finalmente estancada. Se chá e cachaça, ou, serenidade e histeria, perpassam a “Casa de Mamãe”, não haverá melhor retrato de uma obra que primou pela diferença e pela identidade. E se minha abordagem optou acompanhá-lo desde os primeiros passos, tentando flagrar mutações e desvios, sobretudo suas imitações, foi sempre no sentido de tomar partido pela Diferença. A herança cultural lhe permitiu se perder, fugir de si e enraivecer os fãs. Poucos compositores foram capazes de ir tão longe. Mas seu último gesto sintetiza tudo: Na Fruteira contem todos os frutos e permite, finalmente, que ouçamos Os Mutantes e encontremos Júpiter. Essa situação absurda, que levou Borges a pensar os poetas fortes como criadores de seus próprios precursores – Kafka criou Browning – é “o triunfo de havermos colocado de tal modo o precursor em nossa própria obra, que determinados trechos da obra do precursor parecem ser não presságios de nosso advento, mas antes devedores de nossa realização e até mesmo diminuídos por nosso maior esplendor” (Harold Bloom – “A Angústia da Influência”).
Ainda assim, não acredito que “Na Fruteira” seja o último gesto, até porque seu húmus criativo vem da mímesis. Já ouvi murmúrios sobre “Apple Sound” e “slogan-art” – repetição do slogan poético e do som organo looped. Ou seja, novas paixões que o levariam a “errar” mais.
A grandeza da Fruteira é seu grande fracasso. Mas, sem ela, não poderíamos entender o dualismo: sem ela, não ficaria o registro de um eu eternamente errante.
É sobre esse aspecto que coloco em questão algumas observações de Jorge Cardoso Filho, e, Pedro Silva Marrano no texto “Do Underground para o Mainstream sem perder a Categoria: análise da trajetória de um músico gaúcho”. Em primeiro lugar porque as categorias referidas, “underground” e “mainstream”, no atual estágio da música planetária, com o colapso de vendas da grande indústria e as novas relações entre público e artista, via internet, vêm sofrendo profundas transformações. O mundo deixou de ser underground. E a tendência, ao que tudo indica, também não é o mainstream. Daí porque traduzo como o alvo principal de uma proposta poética, a conquista de sua autonomia. O poeta forte, segundo Harold Bloom, é aquele que atinge sua singularidade. Deveríamos então traduzir “mainstream”, na frase enigmática de Júpiter - “passar para o mainstream sem perder a categoria” - como o reconhecimento de uma voz própria, finalmente conquistada, o que para Júpiter passa por uma abrangência e complexidade, longe do segmentarismo. Diante de um público médio que cada vez mais tem acesso à informação em razão da internet, o mainstream é o múltiplo e o complexo.
Jazz fusion, samba-jazz, música celta, medieval, judaica, psicodelia, rock de Manchester, rock de Detroit, Nuggets, canções jazzy de cabarés franceses e alemães, minimalismo, folk, música concreta, slogan-art, Beatles, Stones, Birds, Stereolab, Syd Barret, Bob Dylan, David Bowie, Lou Reed, Mutantes, Tropicalismo, Jovem Guarda. Bossa Nova, Ficção Científica, Cinema, Artes Pláticas, Semana de 22, psicotrópicos, beatniks, sexo, mentiras e vídeo-tape.
Querer abarcar essa gama de variações, é bem próprio de um espírito camaleônico. Para tanto, um ônus: a angústia da síntese. Como recensear tudo isso?
Júpiter Maçã é um espírito raro. Basta que passemos em revista artistas e bandas de rock. Cada um buscou a identidade, valor máximo que um artista pode pleitear. E de nada terá valido tantos anos de estrada se não for alcançada essa voz própria, pela qual se possa ser reconhecido.
E quando a identidade deixa de ser o paradigma? Quando, ao contrário, a quebra de expectativa passa a vigorar numa carreira, gerando inclusive muitos mal-entendidos. Como é que fica? Uma identidade que se construiria a partir de múltiplas máscaras. Esse é o caso de Flavio Basso, vulgo Woody Apple, vulgo Júpiter Maçã, vulgo Júpiter Apple, vulgo... Apple Sound?
Começou no TNT. Banda gaúcha, ainda da década de 80. Júpiter chegou a gravar com ela apenas na Coletânea Rock Grande do Sul, mas antes do primeiro disco da banda, veio a sair, nem chegando a gravar, ainda que tivesse composto todas as músicas desse disco. O motivo alegado da saída: a banda não comprou a idéia das músicas de sacanagem. E de fato, no segundo disco da banda, já sem a participação de Júpiter, não vamos encontrar esse universo. É o caso de “A Irmã do Doctor Robert”; “Charles Máster”; “Baby, eu vou Morrer n’outro Planeta”; “Dentro do meu Carro”.
Um ano após o lançamento do TNT, os Cascavelletes, sua segunda banda, lança seu primeiro disco e pela BMG. Estamos em 1988, e entre músicas como “Menstruada”, “Carro Roubado” e “Morte por Tesão”, todas diretas e sem subterfúgios, um caso raro na música brasileira onde a censura das majors vinha substituir a dos militares, a música que acabaria se destacando seria “Jéssica Rose”. E o curioso é que se destaca não pela linguagem picante que predomina no disco, mas porque abre um espaço de diferença no meio de um rock primário – um folk da pesada, estilo que estará, a partir daí, arqui-presente.
A primeira demo da banda data de antes. VORTEX é de 1987. Aqui predomina a sacanagem. “A Última Virgem”, “Estupro com Carinho”, Minissaia sem Calcinha” são símbolos de uma geração que não era representada pela mídia. E Júpiter foi seu porta-voz, ainda que corresse o risco do precário. Nem Mamonas, nem Raimundos foram tão diretos. A sua co-irmã Graforréia, não fosse a guitarra de Birck, soaria politicamente correta e sem alma.
Mas em 1989, meses depois de uma demo gravada no Rio de Janeiro, surge o disco mais importante dos Cascavelletes e foi pela EMI-ODEON : Rock’A’Ula. Na sua maior parte, predomina o estilo sacanagem que acabou dando à banda sua principal marca. Mas apesar da punhetinha de verão da “Nega Bom Bom”, ou da sente no meu colo, pise no acelerador da “Cão e Cadela”, tem também: “Gato Preto” – original até debaixo d’água –; “Sorte no Jogo, Azar no Amor”, que se Bruno e Marrone escutassem, iriam querer gravar; “DISCO” que também é um estilo, ao qual, Júpiter, pensando na pista, sempre irá recorrer; sem contar com as belas “Jéssica Rose”, já conhecida, e “Lobo da Estepe”.
Depois, surge a demo dos Cascavelletes, datada de 1990. Das sete músicas apresentadas, “Rosas de Amor” é de longe a mais interessante, num entrecruzamento bizarro de Ian Curtis e Johnny Cash. O restante é irregular. Mas ainda assim, dentro do seu primitivismo, podemos já realçar uma marca que o diferenciava, por exemplo, da Graforréia Xilarmônica, banda gaúcha que participava da mesma cena: a sinceridade rasgada. Nada mais beat. Era uma ingenuidade valiosa, que refletia inclusive no timbre da voz – já tive a oportunidade de comentar, aqui neste mesmo blog, sobre a questão da entonação. Nesse sentido, o compositor é sempre o melhor cantor.
Na segunda demo, um ano após o lançamento da primeira, se destaca “Lobo da Estepe”. A versão de “I feel Good” é também genial, e “Se eu fosse Mulher” tem um verso símbolo que, não só prepara para o que virá no futuro, como também expressa essa valiosa ingenuidade da qual nenhum grande artista poderá se apartar: “Se eu fosse mulher/seria infiel,/teria mil amantes na torre de babel”.
Depois, em 1992, surge um compacto com as músicas “Sob um Céu de Blues” e “Homossexual”.
Entre 1994 e 1995, com uma banda do Mato Grosso, Os Pereiras Azuis, Júpiter começa a preparar o repertório de um futuro disco solo (essa experiência foi inclusive registrada).
Até que em 1996, pelo selo Antídoto/Acit, com produção de Egisto Del Santo, e Glauco Caruso na bateria e percussão, Emerson Caruso baixo, e Júpiter no resto (guitarra, violão, craviola de 12, teclados, harmônicas e vocais), sai o seu primeiro disco solo: Sétima Efervescência. E é um corte. Foi eleito, pela Revista Rolling Stones, um dos 100 discos brasileiros mais importantes de todos os tempos.
A primeira coisa a se ressaltar: a coragem da ruptura. O que poderíamos entender até como traição. Se na fase anterior predominava o puro sexo, a imagem direta, aqui é outro o paradigma: o psicotrópico, a ambigüidade e o espaço mental.
Em comparação à fase anterior, ocorre uma sublimação. Conversar talvez seja mais importante que trepar. A amizade e o amor expressam um espaço abstrato que se abre agora, sem que para isso seja necessário eliminar a intensidade vivida.
A música símbolo é “Eu e minha Ex”. E tal como o título indica, não é mais uma relação unívoca: talvez sejam um só de novo em outro planeta, dimensão, circunstância e situação. É a ingenuidade valiosa capaz de dizer na cara o que por si só é tão complexo. E os dois estão falando sobre suas vidas. E o que eles querem mesmo é amizade. Essa superação que é tão difícil e da qual ele desconfia não ter conseguido ainda efetuar. É uma relação ambígua, complexa, entre ele e sua ex. E no entanto, é sua ex: ela tem novas idéias, discos, filmes, diferentes de quando ele opinava.
A estrutura da música é bipolar ( a primeira parte é bem diferente da segunda). O arranjo sinfônico de Birck convive lado a lado com o rock dos Beatles (Birck, aqui, é o George Martin de Júpiter). E a música, tal e qual o texto, tal e qual seu arranjo, tal e qual a carreira de Júpiter, não é mais unívoca. Essa complexidade, à que se agrega a psicodelia, mais um elemento novo do qual Júpiter não vai mais se afastar, corrobora no sentido do distanciamento do real. O outro é o próprio eu, com o qual ele conversa em “As Tortas e as Cucas” – “falei com a minha sombra”. As mulheres são os psicotrópicos (Querida Superhist e Miss Lexotan). Ao invés do cadilac e da moto, novos espaços planetários (Sociedades Humanóides Fantásticas) e um lugar do caralho.
Ainda que “O Novo Namorado” resista monocórdio, o novo paradigma é a “Essência Interior” – aqui, no espaço sincrônico da canção, ele se masturba mas está ligado na essência interior dela. Essa duas imagens contrárias, lado a lado, dão o tom à Sétima Efervescência e a fazem bem distante dos Cascavelletes.
Qual outro artista brasileiro terá empreendido tamanha mudança? Vale acrescentar aqui a música medieval de “Canção para Dormir”, a bossa nova que se introduz em “Sociedades Humanóides Fantásticas” (it’s a skylab) e a colagem em “Sétima Efervescência Intergaláctica”. Finalizar o disco com a colagem é de uma certa forma afirmar a referida técnica. As partes diferentes de qualquer música sua, a partir daqui, sugerem mais um processo de colagem, tamanha a diferença entre elas, do que um desenvolvimento orgânico.
Plastic Soda, de 1999, fim de século, é uma nova virada. Ele já anunciava em “The Freaking Alice”, que por sinal tem o verso mais poético de sua obra – seus pezinhos embarrados por pintora. Mas nessa música, ele afirma: “toda mutação acaba sendo evolução”. E ele agrega agora a bossa-nova.
O disco, elogiado por Caetano e Tom Zé, receberia alguns prêmios: troféu Açoriano do RS e APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). A essa altura, Júpiter se afirmaria como um dos nomes mais importantes do sul. A maturidade é expressa em versos como: “ Talvez não vá demorar muito tempo,/ a sombra de um homem crescido surgir”, em “Welcome to the Shade”. O disco, todo composto em inglês, confirma a trajetória de sublimação, iniciada em Sétima Efervescência. Em “Over the Universe”, ele diz: “Fonte do amor astronômico metafísico,/ o foguete toca o céu/ e vai diretamente do meu coração para o seu”. Uma outra face dessa sublimação, o real passa a ser reflexo do eu: “ Você vê o rapaz e a empregada em flor,/ talvez sejam apenas seu reflexo o tempo todo”, em “ A Lad & a Maid in the Bloom”.
Se algumas canções continuam a experiência da psicodelia do disco anterior (“Sambe Groove Theme”, “24 Hours Nude”, “Head Head”, “The True Love of the Spider”), a novidade serão aquelas limpas de distorção e que acentuam a beleza das canções. É o caso de “Morning Intuition Man”, ainda que nesta, além das cordas e da voz a nos dar a sensação de distorção e desafinação, tem também em seu final uma colagem de sons, artificialmente introduzidos, que sublinham o caráter complexo e experimental de sua obra. Mas, “Bridges of Redemption Park”, “Over the Universe”, “Plastic Soda” e “Welcome to the Shade”, mostram um outro lado do compositor: são canções limpas, belas e tranqüilas. O que não diria dessas canções o libidinoso adolescente que se criou ouvindo Os Cascavelletes?
Quando aparece Hisscivilization, o susto não foi menor. Também pudera. Se quase foi abolido aqui a psicodelia, por outro lado são agregados o minimalismo e a música concreta. O texto perdeu sua importância. Se no disco anterior, composto em inglês, o texto já perdia força, podíamos apenas flagrar aqui e ali bons achados poéticos, já em Hisscivilization, Júpiter se debruça no som e produz um disco digno de um Egberto Gismonti ou Edu Lobo. Disco de texturas e muitas camadas, onde o teclado (sintetizador, órgão e moog) é arqui-presente. Não podemos esquecer aqui Cuca Medina no primeiro e Astronauta Pingüim nos outros dois.
A voz feminina (Thalita F Jones) torna-se importante nesse disco e deixa de ser presença secundária. Além disso, valoriza-se a linguagem oral, é o caso de “Overture and the Something Else” e “In the Presence of Zogh Zucchini”. Em “Metrópole”, o riso feminino e espontâneo ao final da faixa, procedimento ao qual Júpiter vez por outra se utiliza, mostra o quanto seu trabalho assimila o acidental.
Se a música concreta e industrial estão presentes, principalmente ao final das faixas, como é o caso de “Homeless and the Jet Boots Boy”, “Overture and the Something Else”, “In the Presence of Zugh Zucchini”, também nessas o minimalismo, que nos remete a Philip Glass, marca presença.
Foi mais uma virada porque, se no disco anterior a novidade eram as belas e simples canções bossanovistas, em Hisscivilization Júpiter retoma o que talvez seja sua maior característica: a complexidade, seja da própria composição, constituída de partes bem diferentes entre si, seja do arranjo, integrando diversas técnicas numa mesma faixa.Essa saturação de elementos me faz lembrar a banda de interior que é inserida ao final de “Pyrus Malus et Fragaria Vesca”.
Bitter aparece em 2007, na verdade sua gravação é posterior ao disco que viria em seguida. Mas serve como mais um contraste. Desta vez não é Thalita, é Bibmo. A gravação é feita numa tomada só, os arranjos são simples, e o camaleão nos oferece um desfile de máscaras. Um retorno ao velho rock and roll, do qual seus fãs se sentiam ausentes. Simples e coeso. Bob Dylan reaparece em diversas faixas: imitá-lo, como Júpiter o faz, pode dar a dica do seu método de trabalho. Mas não é só Dylan. Em “Clowns”, Johnny Rotten; em “Exactly”, que já constava do disco anterior, os irmãos Gallagher; em “Down Mith Girl”, Lou Reed. Descubra você onde está Iggy Pop, ou David Bowie, ou Jefferson Airplane.
Me diziam, algum tempo atrás, que Júpiter só olha o umbigo. E foi mesmo essa impressão que tive ao ser entrevistado por ele na MTV. Ao menos o Jô estuda antes a pauta, há uma pré-entrevista, ele não entra vendido no lance. E naquela entrevista da MTV, ou a produção não deu a Júpiter as informações, ou se deu, ele desconheceu. E entrou vendido no lance. Ali, tive a certeza de que o umbigo é o seu livro. Mas ao me debruçar em sua obra, mais uma rasteira. Porque seu trabalho é justo o contrário: não é seu umbigo, é o mundo; seu método de trabalho é quase uma mímesis e Bitter nos mostra isso com clareza.
“Uma Tarde na Fruteira” é sua obra prima. Súmula das súmulas, o camaleão finalmente consegue dar a síntese dos caminhos já trilhados. Era a angústia do camaleão: fazer o recenseamento; colar o espelho partido. Porque se sua essência é a fragmentação, sua angústia também o é. Daí seu desejo de juntar pedaços.
Se nos discos anteriores, esse desejo se manifestava, ainda assim estava longe do equilíbrio alcançado agora.
Mas a sensação de rasteira que sempre sentimos ao nos debruçarmos sobre ele, estranhamente, aqui desaparece. Justo na sua obra prima, na súmula das súmulas. Até em suas apresentações ao vivo, que faziam muitos dos seus fãs se descabelarem revoltados, a rasteira era aplicada. Nunca a apresentação era a reprodução do disco. E nem havia como ser. Não só pelas dificuldades técnicas, mas principalmente pelo seu modus operandi: sempre ser outro. A justificativa das drogas e do álcool é secundária. Se não fossem eles, seria outro o motivo. Mas o Júpiter do disco não é mesmo o Júpiter ao vivo. E isso se integra ao sentido geral do seu trabalho.
“A Marchinha Psicótica do Dr. Soup” serve como uma bela alegoria do espelho partido: é o mosaico de imagens mil. No disco, a língua portuguesa é retomada. A palavra é sempre mais conservadora que a música. O que não dizer então da imagem, mais conservadora ainda porque congela à superfície o movimento profundo dos sons. E esse é o disco mais plástico de Júpiter.
Mas a imagem, ainda assim, é complexa: Woody Allen, Allen Ginsberg e Bob Dylan num mesmo ser.
Em seguida, o “Tema de Júpiter Maçã” retoma o recenseamento. Não é à toa que, mais adiante, em “Mademoiselle Marchant”, música de estrutura complexa onde a primeira parte, constituída por acordeon e judaísmo, dá lugar a um rock sessentista, ocorre esse verso: “existe antiquários hoje em mim”.
E cada faixa traz à tona uma faceta já explorada: a música celta (“As Mesmas Coisas”, “Plataforma 6”), a MPB tropicalista (“Uma Sorvete com Você”), o orientalismo (“Beatle George”), a bossa-nova de Sérgio Mendes (“Carvão sobre Tela”), o samba-jazz (“Plataforma 6”), a música judaica (“Mademoiselle Marchant”), a música eletrônica (“Base Primitiva”), a música de pista (“A Menina Super Brasil”), a música concreta (“Viola de Aço”), o folk (“Little Raver”), o jazz-fusion (“Plataforma 6”), a psicodelia (“As Mesmas Coisas”), o minimalismo (“Viola de Aço”). Neste último exemplo, incide uma outra faceta já comentada: a incorporação de acidentes, erros e acaso (uma falha no equipamento leva Júpiter a improvisar um folk, no qual, fala do defeito e o insere na música).
Mas nada se compara à “Casa de Mamãe”. Se em Sétima Efervescência, “Eu e minha Ex” é a música-síntese , exprimindo uma nova relação – eu e minha ex – mais complexa e menos direta, “Na Casa de Mamãe” é a consolidação de um estilo. É o que há de mais bipolar na MPB, seja na estrutura melódica, seja na estrutura poética. “Me sinto um pouco decadente, mas com estilo”. As frases de Júpiter são sintéticas, no melhor estilo inglês, e isso vem desde sua aprendizagem no TNT e nos Cascavelletes. Mas aqui ele se supera. Como se a decadência estivesse ligada a esse esforço de fixação de um estilo, um esforço de identidade. Ainda que permaneça cult underground, como na marchinha, ele já visualiza em 2020 a sua transformação para hit nacional. Na Fruteira, sua ansiedade é finalmente estancada. Se chá e cachaça, ou, serenidade e histeria, perpassam a “Casa de Mamãe”, não haverá melhor retrato de uma obra que primou pela diferença e pela identidade. E se minha abordagem optou acompanhá-lo desde os primeiros passos, tentando flagrar mutações e desvios, sobretudo suas imitações, foi sempre no sentido de tomar partido pela Diferença. A herança cultural lhe permitiu se perder, fugir de si e enraivecer os fãs. Poucos compositores foram capazes de ir tão longe. Mas seu último gesto sintetiza tudo: Na Fruteira contem todos os frutos e permite, finalmente, que ouçamos Os Mutantes e encontremos Júpiter. Essa situação absurda, que levou Borges a pensar os poetas fortes como criadores de seus próprios precursores – Kafka criou Browning – é “o triunfo de havermos colocado de tal modo o precursor em nossa própria obra, que determinados trechos da obra do precursor parecem ser não presságios de nosso advento, mas antes devedores de nossa realização e até mesmo diminuídos por nosso maior esplendor” (Harold Bloom – “A Angústia da Influência”).
Ainda assim, não acredito que “Na Fruteira” seja o último gesto, até porque seu húmus criativo vem da mímesis. Já ouvi murmúrios sobre “Apple Sound” e “slogan-art” – repetição do slogan poético e do som organo looped. Ou seja, novas paixões que o levariam a “errar” mais.
A grandeza da Fruteira é seu grande fracasso. Mas, sem ela, não poderíamos entender o dualismo: sem ela, não ficaria o registro de um eu eternamente errante.
É sobre esse aspecto que coloco em questão algumas observações de Jorge Cardoso Filho, e, Pedro Silva Marrano no texto “Do Underground para o Mainstream sem perder a Categoria: análise da trajetória de um músico gaúcho”. Em primeiro lugar porque as categorias referidas, “underground” e “mainstream”, no atual estágio da música planetária, com o colapso de vendas da grande indústria e as novas relações entre público e artista, via internet, vêm sofrendo profundas transformações. O mundo deixou de ser underground. E a tendência, ao que tudo indica, também não é o mainstream. Daí porque traduzo como o alvo principal de uma proposta poética, a conquista de sua autonomia. O poeta forte, segundo Harold Bloom, é aquele que atinge sua singularidade. Deveríamos então traduzir “mainstream”, na frase enigmática de Júpiter - “passar para o mainstream sem perder a categoria” - como o reconhecimento de uma voz própria, finalmente conquistada, o que para Júpiter passa por uma abrangência e complexidade, longe do segmentarismo. Diante de um público médio que cada vez mais tem acesso à informação em razão da internet, o mainstream é o múltiplo e o complexo.
CURITIBA
CURITIBA
Curitiba tá um calor da porra !!!
A semana que antecede o show do próximo sábado tá sendo super proveitosa.
Carlos, o cara que tá produzindo o meu show aqui em Curitiba, tá sendo 10 na divulgação. Foi pra mim uma grata surpresa.
Tenho feito várias rádios locais e na sexta feira vou ler uns poemas na rádio Kaos.
Estou hospedado bem no centro da cidade, ou seja, de noite é muitos travestis, lésbicas, putas e strepteases. Tem também gente fumando pedra pelas ruas. A pedra vai acabar com o mundo.
As flores de Curitiba, o bondinho turístico, a cidade histórica, as loiras e as morenas misturadas pelas ruas... Curitiba é tudo isso e não é nada disso.
E de noite uma nova batalha.
Estamos ganhando todas.
Esse ano, contra todas as previsões, vai ser o ano do FLU.
Vários comentaristas previram a queda do FLU.
Nelson Rodrigues deve estar rindo deles.
Curitiba tá um calor da porra !!!
A semana que antecede o show do próximo sábado tá sendo super proveitosa.
Carlos, o cara que tá produzindo o meu show aqui em Curitiba, tá sendo 10 na divulgação. Foi pra mim uma grata surpresa.
Tenho feito várias rádios locais e na sexta feira vou ler uns poemas na rádio Kaos.
Estou hospedado bem no centro da cidade, ou seja, de noite é muitos travestis, lésbicas, putas e strepteases. Tem também gente fumando pedra pelas ruas. A pedra vai acabar com o mundo.
As flores de Curitiba, o bondinho turístico, a cidade histórica, as loiras e as morenas misturadas pelas ruas... Curitiba é tudo isso e não é nada disso.
E de noite uma nova batalha.
Estamos ganhando todas.
Esse ano, contra todas as previsões, vai ser o ano do FLU.
Vários comentaristas previram a queda do FLU.
Nelson Rodrigues deve estar rindo deles.
sábado, 4 de junho de 2011
NELSON RODRIGUES
NELSON RODRIGUES
Com Nelson Rodrigues, o taradinho nasce.
Mas é um começo insípido, cercado de resistências por todos os lados. Estamos na década de 50, período em que Grande Sertão Veredas veio a lume. Mas essa é uma outra estória. O taradinho pertence à outra casta, seu habitat não é o laboratório. Na verdade, o taradinho pode estar ao seu lado, no ponto de ônibus, no supermercado. Ele é gente como a gente.
E Nelson percebeu isso. E todo mundo leu Nelson na Última Hora – foi lá que “A Vida como ela É” se desenvolveu, paulatinamente, como um folhetim. Só que cada conto tinha começo, meio e fim. E, a cada semana, o interesse do leitor era o mesmo. Não importa que a estrutura dos contos fosse a mesma, as suas dimensões idênticas, os temas iguais. Lia-se porque no final sempre havia uma surpresa. Se uma estória parecia repetir outra, eis que nos deparávamos com alguma variação. “A Vida como ela É” parece mesmo movida a pequenas variações dentro de um eixo invariável. E essa dupla marca, o mesmo e o diferente, o idêntico e o variável, expressa o jogo de opostos em que se assenta esses textos de Nelson. A tragédia em Nelson é sinônimo de um jogo de forças opostas que, não raramente, chega às raias do suicídio. A vingança está sempre presente. Não há solução nem síntese. O que predomina sempre é a reação, o contragolpe, ao final da estória. O escândalo causado por “Vestido de Noiva”, quando encenada pela primeira vez, faz parte dessa lógica. Até chegarmos a Marcelo Mirisola, uma longa história será trilhada. Em Marcelo Mirisola, o taradinho está finalmente consolidado, adquiriu maioridade. Mas em Nelson estão os seus primórdios. A tragédia o anuncia.
Dois textos me lembram sintomas desse novo personagem que vem à tona sob intensa resistência: “Túmulo sem Nome”, e, “O Vadio”. Não será de estranhar que o personagem dos referidos textos sofra intensa artilharia. Porque o que estão em jogo são valores antigos, tais como o casamento e a fidelidade. A questão em Nelson será liquidar o senso comum e a hipocrisia – a falsa aparência, contra a qual, vai usar toda sua verve. Pior que a ausência de valores, cujo maior exemplo é o taradinho, vai ser a falsa aparência. Nada pior do que esta.
Mas a este embate, sucederá um outro mais profundo e de vida ou morte. Será entre o taradinho e o velho mundo. Desse duelo implacável, Nelson nos dá belas marcas de sangue.
Em “Túmulo sem Nome”, Jubileu propõe um plano indecoroso: que sua noiva faça sexo com um amigo rico, antes do casamento; uma aventura que teria preço e lhes renderia bons dividendos – cem mil cruzeiros, o suficiente para tirarem o pé da lama e finalmente se casarem. Mas antes da resposta de Norma, existe um interregno. É o espaço silencioso do confrontamento, inenarrável, condição do universo de Nelson. Após o qual, Jubileu é escorraçado. O suicídio de Norma é decorrente de uma luta sem solução e nada expressa melhor o impasse de um conflito.
Em “O Vadio”, Euzébio Magalhães espera, impávido, a morte da mãe. Enquanto esta inventa a estória da lesão no coração, esperando que com isso o filho tomasse emenda, o efeito é oposto: ele aguarda a morte da mãe para pôr a mão na herança da velha. Quando essa situação é descoberta por Crisálida, sua noiva, diante do médico, que lhe confirma a boa saúde da velha, se sente num beco sem saída e morre atropelada. Mas é bom não esquecermos que, antes da situação esclarecida, Crisálida entra no jogo e aguarda com o noivo a morte de Dona Laura.
Em ambos os casos, um impasse sem solução. O desejo de constituir uma família, ao lado de quem tanto ama, é barrado por esse novo personagem, o taradinho. Em ambos os casos, a morte do velho mundo.
Mas vem a reação. E ela é sobretudo do velho mundo, quando Nelson Rodrigues é mais Nelson Rodrigues. São os momentos mais imprevisíveis, cheios de curvas, impasses, frutos de um conflito pavoroso, quando somos pegos no contrapé e o mundo dos valores morais são reafirmados. E eles o serão contra a hipocrisia moderna e o niilismo cético do taradinho. Porque nunca podemos perder de vista que aqui o universo é triádico: além dos amantes, tem o amigo que é o demônio, pela boca de quem são feitas confissões reveladoras, quando não, incentivos e sugestões. As partes do texto também são em três: a revelação, a prova e a reação. Nunca o início, meio e fim foram tão importantes. E essa estrutura dá ao narrador a onisciência que lhe permite, com suficiente distância da trama, manipular o sentido geral. Tão diferente de Mirisola, cujo narrador não sabe de nada e se deixa aprisionar na trama. Em Mirisola, existe uma clara opção: se deixar levar pela imagem, o jogo paradoxal delas, e se esquecer de si mesmo, ainda que haja controle, diferentemente de uma escrita automática.
Mas a reação em Nelson sempre vem, seja na forma de castigo, vingança, suicídio, ou qual forma que se revista. A resposta é certa, após a qual, o texto termina e o sentido geral é manifesto. Se em Mirisola não existe fim, em Nelson Rodrigues, muito pelo contrário, ele é fundamental.
Em “Flor de Laranjeira”, Carmelita, por mais que educada dentro da tradição católica do horror ao homem casado, mostra-se um protótipo do taradinho. Geme alto em seu primeiro beijo e se deixa levar pela paixão. Cabeleira, por sua vez, é um personagem complexo: tem escrúpulos morais, mas é produto do meio hipócrita. Ainda que inicialmente tivesse falado a verdade sobre seu estado civil, suspeitamos que mente. Após o beijo no cinema, algo lhe perturba em Carmelita – os seus gemidos altos, a sua entrega. Enjoa e quer chutá-la. E resolve mentir a Carmelita sobre seu estado civil, dizendo-lhe que é casado. A pronta decepção da menina é todavia relegada a segundo plano: no dia seguinte, vai ao escritório de Cabeleira e lhe diz que o aceita mesmo casado, com filhos ou sem filhos – “contigo, vou ao fim do mundo”. Diante dessa postura surpreendente, que enfia no saco as convenções sociais, o complexo Cabeleira se deixa penetrar mais pelas convenções: encontra o amigo Carvalhinho, que lhe oferece sua garçoniere, hábito entre os homens da época. E mergulhado até o pescoço a esse modus-vivendi, Cabeleira convida Crisálida a passar algumas horas no local. Mas como um ser atormentado, faz a ressalva de que é um “homem casado” (a entrega da pequena, os seus gemidos, o primeiro namoro – tudo isso lhe causava escrúpulos). Mas Carmelita não reproduzia as convenções sociais. Ela ta decidida a ir e se sente feliz.
No final, ele a segura nos braços, sentimental como diabo, informa que é solteiro, e diz as últimas frases do texto:
- Tu vais sair daqui, agorinha mesmo, já. Nem te beijo. Faço questão de me casar contigo, de véu, grinalda e outros bichos.
Essa fala carrega uma carga de duplicidade que, afinal, aponta um lado. Não é a duplicidade de quem oscila eternamente como no caso de Mirisola. É a duplicidade de quem, afinal, escolhe um lado, de quem confere uma resposta, depois da qual nada mais há a dizer.
Se o amigo que lhe empresta a garçoniere faz parte das convenções da época e de sua hipocrisia, nem Cabeleira nem Carmelita aderem a elas. Carmelita vai contra as convenções, aceitando aquele homem, mesmo casado; Cabeleira vai contra, não efetuando o ato. Mas escorraçando a parceira, ele apenas impediria que ela se entregasse (com outras, ele continuaria os encontros fortuitos). Antes que a última frase de sua fala final se constitua, chegamos a pensar em outros contos onde o mesmo fim se repete. Ele escorraça a parceira, defendendo uma convenção e indo contra o desejo taradinho. Mas ao completar sua última frase – “Faço questão de me casar contigo, de véu, grinalda e outros bichos”, ele não só nega o taradinho, quanto a convenção. Como se para chegar a um valor realmente moral, fosse preciso dramatizar todo esse percurso, indicando as mudanças, o embate de forças, não apenas no processo da estória, mas na última fala, quando o texto finalmente se conclui.
A literatura taradinha e a literatura experimentalista, por mais que se diferenciem e representem ramos diferentes do fazer literário, tem ao menos algo em comum: o repúdio às convenções, expondo á superfície o que a escola do realismo ingênuo tanto se esforçou em esconder. Contra esse naturalismo, o século XX nos terá sido marcante.
Mostrar o que foge do fundo psicológico e o processo do artifício, serão as estratégias postas em prática respectivamente por esses dois ramos da literatura no século passado.
Mas ao propormos uma história da literatura taradinha, estamos também focando um embate de forças em seu interior. E ninguém como Nelson terá dramatizado melhor esse embate.
Com Nelson Rodrigues, o taradinho nasce.
Mas é um começo insípido, cercado de resistências por todos os lados. Estamos na década de 50, período em que Grande Sertão Veredas veio a lume. Mas essa é uma outra estória. O taradinho pertence à outra casta, seu habitat não é o laboratório. Na verdade, o taradinho pode estar ao seu lado, no ponto de ônibus, no supermercado. Ele é gente como a gente.
E Nelson percebeu isso. E todo mundo leu Nelson na Última Hora – foi lá que “A Vida como ela É” se desenvolveu, paulatinamente, como um folhetim. Só que cada conto tinha começo, meio e fim. E, a cada semana, o interesse do leitor era o mesmo. Não importa que a estrutura dos contos fosse a mesma, as suas dimensões idênticas, os temas iguais. Lia-se porque no final sempre havia uma surpresa. Se uma estória parecia repetir outra, eis que nos deparávamos com alguma variação. “A Vida como ela É” parece mesmo movida a pequenas variações dentro de um eixo invariável. E essa dupla marca, o mesmo e o diferente, o idêntico e o variável, expressa o jogo de opostos em que se assenta esses textos de Nelson. A tragédia em Nelson é sinônimo de um jogo de forças opostas que, não raramente, chega às raias do suicídio. A vingança está sempre presente. Não há solução nem síntese. O que predomina sempre é a reação, o contragolpe, ao final da estória. O escândalo causado por “Vestido de Noiva”, quando encenada pela primeira vez, faz parte dessa lógica. Até chegarmos a Marcelo Mirisola, uma longa história será trilhada. Em Marcelo Mirisola, o taradinho está finalmente consolidado, adquiriu maioridade. Mas em Nelson estão os seus primórdios. A tragédia o anuncia.
Dois textos me lembram sintomas desse novo personagem que vem à tona sob intensa resistência: “Túmulo sem Nome”, e, “O Vadio”. Não será de estranhar que o personagem dos referidos textos sofra intensa artilharia. Porque o que estão em jogo são valores antigos, tais como o casamento e a fidelidade. A questão em Nelson será liquidar o senso comum e a hipocrisia – a falsa aparência, contra a qual, vai usar toda sua verve. Pior que a ausência de valores, cujo maior exemplo é o taradinho, vai ser a falsa aparência. Nada pior do que esta.
Mas a este embate, sucederá um outro mais profundo e de vida ou morte. Será entre o taradinho e o velho mundo. Desse duelo implacável, Nelson nos dá belas marcas de sangue.
Em “Túmulo sem Nome”, Jubileu propõe um plano indecoroso: que sua noiva faça sexo com um amigo rico, antes do casamento; uma aventura que teria preço e lhes renderia bons dividendos – cem mil cruzeiros, o suficiente para tirarem o pé da lama e finalmente se casarem. Mas antes da resposta de Norma, existe um interregno. É o espaço silencioso do confrontamento, inenarrável, condição do universo de Nelson. Após o qual, Jubileu é escorraçado. O suicídio de Norma é decorrente de uma luta sem solução e nada expressa melhor o impasse de um conflito.
Em “O Vadio”, Euzébio Magalhães espera, impávido, a morte da mãe. Enquanto esta inventa a estória da lesão no coração, esperando que com isso o filho tomasse emenda, o efeito é oposto: ele aguarda a morte da mãe para pôr a mão na herança da velha. Quando essa situação é descoberta por Crisálida, sua noiva, diante do médico, que lhe confirma a boa saúde da velha, se sente num beco sem saída e morre atropelada. Mas é bom não esquecermos que, antes da situação esclarecida, Crisálida entra no jogo e aguarda com o noivo a morte de Dona Laura.
Em ambos os casos, um impasse sem solução. O desejo de constituir uma família, ao lado de quem tanto ama, é barrado por esse novo personagem, o taradinho. Em ambos os casos, a morte do velho mundo.
Mas vem a reação. E ela é sobretudo do velho mundo, quando Nelson Rodrigues é mais Nelson Rodrigues. São os momentos mais imprevisíveis, cheios de curvas, impasses, frutos de um conflito pavoroso, quando somos pegos no contrapé e o mundo dos valores morais são reafirmados. E eles o serão contra a hipocrisia moderna e o niilismo cético do taradinho. Porque nunca podemos perder de vista que aqui o universo é triádico: além dos amantes, tem o amigo que é o demônio, pela boca de quem são feitas confissões reveladoras, quando não, incentivos e sugestões. As partes do texto também são em três: a revelação, a prova e a reação. Nunca o início, meio e fim foram tão importantes. E essa estrutura dá ao narrador a onisciência que lhe permite, com suficiente distância da trama, manipular o sentido geral. Tão diferente de Mirisola, cujo narrador não sabe de nada e se deixa aprisionar na trama. Em Mirisola, existe uma clara opção: se deixar levar pela imagem, o jogo paradoxal delas, e se esquecer de si mesmo, ainda que haja controle, diferentemente de uma escrita automática.
Mas a reação em Nelson sempre vem, seja na forma de castigo, vingança, suicídio, ou qual forma que se revista. A resposta é certa, após a qual, o texto termina e o sentido geral é manifesto. Se em Mirisola não existe fim, em Nelson Rodrigues, muito pelo contrário, ele é fundamental.
Em “Flor de Laranjeira”, Carmelita, por mais que educada dentro da tradição católica do horror ao homem casado, mostra-se um protótipo do taradinho. Geme alto em seu primeiro beijo e se deixa levar pela paixão. Cabeleira, por sua vez, é um personagem complexo: tem escrúpulos morais, mas é produto do meio hipócrita. Ainda que inicialmente tivesse falado a verdade sobre seu estado civil, suspeitamos que mente. Após o beijo no cinema, algo lhe perturba em Carmelita – os seus gemidos altos, a sua entrega. Enjoa e quer chutá-la. E resolve mentir a Carmelita sobre seu estado civil, dizendo-lhe que é casado. A pronta decepção da menina é todavia relegada a segundo plano: no dia seguinte, vai ao escritório de Cabeleira e lhe diz que o aceita mesmo casado, com filhos ou sem filhos – “contigo, vou ao fim do mundo”. Diante dessa postura surpreendente, que enfia no saco as convenções sociais, o complexo Cabeleira se deixa penetrar mais pelas convenções: encontra o amigo Carvalhinho, que lhe oferece sua garçoniere, hábito entre os homens da época. E mergulhado até o pescoço a esse modus-vivendi, Cabeleira convida Crisálida a passar algumas horas no local. Mas como um ser atormentado, faz a ressalva de que é um “homem casado” (a entrega da pequena, os seus gemidos, o primeiro namoro – tudo isso lhe causava escrúpulos). Mas Carmelita não reproduzia as convenções sociais. Ela ta decidida a ir e se sente feliz.
No final, ele a segura nos braços, sentimental como diabo, informa que é solteiro, e diz as últimas frases do texto:
- Tu vais sair daqui, agorinha mesmo, já. Nem te beijo. Faço questão de me casar contigo, de véu, grinalda e outros bichos.
Essa fala carrega uma carga de duplicidade que, afinal, aponta um lado. Não é a duplicidade de quem oscila eternamente como no caso de Mirisola. É a duplicidade de quem, afinal, escolhe um lado, de quem confere uma resposta, depois da qual nada mais há a dizer.
Se o amigo que lhe empresta a garçoniere faz parte das convenções da época e de sua hipocrisia, nem Cabeleira nem Carmelita aderem a elas. Carmelita vai contra as convenções, aceitando aquele homem, mesmo casado; Cabeleira vai contra, não efetuando o ato. Mas escorraçando a parceira, ele apenas impediria que ela se entregasse (com outras, ele continuaria os encontros fortuitos). Antes que a última frase de sua fala final se constitua, chegamos a pensar em outros contos onde o mesmo fim se repete. Ele escorraça a parceira, defendendo uma convenção e indo contra o desejo taradinho. Mas ao completar sua última frase – “Faço questão de me casar contigo, de véu, grinalda e outros bichos”, ele não só nega o taradinho, quanto a convenção. Como se para chegar a um valor realmente moral, fosse preciso dramatizar todo esse percurso, indicando as mudanças, o embate de forças, não apenas no processo da estória, mas na última fala, quando o texto finalmente se conclui.
A literatura taradinha e a literatura experimentalista, por mais que se diferenciem e representem ramos diferentes do fazer literário, tem ao menos algo em comum: o repúdio às convenções, expondo á superfície o que a escola do realismo ingênuo tanto se esforçou em esconder. Contra esse naturalismo, o século XX nos terá sido marcante.
Mostrar o que foge do fundo psicológico e o processo do artifício, serão as estratégias postas em prática respectivamente por esses dois ramos da literatura no século passado.
Mas ao propormos uma história da literatura taradinha, estamos também focando um embate de forças em seu interior. E ninguém como Nelson terá dramatizado melhor esse embate.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
BOFINHO
BOFINHO
Eu quero uma bofinho
cuja dubiedade provoque pânico
e vista de longe pareça homem.
Uma bofinho que me traia
e me roube de vez em quando.
Pra quem lave, passe e cozinhe.
E, além disso, me coma.
Uma bofinho a quem pertença
e cuja recíproca não seja verdadeira.
Que me manipule
por trás e pela frente.
Uma bofinho que use cuequinha.
Se as femininas dão nojo
e as delicadas, raiva,
eu quero uma bofinho
fria, canalha.
Que não derrame lágrimas
e não sinta piedade.
Uma bofinho a quem entregue tudo
e não receba nada.
Eu quero uma bofinho
cuja dubiedade provoque pânico
e vista de longe pareça homem.
Uma bofinho que me traia
e me roube de vez em quando.
Pra quem lave, passe e cozinhe.
E, além disso, me coma.
Uma bofinho a quem pertença
e cuja recíproca não seja verdadeira.
Que me manipule
por trás e pela frente.
Uma bofinho que use cuequinha.
Se as femininas dão nojo
e as delicadas, raiva,
eu quero uma bofinho
fria, canalha.
Que não derrame lágrimas
e não sinta piedade.
Uma bofinho a quem entregue tudo
e não receba nada.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
MÚSICA INDEPENDENTE
Se fizéssemos um balanço do que aconteceu em 2009, eu não teria aqui espaço suficiente. Tenho dito em algumas entrevistas que foi um ano atípico pra mim em função de três lançamentos: SKYLAB IX (meu primeiro dvd), SKYGIRLS e o ROGERIO SKYLAB & ORQUESTRA ZEFELIPE . Isso nunca havia acontecido em meus quase 20 anos de carreira.
Uma outra coisa que me marcou definitivamente foi ter entrado em contato com o GOMA de Uberlândia e consequentemente o Movimento Fora do Eixo. Acho mesmo que pra música independente, esse movimento foi a coisa mais importante que aconteceu. E a tendência é crescer cada vez mais, articulando-se com os pontos mais distantes do país. Sugiro a entrevista que fiz com a galera do GOMA e que está transposta aqui no blog. http://godardcity.blogspot.com/2009/06/circuito-fora-do-eixo-goma.html#links
Porcas e Borboletas, por exemplo, é uma banda que vem de Uberlândia, afinada a esse movimento, e lançou disco recente com participação de Arrigo Barnabé entre outros convidados. Não preciso dizer mais nada. Outra banda que nasceu das entranhas do Fora do Eixo é o Macaco Bong.
Se fosse só isso a música independente, estaríamos ao menos bem encaminhados. Mas não é.
Conversando com um “intuitivo genial”, esse também independente até a alma, ele me apresentava um estranho argumento justificando sua alergia pela visibilidade. Confesso que até hoje não entendi nada. Mas suspeito que é um raciocínio às avessas para justificar a ausência de reconhecimento por parte do público. Tirando meia dúzia de aficcionados por seu trabalho, o “intuitivo genial” permanece entocado em sua caverna. É um revoltado, como ele mesmo me diz. Se pudesse explodir o Cristo Redentor, ele o explodiria, penso eu. Mas algo me diz também que o “intuitivo genial” espera mesmo é pelo reconhecimento que nunca vem. Daí produz raciocínios mirabolantes e insiste que foge das luzes.
Um raciocínio inverso produz outro representante da música independente. Segundo este, é tanta luz que o banha, que chega a se sentir no cenário internacional. Para tanto, não faz mal que viaje para a Europa tendo que custear a própria passagem e a estadia. O que importa para esse representante da música independente e “planetária” é fazer muitos shows e dar a esse fato máxima divulgação. A questão é que se a Maria Bethânia faz show em Portugal, ela de fato está abrindo mercado e isso lhe dá um imenso retorno. Já o nosso “independente delirante”, faz show na Alemanha pra meia dúzia de malucos e alardeia aos quatro cantos da mídia a sua fenomenal viagem. Não abre mercado nenhum. Mas chego a desconfiar que o nosso delirante acredita na própria mentira, o que já é um caso de psiquiatria.
O desafio da música independente é se fazer bem distribuída. Como tocar na rádio sem jabá? Como quebrar o monopólio das grandes gravadoras que ainda mantém seu predomínio na mídia?
A não ser que você faça música pra ninguém, isto é, pra permanecer nas sombras.
Como eu acho que o sentido da arte é o outro, o que é muito diferente de fazer algo para agradar, penso sempre em como fazer a minha música chegar às pessoas. E essa me parece ser a maior questão da música independente. A Música Livre, através da internet, tenta solucionar essa questão – ela sabe que mais importante do que um retorno financeiro imediato é a divulgação do trabalho.
Daí porque acho que o Movimento Fora do Eixo é quem enfrenta melhor esse problemática. Sem delírio e sem falsas argumentações.
Uma outra coisa que me marcou definitivamente foi ter entrado em contato com o GOMA de Uberlândia e consequentemente o Movimento Fora do Eixo. Acho mesmo que pra música independente, esse movimento foi a coisa mais importante que aconteceu. E a tendência é crescer cada vez mais, articulando-se com os pontos mais distantes do país. Sugiro a entrevista que fiz com a galera do GOMA e que está transposta aqui no blog. http://godardcity.blogspot.com/2009/06/circuito-fora-do-eixo-goma.html#links
Porcas e Borboletas, por exemplo, é uma banda que vem de Uberlândia, afinada a esse movimento, e lançou disco recente com participação de Arrigo Barnabé entre outros convidados. Não preciso dizer mais nada. Outra banda que nasceu das entranhas do Fora do Eixo é o Macaco Bong.
Se fosse só isso a música independente, estaríamos ao menos bem encaminhados. Mas não é.
Conversando com um “intuitivo genial”, esse também independente até a alma, ele me apresentava um estranho argumento justificando sua alergia pela visibilidade. Confesso que até hoje não entendi nada. Mas suspeito que é um raciocínio às avessas para justificar a ausência de reconhecimento por parte do público. Tirando meia dúzia de aficcionados por seu trabalho, o “intuitivo genial” permanece entocado em sua caverna. É um revoltado, como ele mesmo me diz. Se pudesse explodir o Cristo Redentor, ele o explodiria, penso eu. Mas algo me diz também que o “intuitivo genial” espera mesmo é pelo reconhecimento que nunca vem. Daí produz raciocínios mirabolantes e insiste que foge das luzes.
Um raciocínio inverso produz outro representante da música independente. Segundo este, é tanta luz que o banha, que chega a se sentir no cenário internacional. Para tanto, não faz mal que viaje para a Europa tendo que custear a própria passagem e a estadia. O que importa para esse representante da música independente e “planetária” é fazer muitos shows e dar a esse fato máxima divulgação. A questão é que se a Maria Bethânia faz show em Portugal, ela de fato está abrindo mercado e isso lhe dá um imenso retorno. Já o nosso “independente delirante”, faz show na Alemanha pra meia dúzia de malucos e alardeia aos quatro cantos da mídia a sua fenomenal viagem. Não abre mercado nenhum. Mas chego a desconfiar que o nosso delirante acredita na própria mentira, o que já é um caso de psiquiatria.
O desafio da música independente é se fazer bem distribuída. Como tocar na rádio sem jabá? Como quebrar o monopólio das grandes gravadoras que ainda mantém seu predomínio na mídia?
A não ser que você faça música pra ninguém, isto é, pra permanecer nas sombras.
Como eu acho que o sentido da arte é o outro, o que é muito diferente de fazer algo para agradar, penso sempre em como fazer a minha música chegar às pessoas. E essa me parece ser a maior questão da música independente. A Música Livre, através da internet, tenta solucionar essa questão – ela sabe que mais importante do que um retorno financeiro imediato é a divulgação do trabalho.
Daí porque acho que o Movimento Fora do Eixo é quem enfrenta melhor esse problemática. Sem delírio e sem falsas argumentações.
HERDEIROS
HERDEIROS
Voltava de Minas pela Rio-Bahia e escutava a MPB FM.
De repente tocou Tim Maia (Azul da Cor do Mar).
E logo em seguida, parecia de propósito, Ed Motta (Fora da Lei).
Então, nunca como antes, percebi o quanto o tio era infinitamente melhor.
E me vi fazendo uma pergunta terrível:
- quando é que os filhos e sobrinhos irão superar os pais e os tios?
Melhor é não ser herdeiro.
Voltava de Minas pela Rio-Bahia e escutava a MPB FM.
De repente tocou Tim Maia (Azul da Cor do Mar).
E logo em seguida, parecia de propósito, Ed Motta (Fora da Lei).
Então, nunca como antes, percebi o quanto o tio era infinitamente melhor.
E me vi fazendo uma pergunta terrível:
- quando é que os filhos e sobrinhos irão superar os pais e os tios?
Melhor é não ser herdeiro.
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