sábado, 30 de julho de 2011

BIENAL DE SÃO PAULO

BIENAL DE SÃO PAULO


Nesse último domingo fui a 29. bienal de artes de São Paulo. Fui temeroso porque a anterior havia sido um fiasco. E não me arrependi.
Os urubus do Nuno Ramos já não estavam mais lá. Ao menos podíamos vislumbrar o coco deles, uma prova inequívoca das aves. O cenário é grandioso e a música que vinha da instalação se imiscuía pelas demais obras. Tínhamos que aturar Arnaldo Antunes cantando Bandeira Branca, o que depois de um certo tempo é uma tortura. Mas ainda assim, tem seu saldo positivo: uma obra se interage com a outra.

Essa estória de percorrer bienal com mapa na mão, não é a minha. Fica parecendo que você está no meio de uma aula. É o mesmo que percorrer Roma com mapa na mão. Quero poder me distrair, errar pelo caminho, ir meio que ao acaso. Não quero ser mais um neurótico que perde o prazer de ver, como esses japoneses com máquina fotográfica. E como tiram fotos na bienal! Os festivais de cinema são outra ocasião pra reunir neuróticos. Daí porque também raramente frequento festivais de cinema. O problema é que você acaba não vendo tudo. Mas tem que ver tudo? Nessa bienal, perdi Godard e Beckett, confesso.

Mas vi os slides de Nan Goldin. A “Balada da Dependência Sexual” já me teria bastado. É impactante, humano sem ser humanista, e americano até debaixo dágua.

Fujo de documentários políticos. Fujo de antropologia como o diabo da cruz. O que me importa saber do “Cacique de Ramos” via Carlos Vergara? Por outro lado, a experiência de Daniel Senise em “O Sol me Ensinou que a História não é tudo” me dá sempre a sensação de que é muito conceito e pouco resultado. Comparado a esses, Nelson Leirner salta aos olhos não só pelo que fez como pelo que continua a fazer: O Grupo Rex de “Adoração – altar a Roberto Carlos”, e, “Pacavoa” são exemplos de uma trajetória cuja inquietação é constante, independente do tempo.

Ainda que o tema da política estivesse arquipresente nessa bienal, diversos foram os tratamentos dados a ela. Em Alfredo Jaar, o massacre de Ruanda é visto através dos olhos de uma sobrevivente (uma montanha de filmes de slides com os olhos da sobrevivente). A esse tratamento direto, quase jornalístico, pouco complexo e com teor de denúncia, se contrapõe “A Origem do Terceiro Mundo” de Henrique Oliveira, que faz referência a “Origem do Mundo” de Gustav Coubert – portanto, político e, ao mesmo tempo, remetendo-se à História da Arte com uma espécie de perversão, que faz dele um dos trabalhos mais interessantes da Bienal - penetrar em seu interior esculpido com material de tapume de obra é uma experiência sensorial que nos faz lembrar as favelas e a periferia.

Gil Vicente na série “Inimigos” não faz denúncia: é performático, sintético e ao mesmo tempo imaginativo. Não existe discurso, apenas assassinato - uma outra forma de abordar o político. Sua outra série, “Suíte Safada”, é pornográfica e mostra desenhos que serviram de ilustração para alguns livros.

As trouxas ensangüentadas de Artur Barrio e suas performances mostram o político como vivencial, afetando seu próprio corpo. Suas "situações" são marcas de um trabalho pujante, tanto quanto o foi Helio Oiticica.

Em “O q rola VCV” de Ronald Duarte, a problemática é social mas a performance com o caminhão pipa jorrando água vermelha pelas ruas de Santa Teresa, é originalíssima, mais uma vez atestando o fato de que a fonte do problema é apenas o ponto de partida.

“Divisor” de Lygia Pape, de 1968, mostra a idéia de coletivo: as cabeças visíveis mas o restante do corpo como se fossem vários e um só. Essa forma de política, coletiva, sensorial, e que passa por uma decisão negociada do conjunto dos corpos, mostra o quanto estamos longe do jornalístico e do documentário.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

POR UMA LITERATURA

POR UMA LITERATURA


No conto “Taradinho Parte Dois” de Marcelo Mirisola, em seu livro “Fátima fez os pés para mostrar na choperia”, primeiro livro de sua ficção decadentista,do ano de 1998, existe uma tentativa de definição da prática tarada. Definição indefinida. Monólogo longe do fluxo de consciência porque aqui o que se pratica é, sobretudo, o controle, a usurpação das imagens. Mas um controle que pretende proceder à dispensa da unidade: controlar para não permitir que se caia nas malhas da identidade.

Ainda que algumas fontes de referência sejam citadas, como é o caso de Henry Miller e Walt Whitman, nem com esses a prosa de Mirisola se identifica, porque lhes faltariam o estilo forjado que sobra nele. É como se caíssemos num jogo de ilusão a que o autor nos leva. Porra louquice extremamente racional, ainda assim poderíamos cair na tentação de aproximá-lo à literatura beat. E nada mais distante.

2- Daí porque nem ideologia, nem o si-mesmo, os textos constróem um espaço próprio à experiência tarada: tirando proveito de si-mesmo, das experiências sacanas e egoístas, mas também tirando proveito dos esquemas significativos e ideológicos. Tirar proveito não significa ser. É uma experiência pragmática que o leva, não a entrar em choque e nem a se identificar, mas a um termo continuamente renovado para futuros golpes. Rivalizando em importância com “Taradinho Parte Dois”, “Quem é Wadih Jorge Wadih?” vai nos dar uma cartografia desse estranho eu, enquanto o primeiro tenta alinhavar a experiência tarada.

3- Nem tesão, nem gozo. Se nos esquemas ideológicos, onde se situam o marketing e os profissionais de toda ordem, existe gozo sem tesão, no si-mesmo prepondera a tesão sem gozo, o trepar e o bulinar em pensamento. A experiência do taradinho no espaço intermediário do supermercado, não é tesão nem gozo, e isso terá conseqüências na linguagem, agora não mais linear, como o era em Nelson e Dalton Trevisan, mas amarrada, gaga. A linguagem de um taradinho no supermercado é banal, mas carregada de intensidade. Se compararmos o texto de Mirisola com o “Catatau” de Paulo Leminski, ambos radicais, vamos vislumbrar tamanhas diferenças, como se pisássemos diferentes continentes. No “Catatau”, a experiência da linguagem chega ao ponto do neologismo; estamos no plano do significante, tontos diante da diabrura da linguagem, quase sem alma, na superfície. Em Mirisola, ao contrário, afirma-se a banalidade, a linguagem comum. Estamos diante de um texto que flui como na linguagem comum. A questão é a intensidade que pulsa nas frases: é o taradinho pedindo coca-cola, ou perguntando as horas, ou tomando no gargalo. Esse deslocamento, esse novo espaço do supermercado, funciona como uma substituição: são os sintomas que são importantes. Daí porque nem mais tesão, nem mais gozo. A diferença entre a linguagem comum, repleta de intensidade na sua prática cotidiana, e o texto de Mirisola, é que neste último não há nada inconsciente. Ele encena, através do excesso, o sintoma. Busca o paradoxo e o expõe à superfície do texto, quando só a custa de muita teoria poderíamos atingi-lo ou explicá-lo. Em “Parque Sideral”, ele afirma: “antes da praia é bom saber que um bocado de coisas estão acontecendo por lá... Chamam de inconsciente”.

4- O plano de fuga, que tem a ver com travessia, deslocamento, à contragosto, e fluidez, significa fuga de si e dos outros. É o contrário de não saber, é antes de tudo não pertencer. É quando, na travessia do ônibus, entre o supermercado e a praia, o taradinho não pode mais contar consigo mesmo.
Daí a idéia de movimento que a ficção de Mirisola nos remete, sem chegar a lugar algum. A eloqüência e a retórica do seu texto são o que melhor expressam esse processo contínuo de deslocamento, nomadismo, de idas e vindas sem fim. Às vezes, períodos longos, outras vezes, curtos como unha necrosada. Mas antes de tudo, retórica. Daí porque, resguardadas as devidas diferenças, poderíamos filiá-lo à tradição da literatura taradinha a que faz parte Nelson Rodrigues e que nos remete a Dalton Trevisan – Mirisola é o ápice dessa tradição, seu ponto limite, quando a linguagem se descola e se basta. Em “Mas um cara doce como eu?”, ele diz: “ é por causa da minha eloqüência. De vez em quando até eu me acho eloqüente e tarado. Um pouco mais eloqüente do que tarado”. A condição, pois, do taradinho é a eloquência, ou, em outras palavras, ser taradinho é uma questão de linguagem.

5- Mas quem é esse estranho “eu” que habita sua ficção? Desde o primeiro texto “Quem disse que resisti trinta anos?”, passando por “Carta de Amor” – “quem disse que não? Quem disse que não nos amamos?” – o “quem disse” é recorrente. Porque através dele coloca-se em questão não somente o dito, mas, principalmente, quem o disse. Esse estranho eu é duplo, daí a auto-sacanagem. Diante desse fundo duplo, ou fundo falso, quais não serão as vicissitudes da aparência? Esse é o estranhamento do texto: dizer e desdizer. Diante do qual, o leitor comum interromperia a leitura, não houvesse um humor que nos convidasse a navegar mesmo sem direção. E esse dilema, encenado por Mirisola “no espelho” em “ Quem é Wadih Jorge Wadih?”, informa por fim a desnecessidade de dar amparo a aparência e do quanto desastrado seria aquele que viesse a abandonar o espelho e destruir a imagem. A opção é clara, malgrado todas as tentativas de se desdizer. A opção é ignorar a si-mesmo, daí o “quem disse”. A experiência do enlouquecimento é a aventura de uma ausência, é a travessia do taradinho, pra quem a broxada chega a ter status maior que a tesão. Decadentismo porque o parque de diversões é decadente, é ruína, em “Parque Sideral”, além de moralmente corrupto. Na história da literatura brasileira, Mirisola ocupa posição privilegiada porque depois dele um novo ciclo se inicia, ainda que, em seus primeiros passos, restaurando o realismo ingênuo do século XIX. Mas de nada valerá o recalcamento. Para o desenvolvimento do novo, cumpre olhar não só a história do experimentalismo brasileiro no século XX, como também a história da literatura taradinha, não para inserirmo-nos dentro do que seria já impossível, mas para nos ajudar a vislumbrar com mais clareza outras alternativas.

6- E toda essa história me faz lembrar novamente Júpiter Maçã: “me sinto um pouco decadente, mas com estilo”. Tanto Júpiter quanto Mirisola são os últimos representantes de um ciclo que já não existe mais. E isso também é a experiência do taradinho: o que trapaceia e o que se deixa trapacear; o que atira flexas e ao mesmo tempo dá seu corpo à elas; o que tripudia e se deixa tripudiar. Aos ecos de Shopenhauer, termino com uma última ironia que consta de “Parque Sideral”: “ minha pessoa sou eu – o que é muito divertido, aliás. Minha pessoa? Ah sim, um minuto, vou chamá-la”.

sábado, 23 de julho de 2011

HOMEM-URUBU

HOMEM-URUBU


Gosto de ficar aqui porque tenho, como campo de visão, o lixão lá embaixo. Eu não seria o que sou hoje se não fossem as longas horas ali passadas. Uma antena de televisão me é suficiente para ficar aqui, parado. Por detrás, estende-se a cidade grande. Pouco interesse me suscitaria a cidade grande, não fosse ela o manancial, a origem de tudo isso que vejo agora. Uma réstia de sol ilumina o lixão lá embaixo. Uma cor plúmbea dele se desprende, e posso imaginar quantas cores não foram necessárias para produzir aquela tonalidade.


Desde que me sei como sou, é pra lá que volto meus pensamentos. Só o lixão me interessa. Nada me é mais compatível aos interesses. Percebo também um certo desprezo que meus companheiros me devotam, como se eu não pertencesse a mesma espécie. Esse desprezo é recíproco, ainda que em alguns momentos eu sinta o peso da solidão. Por enquanto, eu vou ficando por aqui, sem outra perspectiva. É possível que para muitos, isso seja bem pouco. Mas nada me é mais prazeroso do que ficar aqui, parado.


Parece que o tempo vai mudar. Está soprando um vento que vem das cordilheiras. Me é forçoso constatar que quando isso acontece, o tempo fica instável e sujeito a chuvas e trovoadas. Daqui, posso perceber também um cheiro que começa a se propagar em ondas contínuas. Diviso um pedaço de carne em poucos segundos. Me foi dado o poder de enxergar a longas distâncias e confesso que estou bem tentado a ir até lá.


Vários começam a dar o sinal. Estão a voar em círculo, cujo diâmetro diminui à medida que se aproximam. Nenhum urubu morre de fome. Em todas as direções, os cheiros denunciam um mundo farto e abundante. Posso vê-los cada vez mais perto do alvo. Entre eles, um permanece o guia. Cabe a este iniciar o processo da carnificina. Mas enquanto não fizer o pouso, nenhum dos demais o farão. Eis que, finalmente, pousa. Imediatamente, os demais o fazem, ainda que permaneçam a certa distância. O urubu é como todas as aves, arisco e desconfiado. Primeiro, ele sonda o terreno, o ambiente em torno, e só quando se certifica de que não há nenhum risco é que inicia o processo. Então, os demais se aproximam e, com as garras fincadas no alvo, dão início à devastação através de vigorosas bicadas. Daqui me é impossível vislumbrar a vítima, uma vez que meu campo de visão permanece tolhido por uma mancha negra que o recobre. Normalmente, seriam necessários poucos minutos a fim de que se dispersassem, devidamente alimentados. Os urubus são indispensáveis ao eco-sistema: sem sua atividade, a natureza estaria entregue a deterioração por parte de bactérias resistentes.

terça-feira, 19 de julho de 2011

CARTA ABERTA

CARTA ABERTA


Os assessores de imprensa fogem de mim.
Explico: minha vida profissional anda um bagaço.
Não que tenha se tornado. Sempre foi.
Mas às vezes me dá na telha fazer alguma coisa.
Sair dessa pachorra.
Eis que tenho uma idéia brilhante. E me ponho logo a executá-la.
Pesquiso no google os assessores de imprensa.
Um catatau de nomes.
E continuo pela madrugada adentro.
Eis que me deparo com um nome: Flávia Durante.
Parece legalzinha.
Seus clientes são moderninhos – essa é a condição sine qua non. Assessoria de imprensa precisa, antes de tudo, ser antenada.
Mas percebo que nossa gordinha não está fazendo mais assessoria pras bandas. Está agora ligada a uma certa empresa. Ainda assim, sugere nomes.
O primeiro, Fernanda Couto.
Então, escrevo a esta um email patético. Estejam certos de uma coisa: meus emails são sempre patéticos. Meu blog, também. Minhas músicas, também. Meus poemas, talvez.
Espero um dia, dois, três... resposta nenhuma.
Ela trabalha com Tiê, Thiago Pethit... todos muito moderninhos. Como eu queria fazer parte dessa nova geração! Rômulo Fróes podia me ajudar. Ele é um expert nisso.
Descubro então que existe um novo critério para as curadorias: seja novinho; em alguns casos, bichinha.
Mas não pensem que me desespero.
Não, não.
Escrevo também para uma certa Pamela – esta, de uma outra empresa – Alavanca.
E nada.
Ou seja: assessores de imprensa fogem de mim.
Como queria ter sido convidado para o prêmio Multishow de música! Nossa !!! Estar ao lado de Caetano, Lenine (arre!!!), Dudu Nobre, Zélia Duncan (putz!!!).
Mas se não sou convidado para o prêmio da MTV, vou ser para o do Multishow?
É querer demais, né.
Enfim, não ter sido gravado por ninguém não é nada. O duro mesmo, meus amigos, é ver os assessores fugindo.
Assim é.
Aqui se faz, aqui se paga.
Beijos

Insuficiência x Excesso?

Insuficiência x Excesso?


Diante de uma música difícil (Arrigo Barnabé), me deparo com a seguinte questão: foi produto de uma insuficiência ou excesso?
Diante de uma música fácil (Luiz Gonzaga), novamente me deparo com a questão: insuficiência ou excesso?
Talvez o excesso (é o que mais me interessa) possa se manifestar numa música simples ou complexa.
Já a insuficiência, por complexo, gosta mesmo é de parecer complexa.
Portanto, olhem com desconfiança as músicas complexas.
Atrás delas pode estar um gênio.
Ou uma besta.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O SILÊNCIO


O SILÊNCIO 


Silêncio da não comunicação.
Silêncio agudo, em chama.
De quem não aceita, nem reclama.
Silêncio que escorre, se alonga,
como um acorde sem som.
Silêncio da televisão desligada.
Silêncio que parece um parto.

Silêncio da minha mãe em coma.
Silêncio que se concentra,
indiferente a qualquer apelo.
Um silêncio longo, quieto,
em meio ao burburinho da cidade.
Silêncio que espera
(de quem escreve)
a palavra certa que não vem.
Silêncio que erra
entre as palavras
(exala seu cheiro
no interstício delas).

Silêncio que antecede ao poema
e continua nele.
Silêncio de onde vim
e para onde retornarei.
É o silêncio dela
que é o meu
diante do seu corpo.
É o silêncio da minha mãe em coma.
Silêncio que espera
e não responde
ao meu silêncio diante dela.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ÚLTIMO DIA

ÚLTIMO DIA


A Rio-Bahia tem me pemitido grandes descobertas.
Não é realmente necessário uma biblioteca ou um grande livro.
Grandes descobertas podem ser feitas no dia-a-dia: dentro do ônibus, cagando, tirando meleca...
Mais uma vez voltava de Minas pela referida estrada e eis que toca Último Dia(clássico de Paulinho Moska). É a música que o acompanha, através da qual todos o identificam.
Eu sempre achei essa música uma boa idéia.
E grandes canções são feitas com boas idéias.
Mas um trecho da música me deixa encafifado:
"Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia...
Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
"
E basta uma frase infeliz pra que canção se esvazie como um balão murcho.
Fazer canções não é fácil.
O pobre Paulinho Moska, sem se perceber, cai numa armadilha e mostra seu moralismo. Um mal que infesta a nossa MPB e que o faz um digno representante dela.
Meu último dia eu abriria tudo: o hospício, a delegacia e até o meu corpo.

domingo, 10 de julho de 2011

HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL



HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL


A Biblioteca Nacional publica mensalmente a revista de História, vendida em bancas de jornais e livrarias. A de número 61, deste mes, tem um depoimento meu sobre a Biblioteca Nacional. Pra quem curte História, é um prato cheio. A reportagem de capa é sobre o integralismo. Vale a pena assinar a revista. Textos excelentes e bom material gráfico.

sábado, 9 de julho de 2011

THE DEAD

THE DEAD


Um dia me perguntaram se toco violão.
Eu toco punheta.
Violão é o caralho!

Esse sou eu.
E nextel é uma merda.
É rádio, é celular.
e pode ser para você.
Não pode ser para mim.
O que é inteligente, ilimitado e direto,
não é poesia.
Acesse outros canais
porque não vou anunciar nada.

Eu sou vácuo,
malgrado tudo que minha vó dizia:
“transforme seus sonhos em vôo”.
Vó, eu os transformei em rela.
Vó que se transformou em pó,
eu tô voando.
Vó, eu to indo pra puta que pariu,
e desistir faz parte dos meus planos.

Tenho treze discos gravados,
um dvd,
um livro publicado,
e estou em vias de gravar meu último disco:
SKYLAB X.
Meu work in progress é o Godard City.

Ah sim: tenho um livro de contos que permanence infinitamente no prelo,
assim como eu.

Pra quem pensava em se matar aos dezessete,
até que tá uma merda.
Mas a gente pode retomar antigos projetos.
A gente pode dizer FIM
(o que não deve ser muito fácil
pra quem se enriqueceu com a indústria fonográfica).

A gente pode dar uma banana às redes sociais:
não usar intenet, rádio, celular,
e virar uma sombra de si mesmo.

Você vai estudar Publicidade?
Entendo.
Você gostou de “Cidade de Deus”?
Entendo.
Você quer comprar um Hyundai?
Entendo.
Você é um cara legal?
Entendo.

Em outras palavras:
você era um surfista,
um vagabundo,
e em três meses criou uma das maiores empresas do Brasil,
e em oito, uma das maiores do mundo.
Entendo.

E lá vou eu pelo Central Park.
Estou bem próximo ao Dakota.
Lutei, desisti, abandonei, duvidei, esqueci, me encontrei:
não sou ninguém
e não tenho escolha.
Vou como um autômato
ao lado de uma japonesa.

Chegamos finalmente ao destino,
quando um casal de fã pediu uma foto.

Essa é a minha vida,
esse é o meu clube.

RIO FANZINE

RIO FANZINE


Eu me lembro do inferno.
Mas esse inferno era meu, fazia parte da minha história.
Estava separado e morava só. Era um ap na rua Paissandu, de apenas um cômodo. Nem cozinha tinha.
Eu abria as páginas do Globo e ia direto para o Rio Fanzine. Na parte principal, uma novidade, a nova banda que nem suspeitava existir. Mas na coluna à direita, havia as sugestões, as festas que iam rolar no fim de semana, o show das bandas independentes. A letra era pequenininha, mas isso pouco importava. Naquela coluninha à direita estava o mapa da mina.
E lá ia eu pra Rua Ceará.
Era o saravá metal do Gangrena Gasosa.
Podia ser também o “Formigas Desdentadas”. O “Zumbi do Mato”. “Uzomi”.
E tinha também o Doctor Smith aos sábados, o DJ Edinho e o seu irmão Nelson, a banda “Congo” e o “Dogs in Orbit”.
E de repente, naquela boate da rua da Passagem, aparecia D2 e BNegão . E Bacalhau. E Philippe Seabra.
Eu sempre encostado numa parede com uma lata de cerveja.
E dá-lhe Cure, Bowie, Blur...
No rádio, o Ronca Ronca.

Essa nostalgia dos diabos, vem bem à propósito: é que na sexta-feira passada, foi a última edição do Rio Fanzine, depois de tantos anos. E o programa Ronca Ronca, que continua firme, agora na OI FM, registrou com emoção a origem e a história do Fanzine comandado por Tom leão e Carlos Albuquerque.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

ALEIJADO

ALEIJADO

Ele havia perdido uma perna
e sua dor era justo nela.
Ela lhe doía como se existisse.
Latejava, apesar do vazio.

Sentia o formigamento,
a sensação de frio, nela.
Havia sido decepada recentemente.
E, no entanto, ela insistia.

Quando caminhava de muleta,
era equilibrado pela perna perdida.
Nem ele mesmo entendia.

O aleijado era movido por ela.
O eixo do seu movimento era ela
- aquela perna, que não mais existia.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

CORAÇÃO ORDINÁRIO

CORAÇÃO ORDINÁRIO


Foi quando ela me disse:
você é bem sacana, menino.
Havia um clima entre a gente.
Mas ela tinha seus escrúpulos.

Eu punha, ela tirava.
Ela tirava, eu punha.
Concedeu finalmente que ficasse com a mão ali
e tentei introjetar o pai.

Ela disse "não"
e continuou a fingir que dormia.
Eu me humilhava, era um desgraçado.

Depois cansei.
Havia uma estátua grega
no seu coração ordinário.

sábado, 2 de julho de 2011

LAVAÇÃO DE ROUPA SUJA

LAVAÇÃO DE ROUPA SUJA


Ninguém é capaz de defender como eu, com unhas e dentes, o Fluminense diante de uma torcida adversária.
Mas esse post é para quem torce para o tricolor carioca.
É de Flu para Flu.
É lavação de roupa suja.

Mon semblable, mon frère, será que você está vendo o mesmo que eu?
A diretoria do nosso clube continua dando o ar de sua desgraça.
Contratações falaciosas, midiáticas.
Tudo parecendo que dessa vez vai.
Torcedores apaixonados já sonhando com o título que há tempos não ganhamos.
Mas a realidade implacável, dura, vem se aproximando cada vez mais. Tempos de vacas magras.
Eu poderia estar aqui festejando a segunda colocação.
Poderia afirmar que estamos há dois pontos do atual líder. E esquecer que esse mesmo líder tem um jogo a menos.
Poderia fazer de conta que não estou nem aí para o Cruzeiro um ponto atrás.
Poderia considerar o Botafogo inferior.
Ou seja: poderia me enganar.

Em relação a Fred, é caso perdido.
Ridículo culpar departamento médico.
A relação custo/benefício é menor que zero.
Basta comparar com Adriano, esse sim importante para o Fla: deu o título brasileiro ao rubro negro e voltou rapidinho para a Europa (não iam dispensá-lo, evidentemente).
Fred não deu nada ao Flu, a não ser a permanência na primeira divisão, o que é um tanto vergonhoso para a tradição tricolor, vamos combinar. E claro que os franceses não o querem de volta.

E Emerson?
E Deco?
Estranho serem liberados assim tão facilmente de seus clubes, vocês não acham?

O goleiro maluco quebrou o dedo.
Eu fui um dos que liderei campanha aqui nesse blog para que ele saísse do time no ano passado.
O Cuca até atendeu meus pedidos.
Mas o Muricy o trouxe de volta pro meu desespero.
Vocês não imaginam meu estado de pânico quando chutam ao nosso gol.
Porque tudo pode acontecer. Goleiro maluco é foda.
Antes pegar bolas defensáveis do que fazer milagres, e ainda por cima com os pés.
E logo no Flu, tradição de grandes goleiros: Veludo, Castilho, Felix, Paulo Vitor...

E a defesa, hein?
Nunca vi coisa tão atabalhoada.
Mas isso é recente. É coisa do Muricy. Com o Cuca não chegava a ser tão bizarra como é hoje. E como rifam a bola pra frente. Na minha época a gente chamava de “beque alemão”. O Leandro Euzébio ainda vai, é esforçado, faz alguns gols de cabeça. Mas esse Gum não desce, nem André Luis. Para um time que primou em sua história por uma defesa aguerrida... Altair, Galhardo, Denílson, Ricardo Gomes, Thiago Silva...

Enquanto Muricy cisma com Julio César... outra contratação equivocada, Fernando Bob – um jogador que ainda não está maduro – e Valencia, mais uma contratação que não disse a que veio junto com Belletti, Marquinhos estranhamente permanece na reserva. Carlinhos e Rodriguinho, até bem pouco tempo, também.
Segundo informações, Conca está jogando no sacrifício, o que acaba se refletindo em campo. E Washington, quando chega no segundo tempo, perde gols um atrás do outro por motivos óbvios (cansaço).

Antes do jogo com o Atlético Goianiense, depois de ter ganho do Ceará no Maracanã por 3x1, o técnico Muricy se dizia em paz. Depois daquele jogo, depois com o Corinthians, e depois com o bagaço do Flamengo... será que ele permanece em paz?
Ou esse filme eu já vi com o Palmeiras no ano passado?

De qualquer maneira, a questão não é o técnico, que inclusive foi ético com o clube, respeitando o contrato e recusando o convite para assumir a seleção.
O problema é a direção do clube.
Sempre foi e sempre será enquanto permanecer o núcleo que ali está.
As contratações são um belo exemplo.
Deus queira que eu esteja errado.