segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O AMOR CHEGA TARDE


O “Amor chega tarde”, atualmente em cartaz, escrito e dirigido pelo alemão Jan Schutte , lançado originalmente em 2007, e tendo no papel principal Otto Tausig como Max Khol, começa num sonho e acaba numa justaposição entre o real e a ficção (o texto). Esses três elementos se articulam para retratar Isaac Bashevis Singer, escritor de origem judaica, nascido na Polônia, e que escolheu mais tarde os EUA como segundo lar.

A passagem que o personagem empreende do real para o sonho e deste para a ficção, pode ser acompanhada pelos sucessivos tratamentos concedidos à morte: no sonho, quando se torna testemunho de um assassinato; no real, quando lhe é comunicada a morte de um hóspede, vizinho ao seu quarto de hotel; e na ficção (seu conto lido para um auditório), quando lhe é comunicado o suicídio da vizinha por quem se apaixonara.

O filme, a ficção de uma ficção, termina justo no momento em que o escritor complementa no trem a ficção lida anteriormente no auditório. Ele acrescenta ao texto o encontro do personagem principal do conto com a filha da suicida, comunicando-lhe a morte da mãe. Seus contos terminam sempre em morte, como já lhe havia observado sua antiga aluna, que lhe sugere deixá-los em aberto.

O filme, então, atendendo a sugestão, faz adentrar ao trem a jovem leitora que lhe havia pedido antes um autógrafo – naquela ocasião, ela lhe informa estar indo em viagem ao mesmo local onde na ficção, escrita depois, a filha da suicida se localiza.

Se a ficção do escritor tem como fonte o real, a cena final do filme inverte esse processo e faz o real repetir a ficção (Jorge Luis Borges?). Repetir o complemento que ele imprime ao texto original, só que, desta vez, ambos estando no trem. E nesse instante, ainda que na ficção ele fale sobre o inelutável da morte, estamos é diante da vida e suas possibilidades em aberto.

domingo, 21 de agosto de 2011

I love you

“Poucos autores de literatura contemporânea me dão mais vontade de ler do que teóricos tão diferentes entre si como Rorty, Davidson, Cavell, Agamben, Renato Barilli, Perniola, Soloterdijk, Jonathan Lear, Blanchot, Magris, Martha Nussbaum, Boris Groys... Há muita gente pensando o contemporâneo e pensando a Literatura. Fico imaginando se essa não será uma forma de literatura disfarçada. Uma nova máscara da literatura... me parecem mais radicais como invenção ficcional do que a narrativa dos tantos escritores mais ou menos conformados no esquema da prosa realista do século XIX”.

sábado, 20 de agosto de 2011

ALEKSANDR RÓDTCHENKO



O que é o banheiro do Instituto Moreira Salles? Fiquei chapado com aquele mármore. Viva os banqueiros do Brasil !!!!!
Mas não é disso que eu quero falar.
Nem mesmo dos filmes do Godard (uma excelente mostra que estava passando lá, incluindo os curtas “Todos os Homens se chamam Patrick” e “Charlotte e seu Jules”; pena que acabou).
Quero falar é de Aleksandr Ródtchenko, construtivista russo, que se embrenhou na fotografia, no designer, na escultura e na pintura. A banda Franz Ferdinand adora ele (ver a capa de “You Could Have It So Much Better” de 2005, baseada no retrato de Lily Brik, de 1924, feito pelo Homem).
As fotomontagens dele são uma das atrações da exposição com curadoria de Olga Sviblova. A exposição vai até janeiro.
Instituto Moreira Salles – Rua Marques de São Vicente, 476, Gávea.
Telefone: 21-3284-7400
OBS: Pra quem mora em Botafogo, os ônibus 158 e 170, que vão pela São Clemente, passam em frente ao IMS.
O modelo fotografado por Ródtchenko é o poeta Vladimir Maiakovski.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CAÇA ÀS BRUXAS

Uma notícia recente sobre a queda de braço entre Estado e traficantes no Rio de Janeiro nos dá conta da prisão de alguns Mcs por apologia ao tráfico.

Vou falar como compositor.

Acho preocupante a prisão por apologia a qualquer coisa.

Isso me faz lembrar a “caça às bruxas”.

Se começa em razão da apologia ao tráfico, pode amanhã se estender para a apologia de outras formas consideradas ilegais. É complicado e perigoso. É transformar a presença do Estado em algumas áreas que se faz necessário, numa arquipresença autoritária e policialesca.

Se estiver comprovada a relação dos Mcs com o tráfico, aí é uma outra história. Ou seja: sustentados pelo tráfico; ganhando salário do tráfico para fazer músicas simpatizantes ao movimento.

Mas se eles vivem dos shows e alguém ligado ao tráfico compra um determinado show deles... isso é crime?

É complicado.

Vou além. Digamos, hipoteticamente, que alguém concorde com o tráfico, ainda que não participe do movimento. E resolva defender seu ponto de vista numa canção. É crime?

Se for crime, está instaurada a censura. E a contrapartida dela, que é ainda pior para o artista: a auto-censura.

O grande equívoco por trás disso, é a falsa idéia de que a arte possa levar uma pessoa a fazer algo sugestionada. É como alguém tentando provar que o suicídio foi provocado por uma canção.

Esse poder mágico da palavra ou da música ou da pintura está assentado sobre o pior dos misticismos.

Eu vou além: não existe ofensa pessoal numa canção porque aqui estamos no campo do simbólico. Ofender diretamente é uma coisa muito diferente. Já no campo do simbólico, existe a metáfora: não se pode interpretar ao pé da letra.

Não quero com isso desconsiderar o belo trabalho da Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do sr. Beltrame. Acho inclusive correta a política de estender a prisão para o entorno do traficante, no caso, os familiares que se locupletam do dinheiro do tráfico através de imóveis e bens.

O complicado é prender por apologia ao movimento numa letra de canção.

Como compositor só queria dizer isso: no campo do imaginário, ou do simbólico, tudo é permitido. Misturar o real com o imaginário é o pior dos misticismos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

UM HOMEM TRANQUILO

UM HOMEM TRANQUILO


Escuta o murmúrio
do homem tranqüilo.
Por um triz não se tornou assassino.
É sóbrio, cordato.
Teria trucidado a mãe.
Mas tem os olhos serenos.
Um homem do bem.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

BORBOLETA NEGRA

BORBOLETA NEGRA


Parecia um corvo, um morcego,
não fosse o vôo delicado.
Era uma borboleta negra
pousando no espelho do quarto.

Suas asas eram negras como as páginas
de um livro esquecido que abri,
em cuja página lesse, ao acaso,
os versos deste poema.

Mas ela voa pela fresta da tarde
e meu rosto ileso, diante do espelho,
permanece o mesmo que sempre foi:
um rosto em branco e sem texto.

domingo, 14 de agosto de 2011

CAÇA ÀS BRUXAS


CAÇA ÀS BRUXAS


Uma notícia recente sobre a queda de braço entre Estado e traficantes no Rio de Janeiro nos dá conta da prisão de alguns Mcs por apologia ao tráfico.

Vou falar como compositor.

Acho preocupante a prisão por apologia a qualquer coisa.

Isso me faz lembrar a “caça às bruxas”.

Se começa em razão da apologia ao tráfico, pode amanhã se estender para a apologia de outras formas consideradas ilegais. É complicado e perigoso. É transformar a presença do Estado em algumas áreas que se faz necessário, numa arquipresença autoritária e policialesca.

Se estiver comprovada a relação dos Mcs com o tráfico, aí é uma outra história. Ou seja: sustentados pelo tráfico; ganhando salário do tráfico para fazer músicas simpatizantes ao movimento.

Mas se eles vivem dos shows e alguém ligado ao tráfico compra um determinado show deles... isso é crime?

É complicado.

Vou além. Digamos, hipoteticamente, que alguém concorde com o tráfico, ainda que não participe do movimento. E resolva defender seu ponto de vista numa canção. É crime?

Se for crime, está instaurada a censura. E a contrapartida dela, que é ainda pior para o artista: a auto-censura.

O grande equívoco por trás disso, é a falsa idéia de que a arte possa levar uma pessoa a fazer algo sugestionada. É como alguém tentando provar que o suicídio foi provocado por uma canção.

Esse poder mágico da palavra ou da música ou da pintura está assentado sobre o pior dos misticismos.

Eu vou além: não existe ofensa pessoal numa canção porque aqui estamos no campo do simbólico. Ofender diretamente é uma coisa muito diferente. Já no campo do simbólico, existe a metáfora: não se pode interpretar ao pé da letra.

Não quero com isso desconsiderar o belo trabalho da Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do sr. Beltrame. Acho inclusive correta a política de estender a prisão para o entorno do traficante, no caso, os familiares que se locupletam do dinheiro do tráfico através de imóveis e bens.

O complicado é prender por apologia ao movimento numa letra de canção.

Como compositor só queria dizer isso: no campo do imaginário, ou do simbólico, tudo é permitido. Misturar o real com o imaginário é o pior dos misticismos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

MARK SMITH


MARK SMITH


The Fall: Mick Middles e Mark E Smith – London Omnibus Press


The Story of Mark E. Smith and The Fall: Simon Ford – London: Quartet Books


Esses dois livros são uma oportuna lembrança de uma banda cuja chocante individualidade tem sido obscurecida por força de sua absoluta longevidade. Uma lembrança dessa banda não é o termo, tão enjoativamente acolhedor, “uma instituição”, mas a força de distensão com a intenção sinistra dos limites que a música pop pode atingir.

The Fall é uma banda que oscila entre o ruído branco e o pop insanamente acolhedor, assentado por desafinações, vocais sedutores, vanguardista ainda para o mundo, e por elementos do realismo ainda atravessado pelo mais incoerente surrealismo, e imagens de ficção científica. Eles cantam sobre o desemprego, remédios, viagem no tempo, cinzas do mal-laços adulterados-ruas, drogas, papas assassinados, apartamentos afastados-úmidos-encardidos, possessão demoníaca, duendes sob o assoalho e futebol. Eles passaram por mais de setenta músicos durante o percurso, ridicularizando e sobrevivendo ao punk, o indie dos anos 80, Madchester e o Britpop. Eles previram o seqüestro de Terry Waite e o atentado do IRA em Manchester no álbum liberado duas semanas antes de cada evento. Mark Eduard Smith é bem original.

O livro de Middles, aparentemente bem reputado, é definitivamente seu livro, escrito com a cooperação de Smith. É digno de nota o fato de que Middles, entre os jornalistas, ser um verdadeiro amigo de Smith, um homem que, em perpétua competição com os entrevistadores, vem tentando colocar frescurisse na cara de homem carregado (compreensível, talvez). Esse é o trabalho mais personalizado e mais subjetivo, carregado de suas memórias evocativas da cena punk de Manchester e observações perspicazes do contraste entre a cidade atual e a passada, em vez de minúcias dos antigos integrantes da banda (embora não seja listado todos os sessenta membros ao final). As próprias contribuições de Smith (assim como as de sua mãe, carinhosamente) significa que inquestionavelmente a voz de Smith está no centro da história.

O livro de Simon Ford é diferente, da mesma forma que um desenho técnico difere de uma pintura impressionista. É uma narrativa muito mais linear, preenchido com muito mais fatos em geral. Sem Smith para entrevistar, é dado voz às velhas avaliações e frequentemente descontentes de antigos integrantes do The Fall. Mark Smith aparece aqui como uma sinistra e enigmática presença de fundo – o autor tem um grande respeito pelo seu talento, mas é claramente desdenhoso de seus excessos.

A mesma história, porém, é contada em ambos. Smith, filho de um torneiro mecânico de Prestwich em Manchester (não de Salford como Smith reivindica para si mesmo), mostrou sinais precoces de características que marcariam sua liderança no The Fall: feroz individualismo, mente cruel e obstinada, briguento, uma poderosa curiosidade intelectual, fascínio por filosofia e literatura, forte interesse no psíquico e no oculto, e observação irônica misturada com orgulho e desprezo pelas pessoas ao redor.

Um aluno brilhante na escola primária (abandonou a faculdade por falta de interesse e grana), a emergência do punk ele viu se articular com desiludidos como ele e inspirou jovens da classe trabalhadora a formar o The Fall. Seu hábito de despedir membros da banda que não se adequassem, começou antes mesmo do seu primeiro disco de 1979, Live At The Witch Trials.

Ganhando uma legião de fãs de moderado tamanho mas fervorosa ao longo dos últimos vinte anos, The Fall transcendeu a fusão Velvets-Can-Rockabilly-Punk do seu início para um som levemente mais comunicativo com a incongruente adição do baixo glamuroso e californiano rickenbacker de sua esposa Brix nos anos 80. Nos anos 90 e além, eles passaram a aceitar os elementos do techno.

Há alguns depoimentos bem humorados em ambos os livros. Eles giram em torno principalmente da personalidade mordaz e pesada de Mark Smith, começando com a merda de gato espalhada por todo o apartamento, que ele achou que fosse razoável para a sua bem nascida esposa, recém-casada, Brix. Ele enfrenta as incontáveis multidões indiferentes e hostis, a má acústica dos teatros e da audiência em sua fase bizarra de músicas como “Hey Luciani” e “I am Kurious Oranj”, briga com Marc Riley num nightclub em New Zeland, intimida Morrisey nos escritórios da Rough Trade. Os seus longos silêncios às perguntas de Michael Bracewell numa entrevista pública, e manda a NME e Jô Wiley se fuderem quando eles lhe dão o prêmio Godlike Genius. O aumento de sua grosserias alcoolizado junto à sua banda que acabou levando-o preso em Nova York por agressão no palco, pode ter-lhe feito a perda da simpatia de muitas pessoas.

Mas apesar do seu comportamento às vezes chocante (mais parecido com o mijo-arte da WMC – Winter Music Conference – do que excesso de estrelismo do rock), até mesmo as avaliações de ex-integrantes da banda são unânimes na admiração pela poesia de Mark, sua habilidade em encher o mundano de macabro. Com Mark, você tem o melhor dos mundos. É divertido ouvir as palhaçadas de um cara urbano – suportando a dor – com trejeitos selvagens e bagunceiros, mas você está também de modo diferente a ouvir a influència de Blake, Dostoievsky, Lovercraft e Camus com Liam Gallagher. Tanto na gravação quanto no palco, mesmo quando ele está mais perverso, há uma estranha sabedoria nas declarações de Mark que te deixa tonto.

Onde ambos os livros, em última análise, falham é em capturar a essência de Mark ou o real encanto do The Fall. As caracterizações de Ford à respeito de Mark em relação a sua desilusão com o socialismo e suas visões anti-liberais sobre as Malvinas, CND, Europa e o terceiro mundo, como sendo de classe trabalhadora Conservadora, é uma grosseira simplificação. Esse tipo de avaliação é de um estranho conservadorismo que detesta tudo da classe média e suporta de todo coração os desordeiros de Moss Side.

Mesmo as freqüentes entrevistas de Middles não dão uma imagem muito clara. E, portanto, ninguém poderia concordar com seu fascínio enigmático. Em seu conjunto de discos, Ford especificamente cita Hex Eduction Hour como superior à Grotesque, Infotainment Scan acima de Middle-Class Revolt, e Unutterable acima de The Marshall Suíte, e eu com raiva respondo que não, não e não.

Lendo ambos os livros, é agradável e acrescenta ao seu conhecimento do grupo, mas apenas dando ouvido a eles proporcionam uma menor compreensão. Conhecimento e compreensão são naturalmente coisas muito diferentes. 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

UM HOMEM TRANQUILO


UM HOMEM TRANQUILO


Escuta o murmúrio
do homem tranqüilo.
Por um triz não se tornou assassino.
É sóbrio, cordato.
Teria trucidado a mãe.
Mas tem os olhos serenos.
Um homem do bem

domingo, 7 de agosto de 2011

FAKES & ANÔNIMOS


FAKES & ANÔNIMOS


Os fakes rastejavam pela superfície e se confundiam na multidão. Não tinham identidade própria. Imitavam de tal modo seus modelos, que custávamos a distinguir a cópia do original. Alguns chegavam mesmo a sobressair, fosse pela inteligência, fosse pelo dom da beleza. A população de fakes crescia a cada dia, e, no ritmo com que se reproduziam, estimava-se em breve a erradicação de todo original. O fake, entre outras características, trai por natureza própria, é dissimulado, e esconde um profundo complexo de inferioridade.

Havia também os anônimos. Pareciam duendes. Viviam debaixo da terra e pertenciam à mesma família dos vermes. Não tinham rosto e nos chamavam a atenção pelo ruído intermitente que emitiam. Os anônimos andavam em bando e se alimentavam de cadáveres. Eu sentia suas picadas e o trabalho contínuo de suas garras. Meu corpo ia aos poucos desaparecendo. Milhões deles faziam o trabalho invisível da decomposição e tinham contrato de trabalho por tempo indeterminado.

O meu grito ressoou. Olhei pro lado e minha mulher dormia com um olho aberto e outro fechado. Debaixo da cama, ouvia o rumor dos anônimos, que minutos antes me devoravam. Não havia saída. Voltei às camadas profundas do sono e lá me vi novamente molestado por eles: fakes e anônimos. Voltei então à superfície e minha mulher permanecia com um olho aberto e outro fechado. Eu não tinha saída, voltei a mergulhar e novamente subi. Naquele ir e vir, pude perceber então um espaço livre entre o sono e a vigília. Ali ao menos eu era eu. Não estava nem dentro, nem fora. Ainda que fosse uma região instável, ali pude finalmente descansar, tão longe e tão perto, dos fakes e dos anônimos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

JEAN-LUC GODARD



JEAN-LUC GODARD


“Film Socialisme”, integrando a programação do último festival de Cannes, apresenta-nos um Godard dividido aparentemente em três partes. A primeira parte, “Coisas como”, que vem a ser a do navio em alto mar, fazendo o cruzeiro marítimo Egito, Palestina, Odessa, Grécia, Nápoles e Barcelona, é predominada por uma profusão de imagens, vozes e ruídos, muitas vezes o diálogo não correspondendo à imagem. Com Godard aprende-se a técnica da sobreposição: um filme para muitas vozes tem que descobrir primeiro a dissonância numa mesma voz. Cortes abruptos, estética da fragmentação e do não-comentário, o ruído do vento captado pelo microfone, o som e a imagem do celular, a interferência das imagens amadoras. E nunca se foi tão antigo. Todo o lixo digital em proveito do Mesmo. À rigor, estamos falando do mesmo Godard, o de Alphaville e o de “Film Socialisme”. O uso de novas mídias serve apenas de sucata para ratificar o mesmo discurso. Esse antigo experimentalismo, ilustre desconhecido das novas gerações, serve de armadilha para novos diretores nostálgicos. E muitas vezes o resultado é catastrófico para eles. Porque brincar com imagens quando já não se pertence à geração dos anos 60, pode significar apenas exercício estético, masturbação visual, resultando geralmente em artificialismo estéril.

Mas se na primeira parte estamos na dimensão do espaço, com o belo discurso de Badiou sobre a Geometria, a terceira e última parte, “Nossas Humanidades”, fala do tempo enquanto durée. Imagens de arquivo são então aproveitadas, como é o caso de “Encouraçado Potemkin”, dando-nos a idéia de um documentário. Aqui, a “História do Cinema 1988-1998” com seus 240 minutos, parece se condensar muito bem. E se o discurso político está sempre presente, é aqui que ele cresce ainda mais. A pergunta que não quer calar: como um diretor moderno que se formou no mundo da publicidade, poderia entender a referência à ideologia na parte final do filme? A não ser que Godard sobreviva como fetiche, o que explica muitas vezes a falta de vigor dos novos filmes experimentais.

Entre o Godard da primeira e última parte, à rigor o Godard dos anos 60 e o Godard documentarista respectivamente, temos a segunda parte, “Nossa Liberdade”, da emissora de televisão, fazendo menção à esfera do público e do privado, e que remete a seus filmes mais sóbrios e maduros – esses mesmos que sofreram intensa resistência por parte do público e da crítica. Estamos nos remetendo a “Je vous salue Marie” sobretudo.

Essas três partes (ou seriam quatro?) fazem parte de sua dialética. Em cada parte, o todo já está presente. O que novamente traz à tona a idéia do Mesmo, presente tanto na primeira, quanto na segunda, quanto na terceira parte. Nada terá sido tão semelhante à Finnegans Wake do que a técnica em Godard, o mais barroco de todos os franceses.

“Film Socialisme” tem, portanto, a pretensão de fazer um grande recenseamento de sua própria filmografia – é sua metalinguagem. As novas tecnologias entram apenas como sucata e sempre a serviço de sua mesma técnica. A questão não está em negá-las, mas usá-las em proveito próprio. Vale então uma comparação entre Wim Wenders e Godard. A força desse último não reside numa capacidade camaleônica, que o fizesse se metamorfosear em diferentes formas pelo decurso dos anos. Sua importância é a mesma de João Gilberto: permenecer o mesmo. Toda sua potência advém do estranho fato de não se contaminar. E por não se contaminar, não contamina ninguém, ainda que muitos sonhassem seguir seu legado. A cada filme seu a mesma sensação que tive diante de um pedaço da lua exposto no Museu da Quinta da Boa Vista há muitos anos atrás.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

PIERRE BOURDIEU

PIERRE BOURDIEU





O corpo em Pierre Bourdieu vai assumir a importância que, a partir do século XX, lhe foi concedida pela Filosofia. Nas artes, nunca esteve tão em evidência, chegando inclusive à gêneros como a body-art. Mas diferentemente da licenciosidade da contra-cultura, o corpo em Bourdieu não é subversão. É antes expressão das relações sociais, índice simbólico do Poder. O seu conceito de “habitus” e “disposição” vem dar conta de um espaço da ação que não se confunde nem com a intenção husserliana, nem com o fisicalismo mecânico. E nesse meio caminho, fora da lógica das oposições, da qual o maior exemplo é o cartesianismo, Bourdieu vai indicar algo diferente do dualismo.

Contra a “Teoria da Ação Racional”, que via a ação ou como efeito de coações externas, ou como produto da escolha livre baseada em cálculo, Bourdieu vai fundamentar a ação no habitus, inscrito nos corpos pelas experiências passadas. O hábitus seria um esquema de percepção, apreciação e ação. O corpo passa então a ser um instrumento de conhecimento, ao invés de empecilho como era para o cristianismo e Platão.

Mas sempre em Bourdieu predomina o duplo: disposições e habitus (as disposições são maneiras de ser, resultantes da modificação do corpo pela educação; habitus é a incorporação dos princípios de visão e de divisão do campo, engendrando práticas ajustadas à ordem desse campo); corpo e princípio; posição e disposição; posição e tomada de posição; mundo e agente; história objetivada e história atuante; corpo e agente; estruturas objetivas e estruturas cognitivas; coisa e corpo. Esses pares de duplos não são regidos pela oposição. E até mesmo a idéia de concorrência, predominante nos jogos sociais, o que dá uma aparência de oposição e disputa, tem o fundo do consenso em razão das regras aceitas de comum acordo pelos competidores.

O que provoca a diferença de posições e, consequentemente, das disposições é a distribuição desigual do capital e o ato de violência original à essa implantação. A diferença pois de Bourdieu em relação aos irracionalistas, está no fato de que sua crítica à razão estar centrada na forma desigual de sua distribuição. O seu conceito de REALPOLITIK seria de uma auto-regulação que se daria no transcorrer do jogo, visando a universalização da razão, ao invés da uma defesa formal feita pelo humanismo.

Ao chamarmos a atenção para o par de duplos, estamos pondo em foco a estratégia de Bourdieu para fugir ao perigoso jogo dos contrários.É como se a sua negação aos possíveis de seu campo investigativo, não o levassem ao impossível, isto é, para fora do campo. São os limites da invenção, da qual, o indivíduo não seria o único responsável, o que acarreta todo um questionamento ao conceito de gênio ou ao conceito de dom: ambos naturalizando o que foi construído ou conseguido por arbítrio – naturalizar e recalcar são aqui sinônimos.

Mas no par de duplos, em Bourdieu, um elemento tem primazia. Sua perspectiva crítica em relação a Foucault e Nietzsche é em função da especificidade dos campos, impedindo que o jogo transcorrido no interior de cada um deles esteja reduzido sempre ao jogo de domínio e ao contingente. Fugindo a esse relativismo do aleatório, Bourdieu sublinha a regra como pano de fundo dos campos científicos: a concorrência regrada, conferindo plena eficácia aos mecanismos de universalização.

Por outro lado, existe uma margem de liberdade em seu pensamento que o faz distante do pessimismo. Bourdieu não acredita tanto na eficácia dos aparelhos ideológicos de Estado: o que fundamenta uma relação de domínio é principalmente o investimento do dominado. De pouco adiantará a mudança de Poder, se os habitus dos indivíduos estiverem ligados ao outro esquema distributivo. O tempo se torna fundamental nesse caso para que aos poucos (nunca é instantâneo) o Poder possa produzir mudanças no sistema de disposições. Em todo caso, o fundamento da ação ou da relação de domínio não está na coerção externa, e sim no interior de cada corpo, enquanto habitus.

De qualquer maneira, me parece que existe uma primazia. As regras no interior de um campo ou o habitus no interior de cada corpo?

No texto “Como ler um Autor?”, é ensaiada uma resposta em sua crítica à posição de “lector”, o qual estuda o seu objeto de interesse, desistorizando-o e permanecendo-lhe exterior. Bourdieu retira em Baudelaire a linha mestra de seu pensamento. Em seu primeiro artigo sobre a Exposição Universal de 1855, Baudelaire diz:

“ Eles (os viajantes solitários, diante de um produto chinês estranho, bizarro, cheio de arabescos, de colorido intenso e por vezes tão delicado a ponto de sumir) não permitem que nenhuma utopia pedagógica se interponha. Eles conhecem o inevitável nexo entre a forma e a função. Eles não criticam: contemplam, estudam. Se, em vez de um pedagogo, eu escolho um homem mundano, um inteligente, e o transporto para um lugar longínquo, estou certo de que, uma vez superados os espantos no desembarque, e tão logo estivesse estabilizado o hábito, com maior ou menos afinco, não tardaria uma simpatia tão intensa, tão penetrante, capaz de criar nele um mundo novo de idéias, que fará parte integrante de si, e que o acompanhará, sob a forma de lembranças, até a morte. Essas formas de construção, que de início contrariavam seu olho acadêmico, todo esse mundo de harmonias novas penetrará vagarosamente nele, penetrará com paciência...”

Esse processo é o mesmo que se dá diante da reativação de um objeto histórico, em razão da historicidade do Ser. O interesse que o historiador tem, será sempre em função do presente, em função do jogo e dos móveis constitutivos de um campo. Mas essa reativação, que tem, portanto, relação com o presente, quem operaliza é o agente. O par de duplos, coisa e corpo, estrutura e habitus, evidentemente apresentam uma cumplicidade, ao invés da relação de oposição. Ainda assim, a cumplicidade não apaga as diferenças dos agentes, dotados de um domínio desigual das forças de produção legadas pelas gerações anteriores.

Mas o estudo sobre Baudelaire indica algo mais. Pode haver diferença entre os agentes em relação a uma desigualdade de distribuição, mas pode haver diferença também pela ação original e imprevista do agente: um rearranjo das possibilidades do campo, provocando-se rupturas heróicas, de vida ou morte. Foi o caso de Baudelaire. O “impossível possível” é estruturalmente excluído do campo de possibilidades. Mas ao mesmo tempo, ele é acalentado por esse espaço, como vazio, falta. O trabalho de Baudelaire será justamente fazê-lo existir.

Portanto, o habitus não é algo fechado, ainda que suas mudanças não sejam instantâneas. A importância do corpo em Baudelaire, vem justamente daí: ao contrário da erudição, em que o objeto de conhecimento permanece exterior ao sujeito, busca-se fazê-lo afetar o sujeito, penetrar-lhe as entranhas, modificar sua vida.

Essa junção entre sujeito e objeto, não se dará, no caso dos estudos literários, fazendo do clássico, sobre o qual debruçamos, um nosso contemporâneo. Ainda que seja o presente e suas lutas a motivação que nos leva até ele, e sempre será assim, há que se evitar essa espécie de assassinato. Ao invés da banalização, via comentário, que necessariamente neutraliza toda a singularidade do objeto, cumpriria, segundo Bourdieu, ressucitar seu modus-operanti. E para tanto, haveria que se chegar ao momento inaugural, aquele em que o referido objeto de estudo nasce, dentro de seu campo de possibilidades reconstruído por nós. A leitura criativa, a de autor, se daria de forma que se pudesse dispor dos meios de participar do espaço de possibilidades artísticas propostas pelo campo no momento em que o nosso objeto de estudo, no caso, Baudelaire, estivesse a trabalhar.

Essa é a idéia de reativar a história: trazê-la para os dias de hoje, não como múmia paralítica, mas em sua singularidade prática, penetrando-se assim na intenção profunda do autor estudado. Somente assim, o sujeito do conhecimento seria afetado, criando um novo espaço correspondente dentro de seu campo de possibilidades.

II

Essa primazia do habitus em relação à posição no espaço, é na verdade a primazia das reações práticas a esse espaço, duplamente informadas pela estrutura do espaço e pela estrutura dos esquemas de percepção.

O habitus, portanto, tem esse duplo aspecto: o espaço e a percepção. Ou seja, é duplamente informado por eles. Mas é no aspecto da percepção que vão ocorrer as lutas entre pontos de vistas diferentes, visando impor uma representação do espaço, um princípio de visão e divisão diferente. Daí porque o habitus tem a ver com princípios de divisão, e as disposições com as maneiras de Ser resultantes da modificação dos corpos. Os esquemas de percepção têm portanto a primazia em relação ao espaço, ainda que a princípio seja um produto deste, assim como não se confundirão com a explicitação (estado de opinião constituída): “tais pontos de vistas não são necessariamente representações, tomadas de posição explícitas, verbais” (pág. 224). Essas lutas de pontos de vistas diferentes são primeiramente lutas simbólicas, práticas, E enquanto pontos de vistas, poderão estar sujeitos a desvios em mãos de porta-vozes.

O mérito de Baudelaire ao inventar uma “posição impossível” foi justamente seu modus-operanti e o esquema perceptivo que, com o tempo, se impôs aos demais. Através de uma combinação inédita entre poesia pura, via Gautier, e aberta ao mundo, como em Máxime du Camp, ele juntava coisas inadmissíveis para a época. Ao mesmo tempo, em ressonância aos campos específicos da modernidade, era contra restituir a linguagem específica da pintura por meios alheios à ela – com isso, também implementando a idéia da poesia autônoma aos outros campos. À essa ruptura teórica, se sucedia uma outra prática: “Baudelaire não só fala de arte, ele vive o personagem” (tão diferente da leitura desinteressada de lector).

III

Bourdieu incorporou, num uso prático, Baudelaire, para inventar um novo espaço nas ciências sociais: entre o mecanicismo com suas coerções, e o idealismo construtivista (a epistemologia), criou o conceito de habitus, que não é nem condições econômicas, nem a consciência ou razão raciocinante. É antes o princípio de divisão incorporado através da illusio (crença). Ainda assim, por mais que no corpo esteja incorporado as relações de Poder, tornando-se portanto uma dimensão coletiva, o esquema perceptivo que alimenta o habitus, assim como a distribuição desigual no espaço, favorecem o jogo ou a História como transcendência de um mundo em aberto, aniquilando qualquer fundamento.

Entre a reflexividade e a estratégia, a primeira ligada ao uso da razão voltada contra o próprio sujeito do conhecimento, e a segunda, à ação prática do sujeito visando sua satisfação numa determinada configuração de Poder, acredito que, apesar de serem ambas formas válidas de conhecimento, acarretando o caráter duplo da verdade, Bourdieu privilegie a segunda. Ainda assim, o seu realismo o situa numa posição eqüidistante entre Pascal e os escolásticos, extraindo de ambos as contribuições necessárias para um pensamento original.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ROMEU E JULIETA

ROMEU E JULIETA


Eu o havia conhecido numa festa no Circo Voador.
Até hoje não entendo direito o que aconteceu. Ele preenchia meus pensamentos e nunca me senti tão interessada por alguém como estava me sentindo por ele. Marcamos pela internet um encontro justo na véspera da eleição. Eu nunca tive relação com política, nunca entendi político e nunca fui partidária de ninguém. Na nossa conversa pela internet, remeti a ele uma canção: http://www.youtube.com/watch?v=7K1ic8lSkjs&feature=player_embedded
Ele achou a música muito melancólica.
Eu a achava linda.
E ficou pasmo em saber que eu votaria no Serra.
Mas isso pra mim não tinha a menor importância: votaria no Serra apenas por uma questão familiar. Todos os meus parentes eram Serra: era pra mim ponto pacífico.
Na véspera da eleição nos encontramos.
E eu me entreguei de corpo e alma.
Só não podia imaginar que ele era PT.
E enquanto me comia, mordia minha orelhinha e dizia sussurrando: você vai votar na Dilma. E repetia as palavras de ordem, durante toda a noite: você vai votar na Dilma. O meu ato de entrega vinha acompanhado do mesmo bordão: você vai votar na Dilma. Era impositivo. Nenhuma argumentação se sucedia. E nem era preciso diante da urgência dos corpos na cama.
No dia seguinte, procedi como de costume. E pra disfarçar, lembrei aos velhos o número 45.
Meus pais não podiam imaginar. Mas dentro da cabine eleitoral, diante de mim própria, minhas pernas tremeram, vacilaram.
Quem sou eu? Quem sou eu?
Eu era dele.
E lhe obedeci como uma cadelinha no cio.

sábado, 30 de julho de 2011

BIENAL DE SÃO PAULO

BIENAL DE SÃO PAULO


Nesse último domingo fui a 29. bienal de artes de São Paulo. Fui temeroso porque a anterior havia sido um fiasco. E não me arrependi.
Os urubus do Nuno Ramos já não estavam mais lá. Ao menos podíamos vislumbrar o coco deles, uma prova inequívoca das aves. O cenário é grandioso e a música que vinha da instalação se imiscuía pelas demais obras. Tínhamos que aturar Arnaldo Antunes cantando Bandeira Branca, o que depois de um certo tempo é uma tortura. Mas ainda assim, tem seu saldo positivo: uma obra se interage com a outra.

Essa estória de percorrer bienal com mapa na mão, não é a minha. Fica parecendo que você está no meio de uma aula. É o mesmo que percorrer Roma com mapa na mão. Quero poder me distrair, errar pelo caminho, ir meio que ao acaso. Não quero ser mais um neurótico que perde o prazer de ver, como esses japoneses com máquina fotográfica. E como tiram fotos na bienal! Os festivais de cinema são outra ocasião pra reunir neuróticos. Daí porque também raramente frequento festivais de cinema. O problema é que você acaba não vendo tudo. Mas tem que ver tudo? Nessa bienal, perdi Godard e Beckett, confesso.

Mas vi os slides de Nan Goldin. A “Balada da Dependência Sexual” já me teria bastado. É impactante, humano sem ser humanista, e americano até debaixo dágua.

Fujo de documentários políticos. Fujo de antropologia como o diabo da cruz. O que me importa saber do “Cacique de Ramos” via Carlos Vergara? Por outro lado, a experiência de Daniel Senise em “O Sol me Ensinou que a História não é tudo” me dá sempre a sensação de que é muito conceito e pouco resultado. Comparado a esses, Nelson Leirner salta aos olhos não só pelo que fez como pelo que continua a fazer: O Grupo Rex de “Adoração – altar a Roberto Carlos”, e, “Pacavoa” são exemplos de uma trajetória cuja inquietação é constante, independente do tempo.

Ainda que o tema da política estivesse arquipresente nessa bienal, diversos foram os tratamentos dados a ela. Em Alfredo Jaar, o massacre de Ruanda é visto através dos olhos de uma sobrevivente (uma montanha de filmes de slides com os olhos da sobrevivente). A esse tratamento direto, quase jornalístico, pouco complexo e com teor de denúncia, se contrapõe “A Origem do Terceiro Mundo” de Henrique Oliveira, que faz referência a “Origem do Mundo” de Gustav Coubert – portanto, político e, ao mesmo tempo, remetendo-se à História da Arte com uma espécie de perversão, que faz dele um dos trabalhos mais interessantes da Bienal - penetrar em seu interior esculpido com material de tapume de obra é uma experiência sensorial que nos faz lembrar as favelas e a periferia.

Gil Vicente na série “Inimigos” não faz denúncia: é performático, sintético e ao mesmo tempo imaginativo. Não existe discurso, apenas assassinato - uma outra forma de abordar o político. Sua outra série, “Suíte Safada”, é pornográfica e mostra desenhos que serviram de ilustração para alguns livros.

As trouxas ensangüentadas de Artur Barrio e suas performances mostram o político como vivencial, afetando seu próprio corpo. Suas "situações" são marcas de um trabalho pujante, tanto quanto o foi Helio Oiticica.

Em “O q rola VCV” de Ronald Duarte, a problemática é social mas a performance com o caminhão pipa jorrando água vermelha pelas ruas de Santa Teresa, é originalíssima, mais uma vez atestando o fato de que a fonte do problema é apenas o ponto de partida.

“Divisor” de Lygia Pape, de 1968, mostra a idéia de coletivo: as cabeças visíveis mas o restante do corpo como se fossem vários e um só. Essa forma de política, coletiva, sensorial, e que passa por uma decisão negociada do conjunto dos corpos, mostra o quanto estamos longe do jornalístico e do documentário.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

POR UMA LITERATURA

POR UMA LITERATURA


No conto “Taradinho Parte Dois” de Marcelo Mirisola, em seu livro “Fátima fez os pés para mostrar na choperia”, primeiro livro de sua ficção decadentista,do ano de 1998, existe uma tentativa de definição da prática tarada. Definição indefinida. Monólogo longe do fluxo de consciência porque aqui o que se pratica é, sobretudo, o controle, a usurpação das imagens. Mas um controle que pretende proceder à dispensa da unidade: controlar para não permitir que se caia nas malhas da identidade.

Ainda que algumas fontes de referência sejam citadas, como é o caso de Henry Miller e Walt Whitman, nem com esses a prosa de Mirisola se identifica, porque lhes faltariam o estilo forjado que sobra nele. É como se caíssemos num jogo de ilusão a que o autor nos leva. Porra louquice extremamente racional, ainda assim poderíamos cair na tentação de aproximá-lo à literatura beat. E nada mais distante.

2- Daí porque nem ideologia, nem o si-mesmo, os textos constróem um espaço próprio à experiência tarada: tirando proveito de si-mesmo, das experiências sacanas e egoístas, mas também tirando proveito dos esquemas significativos e ideológicos. Tirar proveito não significa ser. É uma experiência pragmática que o leva, não a entrar em choque e nem a se identificar, mas a um termo continuamente renovado para futuros golpes. Rivalizando em importância com “Taradinho Parte Dois”, “Quem é Wadih Jorge Wadih?” vai nos dar uma cartografia desse estranho eu, enquanto o primeiro tenta alinhavar a experiência tarada.

3- Nem tesão, nem gozo. Se nos esquemas ideológicos, onde se situam o marketing e os profissionais de toda ordem, existe gozo sem tesão, no si-mesmo prepondera a tesão sem gozo, o trepar e o bulinar em pensamento. A experiência do taradinho no espaço intermediário do supermercado, não é tesão nem gozo, e isso terá conseqüências na linguagem, agora não mais linear, como o era em Nelson e Dalton Trevisan, mas amarrada, gaga. A linguagem de um taradinho no supermercado é banal, mas carregada de intensidade. Se compararmos o texto de Mirisola com o “Catatau” de Paulo Leminski, ambos radicais, vamos vislumbrar tamanhas diferenças, como se pisássemos diferentes continentes. No “Catatau”, a experiência da linguagem chega ao ponto do neologismo; estamos no plano do significante, tontos diante da diabrura da linguagem, quase sem alma, na superfície. Em Mirisola, ao contrário, afirma-se a banalidade, a linguagem comum. Estamos diante de um texto que flui como na linguagem comum. A questão é a intensidade que pulsa nas frases: é o taradinho pedindo coca-cola, ou perguntando as horas, ou tomando no gargalo. Esse deslocamento, esse novo espaço do supermercado, funciona como uma substituição: são os sintomas que são importantes. Daí porque nem mais tesão, nem mais gozo. A diferença entre a linguagem comum, repleta de intensidade na sua prática cotidiana, e o texto de Mirisola, é que neste último não há nada inconsciente. Ele encena, através do excesso, o sintoma. Busca o paradoxo e o expõe à superfície do texto, quando só a custa de muita teoria poderíamos atingi-lo ou explicá-lo. Em “Parque Sideral”, ele afirma: “antes da praia é bom saber que um bocado de coisas estão acontecendo por lá... Chamam de inconsciente”.

4- O plano de fuga, que tem a ver com travessia, deslocamento, à contragosto, e fluidez, significa fuga de si e dos outros. É o contrário de não saber, é antes de tudo não pertencer. É quando, na travessia do ônibus, entre o supermercado e a praia, o taradinho não pode mais contar consigo mesmo.
Daí a idéia de movimento que a ficção de Mirisola nos remete, sem chegar a lugar algum. A eloqüência e a retórica do seu texto são o que melhor expressam esse processo contínuo de deslocamento, nomadismo, de idas e vindas sem fim. Às vezes, períodos longos, outras vezes, curtos como unha necrosada. Mas antes de tudo, retórica. Daí porque, resguardadas as devidas diferenças, poderíamos filiá-lo à tradição da literatura taradinha a que faz parte Nelson Rodrigues e que nos remete a Dalton Trevisan – Mirisola é o ápice dessa tradição, seu ponto limite, quando a linguagem se descola e se basta. Em “Mas um cara doce como eu?”, ele diz: “ é por causa da minha eloqüência. De vez em quando até eu me acho eloqüente e tarado. Um pouco mais eloqüente do que tarado”. A condição, pois, do taradinho é a eloquência, ou, em outras palavras, ser taradinho é uma questão de linguagem.

5- Mas quem é esse estranho “eu” que habita sua ficção? Desde o primeiro texto “Quem disse que resisti trinta anos?”, passando por “Carta de Amor” – “quem disse que não? Quem disse que não nos amamos?” – o “quem disse” é recorrente. Porque através dele coloca-se em questão não somente o dito, mas, principalmente, quem o disse. Esse estranho eu é duplo, daí a auto-sacanagem. Diante desse fundo duplo, ou fundo falso, quais não serão as vicissitudes da aparência? Esse é o estranhamento do texto: dizer e desdizer. Diante do qual, o leitor comum interromperia a leitura, não houvesse um humor que nos convidasse a navegar mesmo sem direção. E esse dilema, encenado por Mirisola “no espelho” em “ Quem é Wadih Jorge Wadih?”, informa por fim a desnecessidade de dar amparo a aparência e do quanto desastrado seria aquele que viesse a abandonar o espelho e destruir a imagem. A opção é clara, malgrado todas as tentativas de se desdizer. A opção é ignorar a si-mesmo, daí o “quem disse”. A experiência do enlouquecimento é a aventura de uma ausência, é a travessia do taradinho, pra quem a broxada chega a ter status maior que a tesão. Decadentismo porque o parque de diversões é decadente, é ruína, em “Parque Sideral”, além de moralmente corrupto. Na história da literatura brasileira, Mirisola ocupa posição privilegiada porque depois dele um novo ciclo se inicia, ainda que, em seus primeiros passos, restaurando o realismo ingênuo do século XIX. Mas de nada valerá o recalcamento. Para o desenvolvimento do novo, cumpre olhar não só a história do experimentalismo brasileiro no século XX, como também a história da literatura taradinha, não para inserirmo-nos dentro do que seria já impossível, mas para nos ajudar a vislumbrar com mais clareza outras alternativas.

6- E toda essa história me faz lembrar novamente Júpiter Maçã: “me sinto um pouco decadente, mas com estilo”. Tanto Júpiter quanto Mirisola são os últimos representantes de um ciclo que já não existe mais. E isso também é a experiência do taradinho: o que trapaceia e o que se deixa trapacear; o que atira flexas e ao mesmo tempo dá seu corpo à elas; o que tripudia e se deixa tripudiar. Aos ecos de Shopenhauer, termino com uma última ironia que consta de “Parque Sideral”: “ minha pessoa sou eu – o que é muito divertido, aliás. Minha pessoa? Ah sim, um minuto, vou chamá-la”.

sábado, 23 de julho de 2011

HOMEM-URUBU

HOMEM-URUBU


Gosto de ficar aqui porque tenho, como campo de visão, o lixão lá embaixo. Eu não seria o que sou hoje se não fossem as longas horas ali passadas. Uma antena de televisão me é suficiente para ficar aqui, parado. Por detrás, estende-se a cidade grande. Pouco interesse me suscitaria a cidade grande, não fosse ela o manancial, a origem de tudo isso que vejo agora. Uma réstia de sol ilumina o lixão lá embaixo. Uma cor plúmbea dele se desprende, e posso imaginar quantas cores não foram necessárias para produzir aquela tonalidade.


Desde que me sei como sou, é pra lá que volto meus pensamentos. Só o lixão me interessa. Nada me é mais compatível aos interesses. Percebo também um certo desprezo que meus companheiros me devotam, como se eu não pertencesse a mesma espécie. Esse desprezo é recíproco, ainda que em alguns momentos eu sinta o peso da solidão. Por enquanto, eu vou ficando por aqui, sem outra perspectiva. É possível que para muitos, isso seja bem pouco. Mas nada me é mais prazeroso do que ficar aqui, parado.


Parece que o tempo vai mudar. Está soprando um vento que vem das cordilheiras. Me é forçoso constatar que quando isso acontece, o tempo fica instável e sujeito a chuvas e trovoadas. Daqui, posso perceber também um cheiro que começa a se propagar em ondas contínuas. Diviso um pedaço de carne em poucos segundos. Me foi dado o poder de enxergar a longas distâncias e confesso que estou bem tentado a ir até lá.


Vários começam a dar o sinal. Estão a voar em círculo, cujo diâmetro diminui à medida que se aproximam. Nenhum urubu morre de fome. Em todas as direções, os cheiros denunciam um mundo farto e abundante. Posso vê-los cada vez mais perto do alvo. Entre eles, um permanece o guia. Cabe a este iniciar o processo da carnificina. Mas enquanto não fizer o pouso, nenhum dos demais o farão. Eis que, finalmente, pousa. Imediatamente, os demais o fazem, ainda que permaneçam a certa distância. O urubu é como todas as aves, arisco e desconfiado. Primeiro, ele sonda o terreno, o ambiente em torno, e só quando se certifica de que não há nenhum risco é que inicia o processo. Então, os demais se aproximam e, com as garras fincadas no alvo, dão início à devastação através de vigorosas bicadas. Daqui me é impossível vislumbrar a vítima, uma vez que meu campo de visão permanece tolhido por uma mancha negra que o recobre. Normalmente, seriam necessários poucos minutos a fim de que se dispersassem, devidamente alimentados. Os urubus são indispensáveis ao eco-sistema: sem sua atividade, a natureza estaria entregue a deterioração por parte de bactérias resistentes.

terça-feira, 19 de julho de 2011

CARTA ABERTA

CARTA ABERTA


Os assessores de imprensa fogem de mim.
Explico: minha vida profissional anda um bagaço.
Não que tenha se tornado. Sempre foi.
Mas às vezes me dá na telha fazer alguma coisa.
Sair dessa pachorra.
Eis que tenho uma idéia brilhante. E me ponho logo a executá-la.
Pesquiso no google os assessores de imprensa.
Um catatau de nomes.
E continuo pela madrugada adentro.
Eis que me deparo com um nome: Flávia Durante.
Parece legalzinha.
Seus clientes são moderninhos – essa é a condição sine qua non. Assessoria de imprensa precisa, antes de tudo, ser antenada.
Mas percebo que nossa gordinha não está fazendo mais assessoria pras bandas. Está agora ligada a uma certa empresa. Ainda assim, sugere nomes.
O primeiro, Fernanda Couto.
Então, escrevo a esta um email patético. Estejam certos de uma coisa: meus emails são sempre patéticos. Meu blog, também. Minhas músicas, também. Meus poemas, talvez.
Espero um dia, dois, três... resposta nenhuma.
Ela trabalha com Tiê, Thiago Pethit... todos muito moderninhos. Como eu queria fazer parte dessa nova geração! Rômulo Fróes podia me ajudar. Ele é um expert nisso.
Descubro então que existe um novo critério para as curadorias: seja novinho; em alguns casos, bichinha.
Mas não pensem que me desespero.
Não, não.
Escrevo também para uma certa Pamela – esta, de uma outra empresa – Alavanca.
E nada.
Ou seja: assessores de imprensa fogem de mim.
Como queria ter sido convidado para o prêmio Multishow de música! Nossa !!! Estar ao lado de Caetano, Lenine (arre!!!), Dudu Nobre, Zélia Duncan (putz!!!).
Mas se não sou convidado para o prêmio da MTV, vou ser para o do Multishow?
É querer demais, né.
Enfim, não ter sido gravado por ninguém não é nada. O duro mesmo, meus amigos, é ver os assessores fugindo.
Assim é.
Aqui se faz, aqui se paga.
Beijos

Insuficiência x Excesso?

Insuficiência x Excesso?


Diante de uma música difícil (Arrigo Barnabé), me deparo com a seguinte questão: foi produto de uma insuficiência ou excesso?
Diante de uma música fácil (Luiz Gonzaga), novamente me deparo com a questão: insuficiência ou excesso?
Talvez o excesso (é o que mais me interessa) possa se manifestar numa música simples ou complexa.
Já a insuficiência, por complexo, gosta mesmo é de parecer complexa.
Portanto, olhem com desconfiança as músicas complexas.
Atrás delas pode estar um gênio.
Ou uma besta.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O SILÊNCIO


O SILÊNCIO 


Silêncio da não comunicação.
Silêncio agudo, em chama.
De quem não aceita, nem reclama.
Silêncio que escorre, se alonga,
como um acorde sem som.
Silêncio da televisão desligada.
Silêncio que parece um parto.

Silêncio da minha mãe em coma.
Silêncio que se concentra,
indiferente a qualquer apelo.
Um silêncio longo, quieto,
em meio ao burburinho da cidade.
Silêncio que espera
(de quem escreve)
a palavra certa que não vem.
Silêncio que erra
entre as palavras
(exala seu cheiro
no interstício delas).

Silêncio que antecede ao poema
e continua nele.
Silêncio de onde vim
e para onde retornarei.
É o silêncio dela
que é o meu
diante do seu corpo.
É o silêncio da minha mãe em coma.
Silêncio que espera
e não responde
ao meu silêncio diante dela.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ÚLTIMO DIA

ÚLTIMO DIA


A Rio-Bahia tem me pemitido grandes descobertas.
Não é realmente necessário uma biblioteca ou um grande livro.
Grandes descobertas podem ser feitas no dia-a-dia: dentro do ônibus, cagando, tirando meleca...
Mais uma vez voltava de Minas pela referida estrada e eis que toca Último Dia(clássico de Paulinho Moska). É a música que o acompanha, através da qual todos o identificam.
Eu sempre achei essa música uma boa idéia.
E grandes canções são feitas com boas idéias.
Mas um trecho da música me deixa encafifado:
"Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia...
Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
"
E basta uma frase infeliz pra que canção se esvazie como um balão murcho.
Fazer canções não é fácil.
O pobre Paulinho Moska, sem se perceber, cai numa armadilha e mostra seu moralismo. Um mal que infesta a nossa MPB e que o faz um digno representante dela.
Meu último dia eu abriria tudo: o hospício, a delegacia e até o meu corpo.

domingo, 10 de julho de 2011

HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL



HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL


A Biblioteca Nacional publica mensalmente a revista de História, vendida em bancas de jornais e livrarias. A de número 61, deste mes, tem um depoimento meu sobre a Biblioteca Nacional. Pra quem curte História, é um prato cheio. A reportagem de capa é sobre o integralismo. Vale a pena assinar a revista. Textos excelentes e bom material gráfico.

sábado, 9 de julho de 2011

THE DEAD

THE DEAD


Um dia me perguntaram se toco violão.
Eu toco punheta.
Violão é o caralho!

Esse sou eu.
E nextel é uma merda.
É rádio, é celular.
e pode ser para você.
Não pode ser para mim.
O que é inteligente, ilimitado e direto,
não é poesia.
Acesse outros canais
porque não vou anunciar nada.

Eu sou vácuo,
malgrado tudo que minha vó dizia:
“transforme seus sonhos em vôo”.
Vó, eu os transformei em rela.
Vó que se transformou em pó,
eu tô voando.
Vó, eu to indo pra puta que pariu,
e desistir faz parte dos meus planos.

Tenho treze discos gravados,
um dvd,
um livro publicado,
e estou em vias de gravar meu último disco:
SKYLAB X.
Meu work in progress é o Godard City.

Ah sim: tenho um livro de contos que permanence infinitamente no prelo,
assim como eu.

Pra quem pensava em se matar aos dezessete,
até que tá uma merda.
Mas a gente pode retomar antigos projetos.
A gente pode dizer FIM
(o que não deve ser muito fácil
pra quem se enriqueceu com a indústria fonográfica).

A gente pode dar uma banana às redes sociais:
não usar intenet, rádio, celular,
e virar uma sombra de si mesmo.

Você vai estudar Publicidade?
Entendo.
Você gostou de “Cidade de Deus”?
Entendo.
Você quer comprar um Hyundai?
Entendo.
Você é um cara legal?
Entendo.

Em outras palavras:
você era um surfista,
um vagabundo,
e em três meses criou uma das maiores empresas do Brasil,
e em oito, uma das maiores do mundo.
Entendo.

E lá vou eu pelo Central Park.
Estou bem próximo ao Dakota.
Lutei, desisti, abandonei, duvidei, esqueci, me encontrei:
não sou ninguém
e não tenho escolha.
Vou como um autômato
ao lado de uma japonesa.

Chegamos finalmente ao destino,
quando um casal de fã pediu uma foto.

Essa é a minha vida,
esse é o meu clube.

RIO FANZINE

RIO FANZINE


Eu me lembro do inferno.
Mas esse inferno era meu, fazia parte da minha história.
Estava separado e morava só. Era um ap na rua Paissandu, de apenas um cômodo. Nem cozinha tinha.
Eu abria as páginas do Globo e ia direto para o Rio Fanzine. Na parte principal, uma novidade, a nova banda que nem suspeitava existir. Mas na coluna à direita, havia as sugestões, as festas que iam rolar no fim de semana, o show das bandas independentes. A letra era pequenininha, mas isso pouco importava. Naquela coluninha à direita estava o mapa da mina.
E lá ia eu pra Rua Ceará.
Era o saravá metal do Gangrena Gasosa.
Podia ser também o “Formigas Desdentadas”. O “Zumbi do Mato”. “Uzomi”.
E tinha também o Doctor Smith aos sábados, o DJ Edinho e o seu irmão Nelson, a banda “Congo” e o “Dogs in Orbit”.
E de repente, naquela boate da rua da Passagem, aparecia D2 e BNegão . E Bacalhau. E Philippe Seabra.
Eu sempre encostado numa parede com uma lata de cerveja.
E dá-lhe Cure, Bowie, Blur...
No rádio, o Ronca Ronca.

Essa nostalgia dos diabos, vem bem à propósito: é que na sexta-feira passada, foi a última edição do Rio Fanzine, depois de tantos anos. E o programa Ronca Ronca, que continua firme, agora na OI FM, registrou com emoção a origem e a história do Fanzine comandado por Tom leão e Carlos Albuquerque.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

ALEIJADO

ALEIJADO

Ele havia perdido uma perna
e sua dor era justo nela.
Ela lhe doía como se existisse.
Latejava, apesar do vazio.

Sentia o formigamento,
a sensação de frio, nela.
Havia sido decepada recentemente.
E, no entanto, ela insistia.

Quando caminhava de muleta,
era equilibrado pela perna perdida.
Nem ele mesmo entendia.

O aleijado era movido por ela.
O eixo do seu movimento era ela
- aquela perna, que não mais existia.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

CORAÇÃO ORDINÁRIO

CORAÇÃO ORDINÁRIO


Foi quando ela me disse:
você é bem sacana, menino.
Havia um clima entre a gente.
Mas ela tinha seus escrúpulos.

Eu punha, ela tirava.
Ela tirava, eu punha.
Concedeu finalmente que ficasse com a mão ali
e tentei introjetar o pai.

Ela disse "não"
e continuou a fingir que dormia.
Eu me humilhava, era um desgraçado.

Depois cansei.
Havia uma estátua grega
no seu coração ordinário.

sábado, 2 de julho de 2011

LAVAÇÃO DE ROUPA SUJA

LAVAÇÃO DE ROUPA SUJA


Ninguém é capaz de defender como eu, com unhas e dentes, o Fluminense diante de uma torcida adversária.
Mas esse post é para quem torce para o tricolor carioca.
É de Flu para Flu.
É lavação de roupa suja.

Mon semblable, mon frère, será que você está vendo o mesmo que eu?
A diretoria do nosso clube continua dando o ar de sua desgraça.
Contratações falaciosas, midiáticas.
Tudo parecendo que dessa vez vai.
Torcedores apaixonados já sonhando com o título que há tempos não ganhamos.
Mas a realidade implacável, dura, vem se aproximando cada vez mais. Tempos de vacas magras.
Eu poderia estar aqui festejando a segunda colocação.
Poderia afirmar que estamos há dois pontos do atual líder. E esquecer que esse mesmo líder tem um jogo a menos.
Poderia fazer de conta que não estou nem aí para o Cruzeiro um ponto atrás.
Poderia considerar o Botafogo inferior.
Ou seja: poderia me enganar.

Em relação a Fred, é caso perdido.
Ridículo culpar departamento médico.
A relação custo/benefício é menor que zero.
Basta comparar com Adriano, esse sim importante para o Fla: deu o título brasileiro ao rubro negro e voltou rapidinho para a Europa (não iam dispensá-lo, evidentemente).
Fred não deu nada ao Flu, a não ser a permanência na primeira divisão, o que é um tanto vergonhoso para a tradição tricolor, vamos combinar. E claro que os franceses não o querem de volta.

E Emerson?
E Deco?
Estranho serem liberados assim tão facilmente de seus clubes, vocês não acham?

O goleiro maluco quebrou o dedo.
Eu fui um dos que liderei campanha aqui nesse blog para que ele saísse do time no ano passado.
O Cuca até atendeu meus pedidos.
Mas o Muricy o trouxe de volta pro meu desespero.
Vocês não imaginam meu estado de pânico quando chutam ao nosso gol.
Porque tudo pode acontecer. Goleiro maluco é foda.
Antes pegar bolas defensáveis do que fazer milagres, e ainda por cima com os pés.
E logo no Flu, tradição de grandes goleiros: Veludo, Castilho, Felix, Paulo Vitor...

E a defesa, hein?
Nunca vi coisa tão atabalhoada.
Mas isso é recente. É coisa do Muricy. Com o Cuca não chegava a ser tão bizarra como é hoje. E como rifam a bola pra frente. Na minha época a gente chamava de “beque alemão”. O Leandro Euzébio ainda vai, é esforçado, faz alguns gols de cabeça. Mas esse Gum não desce, nem André Luis. Para um time que primou em sua história por uma defesa aguerrida... Altair, Galhardo, Denílson, Ricardo Gomes, Thiago Silva...

Enquanto Muricy cisma com Julio César... outra contratação equivocada, Fernando Bob – um jogador que ainda não está maduro – e Valencia, mais uma contratação que não disse a que veio junto com Belletti, Marquinhos estranhamente permanece na reserva. Carlinhos e Rodriguinho, até bem pouco tempo, também.
Segundo informações, Conca está jogando no sacrifício, o que acaba se refletindo em campo. E Washington, quando chega no segundo tempo, perde gols um atrás do outro por motivos óbvios (cansaço).

Antes do jogo com o Atlético Goianiense, depois de ter ganho do Ceará no Maracanã por 3x1, o técnico Muricy se dizia em paz. Depois daquele jogo, depois com o Corinthians, e depois com o bagaço do Flamengo... será que ele permanece em paz?
Ou esse filme eu já vi com o Palmeiras no ano passado?

De qualquer maneira, a questão não é o técnico, que inclusive foi ético com o clube, respeitando o contrato e recusando o convite para assumir a seleção.
O problema é a direção do clube.
Sempre foi e sempre será enquanto permanecer o núcleo que ali está.
As contratações são um belo exemplo.
Deus queira que eu esteja errado.

terça-feira, 28 de junho de 2011

COMO COMPRAR?

COMO COMPRAR?


É com tiragem limitada que começou a ser vendido o álbum duplo SKYGIRLS. E a originalidade, além das músicas, foi a forma como foi confeccionada a capa (material reciclado e nas mesmas dimensões de um vinil). O responsável por esse empreendimento é o Flavio Lazarino do selo "Psicotropicodelia", pelo qual saiu o álbum. E a forma de comprar é idêntica a forma de compra dos cds pelo site.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOBRAS DE GRAVAÇÃO

SOBRAS DE GRAVAÇÃO


Atendendo a pedidos, vou esclarecer a origem de uma determinada música: Como é que eu posso fazer pra construir um muro .
Ela de fato está numa coletânea que eu próprio liberei para o iMusica - distribuidora de música via internet - a pedido do Felipe Llerena. Selecionei um determinado número de músicas e liberei pra eles. Claro que até agora não vi um tostão dessas vendas. Mas essa música está presente nessa coletânea, ainda que não esteja gravada em nenhum de meus discos, daí a estranheza de alguns.
A origem dela é de um show que gravei no antigo Balroom. O show foi bem bacana mas o resultado da gravação não foi lá essas coisas. A minha idéia era transformar esse show num disco. Acabei desistindo. Ele não atendia as minhas exigências e foi pra gaveta. O curioso é que o Benvenido, o mesmo que havia gravado o show referente ao SKYLAB II no Hipódromo Up, não foi capaz de obter o mesmo resultado no show do Balroom. Esse show tem algumas músicas interessantes e a minha idéia é vir um dia a regravá-las. Mas por enquanto, permanecem como sobras de gravação.

A idéia que me levou a contruir essa canção foi a obra de Bispo do Rosário - "Como é que eu devo fazer um muro no fundo da minha casa?".

A ESSÊNCIA TRICOLOR

A ESSÊNCIA TRICOLOR



Para um tricolor histórico como eu, e posso lembrar aqui Nelson Rodrigues quando dizia que tricolor mesmo é o Fluminense, os outros tricolores somente o são por uma concessão, poderia citar vários nomes que pertencem a essência tricolor. De tempos distintos. Mas que por terem permanecido e brilhado no FLU, chegam a fazer parte da alma tricolor. Castilho é o primeiro de todos. Depois, Telê, Felix, Jair Marinho, Altair, Escurinho, Lula, Samarone, Romerito, Washington, Assis, Carlos Alberto Pintinho e Thiago Silva. Outros nomes que pertenceram ao FLU, tais como Rivelino, Gerson, Paulo César Caju e Fred, a meu ver, não fazem parte da essência tricolor por terem tido uma passagem rápida ou por terem brilhado mais em outras equipes. Mas é preciso incluir com urgência um outro nome, esse sim fazendo parte da essência tricolor. O que ele já fez pelo FLU é suficiente, ainda que não tenha dado a equipe nenhum título. Estou me referindo ao argentino Dario Conca, que raramente se machuca e expressa bem o time de guerreiros.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A ESSÊNCIA DO FLU

A ESSÊNCIA DO FLU


Hoje termina o brasileirão.
O campeonato tornou-se inusitado porque pela primeira vez na história as atenções estão voltadas para a parte debaixo da tabela. A grande incognita é: quem vai cair?
A decisão do campeonato perdeu a graça. Só um milagre tira do Flamengo a taça.
A decisão hoje no Maracanã tem cheiro de comemoração e não de disputa.
Já Botafogo, Fluminense e Curitiba tornaram-se o epílogo do campeonato.
Cabem a eles o lance final, a última disputa, o veredito.
E se vocês pensarem bem, o brasileirão só adquiriu esse brilho final graças ao Fluminense. Coube a ele a grande surpresa: o milagre da ressucitação.
Nem mesmo o Fla que acabou atropelando no final, pode ser visto como uma zebra. O seu crescimento foi gradativo. Nem mesmo quando o Palmeiras e o São Paulo estavam na frente, podia-se descartar o rubro negro. Ele sempre teve chances matemáticas para chegar aonde está hoje.
Já o Flu... É o imponderável. Todos já o consideravam morto.
A sua reação foi desesperadora.
O último jogo no Maracanã pela Sul-americana foi a mais pura expressão do FLU no brasileirão: a luta contra o tempo.
Era preciso fazer 4 gols e o tempo passava.
Essa sensação, todo torcedor do FLU conhece bem.
O goleiro fazendo cera, o juiz fazendo cera e o tempo passando.
É desesperador.
E vem a pergunta:
vamos morrer na praia de novo?
Essa pergunta só vamos poder responder daqui algumas horas.
Mas pra mim já valeu e termino aqui a saga tricolor.
Ao final da partida com o LDU, o time foi apaudido.
A gente sabe que essa é a essência do FLU.
Na nossa história nunca tivemos um time de craques absolutos. Essa história é de Flamengo, Santos e Botafogo.
A nossa história é de guerreiros, não de craques (eu já falei no tópico anterior que não curto gênios).
Por isso que sempre cito os nomes de Samarone, Castilho e Pinheiro.
Estava no Maracanã, naquele fatídico jogo com o Botafogo em 1971. Botafogo de Jairzinho e Paulo Cesar Caju (craques absolutos). Bastava o empate para que o alvi-negro fosse campeão estadual e aos 43 minutos Lula fez o gol do título tricolor.
Essa é a nossa essência.
O jogo de logo mais no Couto Pereira vai ser duríssimo.
Seja qual for o resultado, vamos pro campo de batalha como gerreiros.
É a nossa essência.

domingo, 19 de junho de 2011

FLU NA CABEÇA

FLU NA CABEÇA


Bem, quero informar aos apressadinhos de plantão que existe mais um jogo, a Sul Americana ainda não terminou. Alguns tricolores estão céticos. Eu cantei o jogo antes aqui mesmo. Falei que o FLU estava a beira de um infarte. A ausencia do Digão foi sentida. A do Maicon também. Falei que as contusões começariam a aparecer e que o FLU corria contra o tempo em função de uma série de erros da administração do clube.
Mas a Sul Americana ainda não terminou.
Eu acredito, vou ao Maraca na quarta feira e quem viu o FLU na situação que estava há um mes antes, sabe do que eu estou falando.
Não riam.
O Fluminense é uma entidade dourada.
Aquelas três cores que traduzem tradição.
OBS: Curitiba voltou a ser o que sempre foi: chuva, muita chuva. Meu show por aqui acontece hoje no Ópera 1. E minha participação ontem na rádio Kaos foi supimpa.

sábado, 18 de junho de 2011

ARENA DA BAIXADA

ARENA DA BAIXADA


Meu último dia em Curitiba foi "sui generis".
Conheci a Arena da Baixada e assisti ao jogo Botafogo X Atletico Paranense na cabine da radio 91 FM.
Ao meu lado dois paranaenses roxos: o que radiava a partida e o que comentava.
Compreendo o bairrismo, mas que ele possa ser usado com mais elegância e parcimônia.
Não era o caso dos dois que estavam ao meu lado.
O comentarista, antes da partida, me lembro bem... falava assim: em campeonato por pontos corridos, sempre quem leva a melhor é o clube mais rico e mais bem administrado. Por isso o São Paulo vai ser campeão. 
E o sujeito falava todo seguro de si.
Aliás, abrindo um parênteses, deveria-se estudar à sério essa classe tão bizarra que é a do "comentarista de futebol".
Moral da estória: o São Paulo levou um sabão e tudo indica que o FLA, que sempre teve uma administração louca, vai levar o título.
Quanto a partida, o Botafogo, principalmente no segundo tempo, parecia satisfeito com o placar. Parece ser um candidato seríssimo a segunda divisão.
Já o FLU... não digo nada, vamos esperar quarta e domingo. Tudo indica que teremos belas surpresas.
Vou trazer boas recordações de Curitiba.
O show foi duca!!!!!!
E o Carlos, meu produtor em Curitiba, é o cara !!!!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MISÉRIA DOURADA

MISÉRIA DOURADA


Gastamos nossa vida,
pedra engastada.

O futuro se tornou fumo.
Não investimos,
não construímos
e tudo passou.

Ficou apenas um reflexo dourado,
consequência da vista cansada.

Beleza estéril.
Miséria dourada.