
O “Amor chega tarde”, atualmente em cartaz, escrito e dirigido pelo alemão Jan Schutte , lançado originalmente em 2007, e tendo no papel principal Otto Tausig como Max Khol, começa num sonho e acaba numa justaposição entre o real e a ficção (o texto). Esses três elementos se articulam para retratar Isaac Bashevis Singer, escritor de origem judaica, nascido na Polônia, e que escolheu mais tarde os EUA como segundo lar.
A passagem que o personagem empreende do real para o sonho e deste para a ficção, pode ser acompanhada pelos sucessivos tratamentos concedidos à morte: no sonho, quando se torna testemunho de um assassinato; no real, quando lhe é comunicada a morte de um hóspede, vizinho ao seu quarto de hotel; e na ficção (seu conto lido para um auditório), quando lhe é comunicado o suicídio da vizinha por quem se apaixonara.
O filme, a ficção de uma ficção, termina justo no momento em que o escritor complementa no trem a ficção lida anteriormente no auditório. Ele acrescenta ao texto o encontro do personagem principal do conto com a filha da suicida, comunicando-lhe a morte da mãe. Seus contos terminam sempre em morte, como já lhe havia observado sua antiga aluna, que lhe sugere deixá-los em aberto.
O filme, então, atendendo a sugestão, faz adentrar ao trem a jovem leitora que lhe havia pedido antes um autógrafo – naquela ocasião, ela lhe informa estar indo em viagem ao mesmo local onde na ficção, escrita depois, a filha da suicida se localiza.
Se a ficção do escritor tem como fonte o real, a cena final do filme inverte esse processo e faz o real repetir a ficção (Jorge Luis Borges?). Repetir o complemento que ele imprime ao texto original, só que, desta vez, ambos estando no trem. E nesse instante, ainda que na ficção ele fale sobre o inelutável da morte, estamos é diante da vida e suas possibilidades em aberto.

